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“Morre o homem e permanece a obra”, diz Joaquim Chissano

Foto: O País

O antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, diz que a África do Sul e o mundo devem concentrar-se nas obras pacifistas do Arcebispo Desmond Tutu. Chissano, que teve alguns encontros com o Arcebispo, disse que ele era um homem que defendia a igualdade, independentemente das circunstâncias.

Em suas primeiras palavras depois da morte de Desmond Tutu, Joaquim Chissano disse que “o Arcebispo Desmond Tutu faleceu, mas as obras ficaram!”.

“E não são poucas. As obras de Tutu estão espalhadas em vários pontos do mundo, como, por exemplo na África do Sul, Moçambique e Angola, e em todas as partes onde houve opressão, particularmente nos países que estiveram ligados a onda de criminalidade perpetrada por gente da raça branca”, contou Chissano, acrescentando que sempre “Desmond Tutu estava connosco”.

Ele juntava-se aos combatentes justamente para trazer o que eles não tinham a consciência de uma luta sem guerra. Nem é difícil encontrar momentos em que ele aparecia a pregar a paz. E não era só pregar. “O que ele pregava, ele procurava colocar em prática na sua própria vida e na vida que ele queria para a sua Nação”, afirmou Chissano.

Chissano olha para Tutu como um “lutador pela igualdade na África do Sul”, numa situação em que aquele país estava sob domínio do Apartheid.

“Ele queria que todas as classes e tribos fossem parte de uma mesma Nação”, acrescentou.

Foi por isso mesmo que ele ousou chamá-la por “Nação Arco-Íris”, pelo desejo que ele e seu amigo Nelson Mandela tinham de ver acolhida toda a gente na África do Sul, incluindo aqueles que tivessem sido promotores do Apartheid. E há uma justificação para isso e Chissano conta.

“Ele quis que a luta não fosse contra a raça branca, mas contra os males causados por seja lá quem fosse. Ele não queria que, depois do Apartheid, os negros não viessem a fazer mal aos brancos. Tutu queria reconciliação, por isso liderou a Comissão da Verdade e Reconciliação”.

Chissano teve alguns momentos de encontro pessoal com o arcebispo sul-africano. Os contextos foram diferentes, mas o ser pacífico de Desmond Tutu esteve sempre lá. No meu recente encontro, o Arcebispo estava já com a saúde debilitada, quando Chissano o visitou em sua casa. Lá, a sua conversa gerou, uma vez mais, à volta do movimento Ubuntu.

Ubuntu era um movimento também liderado por Nelson Mandela, que defendia que uma pessoa só é porque os seus semelhantes existem, num sinal de que era preciso respeitar e apreciar a existência do outro, porque é com ela que se justifica a nossa.

Outro encontro foi mesmo quando Chissano ainda era Presidente da Moçambique, altura em que Tutu visitou o país.

“Concedi-lhe a palavra e ele usou o espaço para pedir que se cessasse com a guerra. Ele, através da Igreja Católica Anglicana, ajudou a restaurar a paz em Moçambique”, finalizou.

 

DESMOND TUTU, O “CURANDEIRO” FERRENHO DA NAÇÃO SUL-AFRICANA

O Arcebispo sul-africano, Desmond Tutu, falecido a 26 de Dezembro corrente, é recordado com alegria e afecto em diferentes partes do todo o mundo. Líderes internacionais que reagiram à morte de Desmond Tutu, descrevem-no como um símbolo da resistência não violenta, um farol brilhante para a justiça social e liberdade.

O Presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, disse estar “destroçado ao saber da morte de um verdadeiro servo de Deus e do povo”, acrescentando que o “legado de Tutu transcende as fronteiras e ecoará através dos tempos”.

Combatente, sem armas, pela igualdade racial, Desmond Tutu foi Prémio Nobel da Paz em 1984 e seus feitos valeram vários outros reconhecimentos, a exemplo deste pelo Governo norte-americano então dirigido por Barack Obama, que hoje reage nos seguintes termos.

“O Arcebispo Desmond Tutu foi um mentor, um amigo e um farol para mim e para tantos outros. Espírito universal, o Arcebispo Tutu encontrou as suas raízes na luta pela liberdade e justiça no seu próprio país. Mas também se preocupou com a injustiça, onde quer que ela se achasse”.

O antigo Presidente norte-americano também descreveu Tutu como “um mentor, amigo e bússola moral”.

No Reino Unido, numa mensagem de condolências, a Rainha Elisabeth II disse que se lembrava com carinho dos seus encontros com ele, e do seu grande calor e humor.

“A perda do Arcebispo Tutu será sentida pelo povo da África do Sul e por tantas pessoas na Grã-Bretanha, Irlanda do Norte e em toda a Commonwealth, onde ele foi mantido em tão grande afecto e estima”, disse Elisabeth II.

Por seu turno, o Primeiro-Ministro britânico, Boris Johnson, presta homenagem ao ícone anti-apartheid da África do Sul e curva-se ao seu humor. “Estou profundamente triste ao saber da morte do Arcebispo Desmond Tutu. Será lembrado pela sua liderança espiritual e bom humor irrepreensível”.

Da França, Emanuel Macron promete que a obra do nobel da paz não cairá no esquecimento. “A sua luta pelo fim do Apartheid e pela reconciliação da África do Sul permanecerão nas nossas memórias.”

Os católicos representados pelo seu líder supremo não podiam ficar indiferentes. O Papa Francisco fez a seguinte reza. “Ciente do seu serviço ao Evangelho através da promoção da igualdade racial e da reconciliação na sua terra natal, África do Sul, Sua Santidade confia a Sua alma à misericórdia de Deus Todo-Poderoso”.

Com Dalai Lama, Desmond Tutu partilhou a co-autoria do livro, “The Book of Joy”, “O Livro da Celebração”, traduzido em português. Dalai fala da perda de um servidor dos sul-africanos. “Dedicou-se inteiramente a servir os seus irmãos e irmãs pelo bem comum. Foi um verdadeiro humanista e um defensor comprometido dos direitos humanos”.

Da sede das Nações Unidas, António Guterres descreve um farol brilhante para justiça social. “O Arcebispo Tutu foi uma figura da maior transcendência do mundo, que se destacou pela paz e por inspirar gerações ao redor do mundo. Durante os dias mais sombrios do Apartheid, ele foi um farol brilhante para a justiça social, liberdade e resistência não violenta”.

Durante o seu percurso, Desmond Tutu desenvolveu uma relação com várias personalidades do mundo que se notabilizaram pela busca da paz.

O Presidente do Quénia, Uhuru Kenyatta, disse que Tutu tinha “inspirado uma geração de líderes africanos que abraçaram as suas abordagens não violentas na luta de libertação”.

O Vaticano disse numa declaração que o Papa Francisco ofereceu “sinceras condolências à sua família e entes queridos”.

“Consciente do seu serviço ao Evangelho através da promoção da igualdade racial e da reconciliação na sua África do Sul natal, a sua santidade louva a sua alma à misericórdia amorosa de Deus Todo-Poderoso”, lê-se na declaração do Vaticano.

A Fundação Nelson Mandela disse que as “contribuições de Tutu para as lutas contra a injustiça, local e globalmente, são correspondidas apenas pela profundidade do seu pensamento sobre a realização de futuros libertadores para as sociedades humanas”.

“Ele era um ser humano extraordinário. Um pensador. Um líder. Um pastor”, refere a Fundação Nelson Mandela.

A morte de Tutu ocorre apenas semanas após a do último presidente da África do Sul na era do apartheid, Frederik de Klerk, que morreu aos 85 anos.

“Um dos nossos amigos da família (de raça branca) disse que Tutu era a encarnação do mal, e o ódio era simplesmente extraordinário”, recordou John Allen, jornalista (branco) que mais tarde se tornou o biógrafo oficial de Desmond Tutu.

Do seu púlpito, Tutu falou contra o apartheid numa cidade onde os negros, as suas vidas controladas por leis racistas rigorosas, exigiam passes especiais simplesmente para caminharem em bairros habitandos por pessoas de raça branca.

“Tutu não era uma fachada para movimentos políticos. Penso que foi isso que lhe deu a sua liberdade moral e spiritual. Tornou-o muito poderoso porque enfrentou um governo do apartheid que se envolveu na Igreja… e no entanto aqui estava este anglicano negro, capaz de atingir o regime num dos seus pontos mais vulneráveis, disse Peter Storey, que liderou o poderoso Conselho de Igrejas da África do Sul.

“Ele era muito crítico em termos de campanha a favor de sanções. Ele era fundamental, não há dúvida. Ele veio na altura certa”, recordou Frank Chikane, um proeminente líder da libertação.

Mais tarde, no rescaldo das primeiras eleições democráticas na África do Sul e do estabelecimento de uma Comissão de Verdade e Reconciliação (TRC) para mergulhar nos crimes da era do apartheid, aqueles que trabalhavam de perto com Tutu viram as suas lágrimas públicas, e canções frequentes, como o trabalho de um homem que tentava segurar um espelho até a uma sociedade profundamente danificada.

“Houve muitos momentos em que ele chorava. E ele começou a prática de cantar… sobre a dor do nosso passado”, disse Pumla Gobodo-Madikizela, que serviu no comité de violações dos direitos humanos do TRC.

Em anos mais recentes, Tutu tornou-se ferozmente crítico das falhas do ANC no governo, em particular do seu deslize para a corrupção. Mas a administração do Presidente Jacob Zuma optou por ignorar, ou pôr de lado o arcebispo, tentando mesmo impedi-lo de assistir ao funeral de Nelson Mandela.

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