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“Não conheço os imóveis geminados da Ponta de Ouro”, Gregório Leão

Foto: O País

Logo no início do vigésimo terceiro dia do julgamento do “caso dívidas ocultas”, o réu Gregório Leão foi confrontado pela Magistrada Ana Sheila Marrengula com imóveis supostamente geminados da Ponta do Ouro.

Atento aos imóveis que lhe eram apresentados na tela do computador durante o interrogatório, o réu disse que não os reconhecia.

Tal como aconteceu na terça-feira, hoje, o réu remeteu-se ao silêncio e expediu algumas respostas à sua esposa, a co-ré Ângela Leão.

Perguntado se conhecia Romão Magido, o réu respondeu que não o conhece e nunca ouviu falar dele.

Na sequência, o ex-director-geral do SISE foi confrontado com as declarações de Romão Magido, junto aos autos, em que referiu (o guarda), na instrução preparatória, que era vigilante nas duas residências germinadas. À data dos factos, Romão Magido disse que exercia função de vigilante, desde o ano de 2014, naquelas germinadas, tendo sido contratado pela co-ré Ângela Leão. Magido afirmou que conheceu o réu Gregório Leão no ano 2005, quando o mesmo se encontrava a viver no bairro Malhangalene, numa dependência anexa do primeiro andar, na cidade de Maputo, na qual vivia Arcanjo Leão, o irmão do réu Gregório Leão.

Sobre este assunto, o réu manteve a sua resposta dizendo que “sobre tudo o que diz respeito à minha mulher, no âmbito da sua actividade empresarial, não me vou pronunciar. Eu escusava-me de interferir nos negócios dela. Neste sentido, peço, mais uma vez, que tudo que diz respeito a Ângela me remeto ao silêncio”.

Perguntado se sabia que a sua esposa adquiriu o imóvel germinado da Ponta do Ouro do co-réu Sidónio Sitoe ao preço de mais de 21 milhões de meticais, através do co-réu Fabião Salvador Mabunda, respondeu dizendo apenas que não sabia que o imóvel tinha sido adquirido por ela em benefício do casal.

O Juiz Efigénio Baptista tomou a palavra e perguntou ao réu se já viveu no bairro Malhangalene, numa dependência anexa no primeiro andar, na cidade de Maputo.

Gregório Leão esclareceu que, chegado de Portugal no ano de 2005, data do negócio, viveu no bairro Sommerschield, numa casa institucional do SISE, e que não viveu no bairro Malhangalene. O réu diz que tem dois irmãos que viviam naquela zona, mas não se recorda da localização exacta. Um dos irmãos, segundo disse, chama-se Arcanjo Leão.

“Magido descreveu factos que vocês passaram o final do ano neste imóvel, em 2015”, insistiu o Juiz. Todavia o réu disse que passou o final do ano em vários locais e não se recorda onde passou o final de 2015.

“Não sou obrigado a ser coagido a responder. Não tive nenhum trabalhador com este nome. Eu vivia na Sommerschield. Quem contratou este guarda não fui eu. Se quiserem saber, algumas pessoas vão dizer-vos onde eu vivia quando voltei de Portugal. Eu não conhecia a casa do meu irmão. Eu tinha dois irmãos que viviam algures no bairro Malhangalene. Nunca vivi nesta dependência”, contestou Gregório Leão.

Perguntado se a sua esposa nunca lhe disse que comprou o imóvel, o réu pediu ao tribunal que não voltasse a perguntar sobre actividade empresarial da sua esposa.

Perguntado se corresponde ou não à verdade que, depois de vender os imóveis, o co-réu Sidónio Sitoe efectuou uma visita de cortesia ao casal para colher o nível de satisfação dos clientes sobre os imóveis germinados que constam dos autos, o réu remeteu-se ao silêncio.

Ainda na sequência do interrogatório, o réu disse que não conhece e não é sócio da empresa sul-africana Leão Investment Group, edificada em 2014, em Mpumalanga, na África do Sul.

Relativamente aos pagamentos de materiais de construção e serviços na residência de Jonasse, no Município da Matola, designadamente trabalhos de pintura, construção de escadas, portas, janelas, coberturas, barramentos de paredes, realizados pela MOZAGO, uma empresa moçambicana de construção, focada em servir clientes empresariais de média e grande dimensão, o réu disse não conhecer esta firma e não tem detalhes sobre os serviços prestados. Gregório Leão disse que esta questão estava a cargo da sua esposa Ângela Leão.

Sobre o fornecimento de montagem de um posto de transformação, bem como fornecimento de montagem de frio e refrigeração, Gregório Leão disse que se remetia ao silêncio.

À uma pergunta relativa à colocação de tijoleira e loiça sanitária no valor de 50 mil dólares remeteu-se ao silêncio.

Remeteu-se também ao silêncio em relação ao trabalho de arquitectura para a retificação do imóvel.

E mais, sobre a pergunta relativa à aquisição de um terreno de 45 por 90, com vista a expandir o terreno de Jonasse, adquirido do réu Crimildo Manjate, o réu disse que adquiriu o espaço, mas não tem detalhes, remetendo resposta dessa questão à sua esposa.

Se sabia a origem do valor usado para a construção do edifício principal de três pisos em Jonasse, Gregório remeteu para as respostas dadas constadas da acta anterior, acrescentado que sobre essa questão não tem detalhes.

“Eu disse que foi um empréstimo bancário. Já estávamos a construir com meios próprios. Já na fase terminal, tivemos que recorrer a empréstimo bancário de três milhões de dólares para concluir a obra.”

Gregório afirmou que não sabia que o co-réu Fabião Mbunda tinha sido o empreiteiro que procedeu à retificação das fundações e construção do edifício principal de três pisos em Jonasse.

“Não sei que empresa foi lá. Nunca tive contactos dos empreiteiros. Quem tinha contactos era a minha esposa. Não me recordo de quando foi edificada e concluída a obra de Jonasse”, acrescentou.

Ainda no banco dos réus, na tenda da B.O, o esposo de Ângela Leão remeteu-se ao silêncio quando foi confrontado com a utilização do valor do financiamento contraído pela esposa, do qual a maior parte foi usado e canalizado para os familiares de Ângela Leão no valor de dezassete milhões, quatrocentos e trinta e seis mil meticais, bem como para pagamentos imobiliários no valor de 15 milhões seiscentos e cinquenta e três mil, quinhentos e nove e vinte e sete centavos e de juros de crédito no valor de nove milhões cento e trinta mil quatrocentos e trinta e três meticais e quarenta e nove centavos e 20 milhões. Ao co-réu Mabunda foram canalizados 20 milhões de meticais.

Perguntado quanto investiu para a construção da casa, o réu reagiu: “não me lembro. Ela (Ângela Leão) fazia gestão. O réu esclareceu ainda que iniciaram a construção da casa de forma faseada, por isso recorreram ao empréstimo e remeteu, mais uma vez, à sua esposa todos os assuntos referentes à construção da casa do casal.

Feito o rastreio dos valores acima referidos, o Ministério Público constatou que o pagamento ao co-réu Fabião Salvador Mabunda foi apenas no valor de 20 milhões de meticais e que a maior parte do financiamento foi usada para pagamentos de familiares da sua esposa. Mas, a Procuradora Ana Sheila Marrengula queria mais detalhes sobre o assunto. O réu remeteu-se ao silêncio.

Depois de tanta insistência, o réu explicou ao tribunal que apenas sabia sobre o lançamento da primeira pedra e do financiamento. Disse nunca ter acompanhado as obras, pois tem uma esposa na qual deposita total confiança e continua a confiar na mulher a quem caracterizou como batalhadora e com ideias inovadoras.

Perguntado quanto despendeu para a construção da casa em Jonasse, o réu disse que não recorda. “A Ângela fazia os gastos”.

Na nota que consta dos autos, o Ministério Público perguntou ao réu se o casal é ou não proprietário do condomínio composto por 10 casas, que está na fase de acabamento, na Costa do Sol, o réu disse que “não sou proprietário”. São obras dela (Ângela Leão). Essas questões todas remeto a ela.

Sem detalhes, o réu confirmou que construiu duas casas na zona da Costa do Sol com recurso a empréstimos bancários.

Refira-se que ainda na noite de ontem, a Ordem dos Advogados de Moçambique, que acompanha o julgamento na qualidade de assistente, fez interrogatório ao réu Gregório Leão e, esta sexta-feira, prevê-se que a defesa também faça questões ao réu, cuja audição durou mais dias que os anteriores arguidos.

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