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Modismos Linguísticos

Por Valério Maúnde

Já lá se foram os tempos em que, para se fazer notar nos media, no meio profissional  e social, bastava o indivíduo ter um bom fato, sapatos polidos e um relógio Casio, ou, no caso das senhoras, uma bolsa Prada, biqueiras Cavalinho e um perfume que, por si, declara o seu preço. Hoje, só isso não chega, é preciso usar as palavras da moda.

Quem não se lembra da tão aclamada “conjuntura social”, dita pela primeira vez não se sabe bem por quem nem quando, mas que se espalhou rapidamente como rastilho de pólvora, ou talvez devesse dizer, pandemicamente, como um vírus tão mutável quanto as tendências e preferências lexicais da elite moçambicana.

Na altura em que a tal expressão estava em voga, os mais curiosos até pesquisaram o seu sinónimo e os dicionários apontaram termos como circunstância e situação. Por muito práticos que estes sinónimos fossem, pecavam pela falta de requinte e de notoriedade. É que ao dizer situação ou circunstância, ao invés de conjuntura, corria-se o risco de se parecer menos instruído e menos importante. Então choveram conjunturas por toda a parte até que os ouvidos se tornaram impermeáveis. Foi então que se sentiu a necessidade de se adoptar uma nova moda lexical.

Desta vez, a vítima foi o substantivo ‘resiliência’. Em pouco tempo, tornou-se tão popular que logo apagou o legado da sua antecessora. Há quem diga que faltou resiliência à conjuntura, mas isso é um debate para outro momento.

O facto é que este termo (resiliência) era mastigado e ruminado em praticamente todos os meandros sociais onde se reuniam os indivíduos (mais) estudados. Nos media, nos debates políticos e nos jornais, o apelo era igual: era-se preciso ser resiliente perante a crise financeira, diante dos desafios impostos pela pandemia e em toda a sorte de entraves sociais.

A sua aparição televisiva, tão frequente que era, fez que perdesse o seu estatuto elitista e se tornasse uma palavra possível de ser dita pelos indivíduos menos afortunados, tornando-se um lugar comum de pouco ou nenhum interesse.

O tempo mudou e, conforme o incontestável preceito Camoniano, as vontades também, aliás, o vocábulo da moda. A resiliência e a conjuntura deram lugar à afamada ‘sinergia’. É por isso que hoje, nas reuniões de planificação, aponta-se a sinergia como garante do sucesso da empreitada que se pretende iniciar. Nas reuniões de balanço, atribui-se o insucesso à falta dela. É sinergia para cá, no singular, são sinergias para lá, no plural. Há sinergia(s) em toda a parte.

Assim, para impressionar o senhor director e adubar o solo da promoção, não é preciso entender muito do assunto debatido ou ter alguma ideia extraordinária, muitos menos um infindável leque de adjectivos rebuscados, dirigidos ao chefe sem o mínimo sinal de acanhamento, mas, pelo contrário, com toda a vénia, júbilo e rigor, pela suposta forma pedagógica, exaustiva, oportuna, pertinente, clarividente, metódica, meritocrática, abnegada, inquestionável, inabalável e indelével como tem dirigido os destinos seja lá do que for. Não! Basta conhecer a palavra da moda. Basta mencionar uma tal conjuntura social que obriga à resiliência e a existência de sinergias entre os intervenientes do assunto em apreço e já está, logo se conseguem umas palmadas nas costas no fim da reunião e, quiçá, uma promoção antipedagógica, inoportuna, obscura, ametódica, nepotista e questionável.

 

Mas que importa o mérito, se aqui, na Pérola do Índico, vence quem está mais atento aos modismos linguísticos e os remata com a necessária precisão cirúrgica no momento mais propício?

 

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