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Mulheres em menor representação nos cursos de Engenharia da UEM

Foto: O País

As dificuldades com que as mulheres se debatem para ingressar nos cursos de Engenharia, nas universidades nacionais, não têm fim à vista. Na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), por exemplo, frequentar cursos como Engenharia Informática, Construção Civil, entre outros afins, ainda é um “privilégio” dos homens. A mais antiga instituição do ensino superior no país aponta o “estigma” como factor que contribui para a fraca adesão das mulheres nos cursos de Engenharia.

São vários os factores socioculturais que contribuem para a exclusão e discriminação das mulheres no acesso à educação, colocando-as numa situação de desvantagem em relação aos homens.

Segundo Irene Carvalho, directora da Faculdade de Engenharia da UEM, “muitas vezes, o preconceito começa a partir de casa. Nós olhamos para os nossos filhos e já diferenciamos os brinquedos em função do género e, se uma menina brincar de carinho, começamos a repreendê-la”.

Este problema tem tido repercussões negativas nas fases subsequentes da vida e faz com que as profissões sejam ajustadas de acordo com as preferências de género e segundo as escolha dos pais e encarregados de educação, tendência que se verifica até no momento de frequentar o ensino superior.

Nhelete Frederico diz ter tentado seguir o curso do sonho do seu pai – Engenharia Informática –, mas nunca conseguiu ser admitida, até que, como segunda opção, se formou em Jornalismo, curso dos seus sonhos.

“O sonho de ser engenheira informática era do meu pai, tentei por duas vezes o ingresso na maior Universidade do país sem sucesso. No ano seguinte, tentei numa outra faculdade, porém numa área diferente, que é a do Jornalismo, pois este sempre foi o meu sonho”.

Diferente de Nhelete Frederico, sorte teve Nilza Paola, que por si escolheu o curso dos seus sonhos sem interferência dos pais. Graças a sua insistência e perseverança, formou-se em Engenharia Civil na UEM. “Eu entrei para a Engenharia Civil, não foi a minha primeira opção, mas, com o passar do tempo, eu pude ver que consegui realizar as minhas expectativas.”

Para quem pense que se preparar para exame de admissão para o curso superior só é possível ter bons resultados quando se tem um explicador está enganado. Prova disso é Fátima Massicane que mostrou o contrário, pois, na primeira tentativa, conseguiu ser admitida ao curso de Engenharia Informática.

“Quando fiz o exame e vi que tinha sido admitida para Engenharia Informática foi uma alegria imensa, comecei a preparar-me para o exame de admissão ainda a frequentar a 12ª classe. Não tinha esperança, porque estava a estudar sozinha e sem explicador, sentia-me menos capaz e, quando me foi admitida, foi um milagre para mim.”

Eunice Mafume, jovem de 25 anos de idade, engenheira de profissão, diz que o apoio dos pais foi fundamental sempre que algumas pessoas próximas a si impunham dificuldades, alegando que o curso que escolhera era tão difícil, que só alguns homens, diga-se, os mais “fortes”, podiam frequentá-lo.

“Não tive muito apoio como se tivesse optado por uma outra área, mas não me foquei nos comentários negativos. Alguns duvidaram que iria concluir o curso, pois se assume que engenharia é coisa de homens. Entretanto, fi-lo, terminei-o a tempo e hoje trabalho na minha área de formação”.

Mesmo com tabus impostos pela sociedade, há uma necessidade de elas mostrarem com acções que podem chegar onde desejarem. Até porque, segundo Zefanias Mabote, docente universitário, a cada dia, o esforço das mulheres tem sido notável e elas têm melhor desempenho, comparativamente aos homens.

Como forma de contornar a situação, Carvalho recomenda um trabalho de base, não só nas escolas, mas também nas comunidades e nas famílias. Nesta linha de ideias, a Faculdade de Engenharia da UEM pretende levar a cabo algumas palestras, com enfoque nas escolas secundárias, para que os alunos, especialmente os do sexo feminino, passem a ter contactos com os cursos de ensino superior através do programa “Um Dia na Faculdade”.

Para além deste intercâmbio, a UEM pretende trazer para a senda de palestra algumas mulheres que fizeram o curso de Engenharia e com algum cargo de destaque nas empresas.

Falando sobre política de incentivo para a retenção das mulheres que já ingressaram para o curso, a doutora Irene Carvalho disse que a UEM tem trabalhado com alguns parceiros que oferecem bolsas, cabendo à gestão da faculdade a atribuição segundo os critérios delineados.

Dados fornecidos pela UEM apontam que, nos últimos três anos, o número de mulheres que ingressaram para o curso de Engenharia, para a obtenção do grau de Licenciatura, aumentou, mas ainda de forma tímida e insatisfatória, o que preocupa a Direcção da Faculdade de Engenharia.

Segundo Carvalho, em 2018, por exemplo, a Faculdade de Engenharia da UEM recebeu 4.408 novos estudantes, sendo 628 mulheres, o que corresponde a 14.2%, e 3.780 homens, o que representa 85.8%.

No ano seguinte, a Faculdade de Engenharia admitiu 4.856 novos estudantes, ou seja, 448 a mais, comparativamente ao ano de 2018.

Dos 4.856 estudantes, 696 eram mulheres, o correspondente a 14.3%, e 4.160 homens, 85.7%.

Comparando o número de mulheres admitidas em 2018 (628), pode-se concluir que houve mais 68 em 2019, enquanto no mesmo período, foram admitidos 380 estudantes do sexo masculino.

Em 2020, o efectivo continuou a subir. Foram disponibilizadas 5.166 vagas, das quais 747 foram ocupadas pelas mulheres (14,4%) e 4.419 pelos homens (86%).

O baixo ingresso para o nível de Licenciatura em Engenharia impacta negativamente no grau académico subsequente (Mestrado), para o qual admitiram, em 2018, 204 estudantes, dos quais 49 eram mulheres (24%) e 155 homens (76%).

Em 2019, foram admitidos 263 estudantes, sendo 60 mulheres (23%) e 203 homens (77%).

No ano passado, um total de 307 estudantes foram admitidos na UEM, para cursar o Mestrado em diferentes ramos de Engenharia. Faziam parte do grupo 63 mulheres (21%) e 244 homens (79%).

Vistos os números num outro ângulo, de 2018 para 2019, houve 59 estudantes a mais. Mas, o número de ingressos baixou para 44 de 2019 para o ano passado.

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