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Mulheres tendem a “invadir” com sucesso o mundo “masculinizado” – o desporto

Foto: O País

Mulheres rompem fronteiras do machismo e tornam-se em agentes desportivos, sobretudo no comando técnico das equipas. Apesar de ainda serem poucas, a sua participação tende a intensificar-se a cada dia.

Elas são mulheres, com forte identidade feminina. Entre si, há quem seja mais apaixonada pelo mundo do desporto, no qual a preservação do género é visível e clara, dominado por preconceitos e estereótipos, devido a factores socioculturais que fazem com que sejam excluídas e tenham oportunidades desiguais em relação aos homens.

Encontrar mulheres no desporto, sobretudo como treinadora, árbitras, coordenadoras ou como presidentes de órgão de administração dos clubes, tem sido algo pouco comum e desafiador na nossa sociedade, por ser uma profissão de forte identidade masculina. No entanto, elas têm rompido, gradualmente, as fronteiras do machismo e têm estado a conquistar o seu espaço.

“Foi sempre o meu sonho de infância; com dez anos já treinava em andebol e tive uma treinadora entre os anos de 1982 e 1983 de origem belga no meu então clube. Ela treinava seniores masculinos e a forma como ela se impunha nos treinos me motivou bastante, pois todos eram submissos a ela. Quando terminei a carreira, formei-me no Instituto de Educação Física e depois fui à faculdade, pois queria ser uma treinadora além de professora de Educação Física”, contou Leonor Marizola, treinadora de andebol da equipa da Escola Secundária Mateus Sansão Muthemba.

Partindo do pressuposto de que há oportunidades desiguais para as mulheres em relação aos homens para os cargos de treinadores, com a formação, a mister sentiu-se perto de concretizar o seu sonho, mas nunca tinha imaginado as barreiras que iria enfrentar.

“Bati portas em alguns clubes, mas não fui bem recebida. Recordo-me de um clube que me disse que, para me aceitar na modalidade de andebol, eu tinha que arranjar um patrocinador e um padrinho. Não foi fácil, pois eu não tinha nome, não era conhecida na praça ainda”, lembrou.

Foi no meio a essas barreiras que Marizola integrou a equipa da Escola Mateus Sansão Muthemba, após a equipa que dirigia ter tido sucesso nos jogos escolares. Nesse tempo, a maioria dos treinados de Marizola, tanto em femininos como em masculinos, não tinha enquadramento nos clubes.

Uma vez que o sangue do desporto já corria nas suas veias, os alunos, junto à sua professora, decidiram criar, com fundos próprios, em 2013, a equipa que ostenta até hoje o nome da Escola Secundária Mateus Sansão Muthemba.

Passam hoje nove anos e Leonor Marizola continua no comando técnico da equipa, na qual treina em masculinos e femininos. Durante esses anos, a mister teve altos e baixos, esses superados pela vontade de vencer.

A inserção de algumas mulheres no mundo do desporto tem sido através da condução ou mesmo por convite, como é o caso de Remate Nhanombe, que chegou à formação através do convite do seu ex-treinador e cursou o nível D.

“Para estar aqui, como treinadora, foi através do mister Hilário Manjate que me convidou para a formação de treinadores do nível D. Na formação, viram que o sangue desportivo ainda corria em mim e incentivaram-me a continuar na carreira de treinadora”, narrou Remate Nhanombe, treinadora no Clube Vulcano.

Ter sido atleta de alguma modalidade já é uma vantagem para quem deseja ser treinador, mas o maior desafio é a inserção em algum clube. Abnélio Ussaca foi quem recebeu a jovem treinadora no Clube Vulcano. “É um ganho para mim como para o desporto ter uma mulher a trabalhar connosco. Ela é a primeira mulher a treinar o futebol aqui, no Clube Vulcano; espero que mais mulheres possam vir”, elogiou Ussaca.

Questionado sobre a falta de mulheres para aquela profissão, o mister disse que tal se deve à falta de oportunidades. “Se formos a ver, noutras áreas, temos muitas mulheres a ocuparem cargos superiores que os homens e, mesmo no seio das famílias, temos notado alguns homens que dependem mais da própria mulher. Então, não é falta de competência, mas também cabe à própria mulher demonstrar que é capaz, que também pode fazer aquilo que o homem faz; acredito que só assim poderemos ter mais mulheres como treinadoras”, defendeu.

Felizarda Lemos, que é carinhosamente tratada por Mister Fifi, treinadora da selecção feminina de futebol, foi a primeira mulher a qualificar uma equipa em sénior masculino para um campeonato provincial. A treinadora defende que há uma necessidade de dar crédito às mulheres. Assim, apela “aos clubes que militam no Moçambola para que façam uma experiência de colocar uma mulher e depois verão se vale a pena ou não, mas eu garanto que vão gostar e vão passar a apostar nelas”.

Por seu turno, Adão Matimbe, presidente da AMID, considera que os factores socioculturais podem estar a impedir com que a mulher esteja representada no desporto na sua generalidade, em particular no futebol, que é conotado como modalidade dos homens.

“As mulheres no futebol, mesmo as árbitras que são poucas, devem ter muita coragem para superar preconceito em relação às mulheres que rompem a fronteira do machismo e aparecem associadas ao futebol. Que as poucas que temos no desporto sirvam de modelo para que mais mulheres apareçam!”, desejou o também analista desportivo.

Fora os preconceitos e falta de oportunidades, a menor percentagem das mulheres no desporto deve-se à sua pouca adesão ao curso de treinadores, comparativamente aos homens. Por exemplo, segundo os dados facultados pela Federação Moçambicana de Futebol, nos 49 treinadores com nível A e 79 com nível B não há nenhuma mulher; dos 396 treinadores com o nível C há apenas 36 mulheres; dos 513 treinadores do nível D há apenas 43 mulheres e dos 244 treinadores formados nos cursos da FIFA apenas 18 são mulheres.

No andebol, modalidade que tem sido praticada com um número elevado de mulheres, o cenário não é diferente em termos de representatividade das mulheres treinadoras. Na Cidade de Maputo, por exemplo, no universo de 10 treinadores, apenas duas são mulheres.

No voleibol, os dados são animadores, pois o número de mulheres é um pouco elevado. Nesta modalidade, a nível nacional, no universo de 77 treinadores, 10 são mulheres.

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