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“Não me aflijo com as críticas e não me envaideço com os elogios”

A frase que dá título a esta entrevista está registada no braço esquerdo de Duas Caras. Esta sexta-feira, portanto, o rapper recorreu a uma tatuagem para partilhar uma (nova) forma de estar na música. Na verdade, nas linhas que se seguem, Kara Boss falou um pouco de tudo, tendo, como mote, o seu novo EP: Afromatic. Além da sua nova fase, o rapper falou do seu processo criativo, do que quer fazer da sua música, abordou a identidade, a importância da liberdade e ainda referiu-se à temática musical que será a sua aposta daqui em diante. Claro, justificou por que só agora efectivou uma parceria em disco com… Azagaia.

 

Duas, comecemos esta conversa com uma pergunta que, na verdade, é um dos títulos de uma música do EP Afromatic?: “Qual é o assunto?” à volta deste seu quarto trabalho discográfico a solo?

É o quarto disco?! Nem sequer tinha a noção disso. Bem, Afromatic é o título que escolhi para esta minha quarta proposta discográfica, que é um marco naquilo que é a minha trajectória, com pouco mais de 20 anos. No EP faço a consolidação desta que é a minha nova forma de estar e de ser. Se em Djundava estava um bocadinho reticente, em relação ao rumo que iria tomar, no Afromatic temos o consolidar desse meu desejo de me encontrar na música. E, na verdade, é uma busca incessante por um RAP que me identifica como moçambicano e como africano.

 

Sobre a identidade, é por isso que na música “Mamyo” temos a seguinte afirmação: “Novo Duas. Então, esquece o antigo”?

A música acaba sendo um manifesto de toda a transformação interna que estou a atravessar. E quando digo transformação, é a todas as dimensões. Do ponto de vista espiritual e físico até. Tenho passado por várias transformações ao longo do tempo. Antes, porém, eu passava por essas metamorfoses, de uma forma inconsciente. Agora, mais do que nunca, nesta idade que se diz ser da consciência (a partir dos 40 anos), essa mudança é mais consciente. No passado, eu tinha as minhas dúvidas. Actualmente, estou mais seguro do que quero para a minha carreira e para a minha vida pessoal. E, no meu caso, eu sempre quero mais. Sobre isso, ainda há dias alguém me perguntava se eu tinha mais sonhos. Tenho vários, sei que não vou conseguir realizar todos, mas luto todos os dias para que isso aconteça.

 

Ou seja, conforme sugere em “Mamyo”, está a competir consigo mesmo. Desde o princípio.

Sim, sempre foi assim, desde o princípio. A tendência que as pessoas têm é de fazer comparações. Às vezes, até de forma implícita. Parece uma coisa do ser humano e nós vimos isso nas redes sociais, quando as pessoas fazem comparações que, às vezes, podem não corresponder à verdade. No meu caso, estou numa luta constante em sempre querer encontrar uma melhor versão de mim. Eu costumo dizer que se praticar algo que quero ver em mim 1% por dia, ao fim de 365 dias vou atingir 20% daquilo que quero atingir. Então, isso encaixa-se nessa busca incessante de encontrar a melhor versão de mim mesmo e não para as pessoas.

 

Nessa ordem de ideias, como é que se quer ver daqui em diante, mas considerando a sua trajectória artística que lhe permite ser um dos artistas importantes no universo da língua portuguesa?

Eu quero deixar um legado, principalmente para os mais novos. Quero contribuir para escrevermos o nome de Moçambique no cenário do Hip-Hop internacional. Acho que a melhor forma de eu fazer isso é criar nessa identidade pela qual eu busco. Acho que só poderemos ter alguma coisa a dizer não do sentido de ser mais uma réplica do RAP americano, mas no sentido de ser um rapper genuinamente moçambicano.

 

Ainda em “Mamyo” ouvimos-lhe dizer que não espera pela aprovação de ninguém, nem da família, e que é capitão do seu barco. Em Djundava assume que é ovelha negra da família. Como é que este mesmo sujeito pode contribuir para colocar o RAP moçambicano no cume da montanha, ora sendo ovelha negra da família, ora não esperando pelo seu apoio?

É uma pergunta interessante. Para começar, até onde eu sei, sou o único artista da família e tive uma trajectória bastante peculiar. Para já, o meu nome já diz tudo: Duas Caras. Na infância, eu era bastante indisciplinado, mas os meus pais nunca souberam disso. Era um excelente filho em casa. Mas também sempre fui muito introvertido. Então, Duas Caras acaba por ser uma versão melhorada de Hermínio Chissano. E sinto-me mais confortável como Duas Caras e não como Hermínio Chissano, porque Hermínio Chissano tem mais falhas e mais imperfeições. Então, o personagem Duas Caras, que eu construí, é mais interessante do que Hermínio Chissano.

 

A comunidade Hip-Hop nem quer saber do Hermínio Chissano, mas do Duas Caras, que é amado e muito exigido. Às vezes, até se tenta colocar rótulos nos estilos do rapper. Como é lidar com isso?

Quem acompanha a minha trajectória, sabe que sempre gostei de experimentar coisas novas. Xtaka Zero foi um exemplo disso. Fizemos uma mistura de RAP e Pandza e as opiniões são validas, são pontos de vista e diferem de indivíduo para indivíduo. Estou confortável com as opiniões, sejam boas ou más. O mais importante é que faço o meu trabalho com muito amor, zelo e profissionalismo. Tento dar 100% de mim para que o produto final seja agradável. Primeiro, para mim, e, depois, para as pessoas.

 

Ao longo dos anos, habituou à comunidade Hip-Hop a um certo tipo de RAP. É verdade que fez experiências como Xtaka Zero e, na altura, muitos fãs não lhe perdoaram por isso. Se optasse em fazer álbuns e EP do RAP “genuíno”, venderia à vontade, se a questão fosse dinheiro. Não acha que está a correr risco, quando faz experiências na ordem Djundava e Afromatic?

É um risco que vale a pena porque, em termos de RAP “genuíno”, sinto que não tenho mais nada a contribuir. Quem acompanha a minha carreira sabe de todas as obras que tive a oportunidade de lançar no mercado. Existem outros valores que podem levar isso adiante. Quanto a mim, quero atingir novos horizontes e continuar a ter vontade de fazer música, porque uma pessoa como eu não faz música por dinheiro. Se fosse por dinheiro, estaria a fazer outra coisa, porque não é a música que nos dá dinheiro.

 

Como é que justifica então “No Money no RAP”?

Na verdade, a marca foi uma ideia de um fã. Nós já trabalhávamos com merchandise há muito tempo, mas não queríamos que agora a marca fosse muito ostensiva. até porque há pessoas que não se sentem muito confortáveis em usar uma t-shirt com o nome Duas Caras. Acho que “No Money no RAP” acaba por ser mais positivo, mas abrangente e as pessoas sentem-se mais confortáveis, porque ao fim ao cabo acaba por ser um movimento, porque sem mola, também, não há RAP.

 

Sinto muita relação entre o que me diz nesta conversa e o que canta. Por exemplo, na música “Real talk”, de Allan, o Duas diz assim: “Amo demais o RAP, mas é assim: preciso de algo mais sex”…

Era uma forma de exteriorizar o que me vai à alma, porque já tive muita oportunidade de fazer o RAP que eu fazia. Agora, deixo isso para a nova geração de rappers. Se calhar, eles podem fazer melhor do que eu. Pessoalmente, quero experimentar novas coisas, porque isso me dá mais motivação, porque o tipo de música que faço agora não é fácil de fazer. Cada vez mais me interessam os novos fãs que estou a granjear, incluindo crianças, porque têm mais empatia e conseguem absorver melhor as mensagens do que os fãs tradicionais.

 

A dificuldade excita-lhe mais?

Sim. A dificuldade motiva-me mais. Eu já experimentava cantar há muito tempo. Todas as obras da G. Pro sempre teve a minha mão, mas era uma coisa mais tímida. Agora, estou a gostar do rumo que isto está a ter.

 

O que não quer dizer que vai deixar de fazer o RAP que nos habitou?

Não, não. Para mim, é sempre um prazer fazer aquilo que faço melhor. Faço isso há mais de 20 anos. Então, faço com alguma facilidade. O meu foco é nessa nova vertente alternativa de fazer RAP.

 

Finalmente, temos Duas Caras e Azagaia em disco. Isto nunca tinha acontecido para um disco seu ou dele. Tivemos de esperar tanto porquê?

Mas eu já participei de outros trabalhos do Azagaia que nunca viram a luz.

 

Sim, mas nunca em disco de um dos dois.

Sim. Realmente, esta foi a primeira vez que fizemos algo mais significativo. É um clássico do RAP moçambicano e eu já queria fazer isso há muito tempo. Estava à espera do momento certo e esse momento acabou por chegar.

 

Noutros países, essa parceria disparava em termos de venda…

Claro, mas acho que os números são bem decentes para aquilo que é a realidade moçambicana. Por exemplo, quando olhamos para os acessos à internet.

 

A primeira impressão da escolha do tema “Panthera”… Bem, são duas panteras da música. Foi por aí que escolheram o título?

Na verdade, o tema foi inspirado no filme Black panther, mas, também, quisemos homenagear todas aquelas figuras proeminentes do pan-africanismo. Até, a composição já existia. Eu tinha escrito para uma outra pessoa, mas parece que a pessoa desistiu. Então, peguei na letra e tive de mudar e penso que o resultado foi interessante.

 

A sua composição em “Panthera” é muito erudita. Como se diz na comunidade Hip-Hop, cuspiu barras muito fortes. Da literatura à filosofia, ou do pan-africanismo à negritude.

Exacto. Só quem está por dentro do movimento pan-africanismo consegue perceber a dimensão daquela faixa.

 

E mesmo a falar das figuras pan-africanistas, depois vai buscar uma figura muito importante, mas não tão falada: Trotsky. E Malcolm também.

Com o Trotsky foi algo muito orgânico na hora de escrever. Podia ter citado outros, mais acho que caiu bem. A biografia de Malcolm X foi um livro que operou muitas transformações em mim, principalmente na forma de ver como é que os rappers norte-americanos se comportam. Deu-me um estalo em relação à maneira como nós consumimos a música norte-americana. Em algum momento, cheguei à conclusão de que muita coisa estava errada naquilo que nós ouvimos da América. Inclusive, foi um dos motivos de querer me distanciar um bocadinho do RAP que eu já fazia, e investir numa abordagem mais afro centralizada.

 

E no Afromatic também temos uma homenagem a Ungulani ba ka Khosa, com a referência a Ualalapi.

Ualalapi foi o primeiro livro que eu li e muitos jovens não conhecem a obra. Provavelmente, ouviram na música e foram investigar na intenet.

 

Como foi esta parceria com Azagaia e Ras Haitrm, quer para a música, quer para o vídeo-clip?

Foi uma experiência interessante. Eu já queria trabalha com ambos. Com Ras Haitrm já tinha tentado antes. E como o Ras e o Azagaia já tinham trabalhado juntos numa faixa… se repares, a parte instrumental do Azagaia, em “Panthera”, é muito à cara dele. Fui buscar um bocadinho daquela música que eles fizeram juntos, que era para ele se sentir um pouco mais à vontade. A parte do Ras Haitrm é um bocado mais reggae. Depois, a música muda de sonoridade e vai para uma coisa mais RAP e aí já é a minha praia. E foi uma cena interessante.

 

A liberdade é um tema muito presente nas suas composições, neste Afromatic. Por exemplo, em “Mamyo” ouvimos: “Podem-te chamar de louco se tentares voar fora da gaiola, longe da zona de conforto”. Isto é muito profundo.

É verdade. Nessa música falo dessa liberdade de escolhermos o que queremos ser na vida. A maior parte de nós, vem a este mundo e não sabe em quem se torna e nem para quê veio ao mundo. Passamos uma vida inteira a preencher expectativas, no sentido de fazermos o que os nossos pais, amigos e fãs esperam de nós. E esquecemo-nos de fazer aquilo que efectivamente queremos. O sentido é esse. Voar fora da gaiola e buscar outros horizontes. Tem uma outra passagem da música, em que eu digo: “Não se Vêem os limites da ilha sem a observar do topo”. Gira à volta disso porque, muitas vezes, nós não sabemos o que se encontra do outro lado. Há um texto que eu li há algum tempo em que se diz que se tivermos duas portas, mas em que as pessoas estão a entrar numa delas, o mais provável é que você também siga pela mesma porta. Porque ninguém sabe o que está na porta ao lado. Isto para dizer que o desconhecido assusta sempre, mas quem sabe que a nossa felicidade está na porta ao lado?

 

Está aí uma forma de combatermos o efeito manada. Não nos deixarmos levar pelos outros…

Exactamente.

 

O quão difícil é estar neste percurso há mais de 20 anos?

Já foi mais difícil, porque houve uma época em que eu fazia música por outros motivos, diferentes dos motivos que me norteiam hoje. Agora, sou mais feliz porque faço música pelos motivos que mais gosto. Faço aquilo que a minha consciência manda e não aquilo que as pessoas estão à espera que eu faça.

 

“Eu recitaria versos for free”…

Exactamente. É uma música [“Qual é o assunto?] interessante, com o Tule, e a música gravita, mais uma vez, à volta de fazermos aquilo que gostamos. Quando fazemos o que gostamos, não nos sentimos a trabalhar nem um dia. E se formos pagos por isso, melhor ainda.

 

Para quem não comprou o EP, houve muita expectativa à volta da última música disponibilizada na intenet: “Nikensa Yesu”, com Jay Argh. Foi tudo propositado.

Para já, não sou gospel, mas gosto da música gospel. Sou um crente, mas tenho as minhas próprias crenças. Então, queria fazer esta música em forma de louvor e manifestar a minha gratidão a Deus. Precisamos de Deus em todo momento das nossas vidas. Foi a minha forma de manifestar essa gratidão.

 

Podemos dizer que as suas crenças oscilam entre o que o levou a assumir o nome Djundava e as razões do louvor em “Nikensa Yesu”?

Não sei se é pela idade, mas encontrei Deus em mim mesmo. Deus está dentro de nós. Podes ir à igreja, mas se não tiveres Deus dentro de ti, não vale a pena.

 

“Nikensa Yesu” é a música mais diferente do álbum.

Sim. E acho que terá o seu lugar, quando nós divulgarmos o vídeo-clip. Vivemos num mundo digital, em que as pessoas, mais do que ouvir, querem ver. Acho que vai despertar outro tipo de fãs, que pensava que Duas Caras fazia um tipo de música e é bom porque vai espantar esse velho fantasma de que os rappers são marginais.

 

Noto que passou a ter mais cuidado com a linguagem, ao contrário do que tem caracterizado o Hip-Hop.

Sim, mas eu acho que essa coisa da linguagem, muitas vezes, é importada do RAP americano, o que não quer dizer, necessariamente, que em Moçambique deve ser assim. Nas minhas músicas tenho-me reinventado até nesse sentido porque passei a ter fãs de várias idades, a partir do momento que passei a posicionar-me de outra forma. Crianças, inclusive. Agora tenho tendência de investir numa componente mais pedagógica.

 

Teremos regularmente um Duas Caras mais “Geração Tv”, “Gueime” e “Nikensa Yesu”. Ou seja, música para ouvir ao domingo à tarde, com a família?

É essencialmente isso. Música que se pode ouvir a qualquer momento. No carro, por exemplo, em família. É nesses momentos que temos a oportunidade de tocar a alma das pessoas.

 

Ouve o que os seus admiradores tradicionais dizem dos seus novos trabalhos?

Porque tenho a consciência de que o que eu faço é com muito carinho, com o objectivo de tocar a alma das pessoas, para terem alguma consciência sobre algumas coisas que são importantes na vida, isso, por si só, já responde a todos os comentários que podem advir do trabalho que eu faço. O exercício que eu faço é, e tenho isso escrito no meu braço: “Não me aflijo com as críticas e não me envaideço com os elogios”. O meu exercício é não ter um vínculo emocional com os comentários.

 

Numa outra conversa, a propósito do Djundava, disse-me que seria mais regular no lançamento de discos a solo. Parece que está a cumprir a promessa.

Sou capaz de lançar mais um EP ainda este ano. Não sei. Já comecei a trabalhar. Ainda não voltei ao estúdio, estou no processo de composição. Não sei se vou lançar mais um EP porque ainda temos muitos vídeos-clipes para lançar até meados do ano. Não tenho muita certeza, mas uma das coisas que gostaria de fazer é shows ao vivo, com banda, porque nunca explorei essa parte. No passado, não era nada profissional. Agora, interessa-me fazer coisas mais grandiosas, com seriedade. Penso que este é o momento certo para isso.

 

Sempre aliando o disco a uma marca?

Como diz o DJ Sidney, que trabalha comigo, o disco é um cartão-de-visita de um artista. Não levamos a venda do disco como negócio. A venda do disco é um dos poucos momentos que temos de interagir com os fãs, mas não é daí que vêm os nossos ganhos. Temos de diversificar. E uma das formas de diversificar é vendendo chapéus, t-shirts e óculos. As pessoas gostam mais de vestir do que de comprar um CD. E eu percebo. A forma de ouvir música, hoje, mudou muito. Acho que temos de investir mais naquilo que é nosso.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o livro O poder do hábito, de Charles Duhigg, e a música “Maçonaria”, de Azagaia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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