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“Mia Couto é o único moçambicano que já comprou uma obra minha”

Em dois anos, Mudungaze vendeu 30 obras. Até aí, tudo bem. Ora, o que preocupa o artista é ter apenas um moçambicano na lista de compradores. 

 

Durante 15 anos, Hélder Silvano Manhique actuou como produtor artístico. Quando percebeu que poderia dar voos mais altos, saiu dos bastidores e assumiu-se como Mudungaze, lá vão três anos. Mais ou menos a essa altura, em Março de 2018, o artista expos a sua primeira mostra, intitulada Máscaras africanas no contexto urbano, na cidade de Maputo. Considera-se, por isso, um artista emergente, com longo percurso pela frente. Sem vaidades, vai aprendendo e assume-se feliz por ter muita gente que o ajuda nas suas actividades.

Ainda assim, há uma coisa que chama atenção ao artista da Polana Caniço, cidade de Maputo, o facto de apenas um moçambicano ter comprado uma obra sua: “Feliz ou infelizmente, Mia Couto, é o único moçambicano que já comprou uma obra minha. Eu já vendi mais de 30 obras em dois anos. Eu acho que isso é triste, mas também sei da situação que a gente vive em termos de prioridades. A arte não é pão, é um privilégio”.

Sendo que a arte é algo “não essencial”, entende Mudungaze, deve estar a haver no país um gap, ou seja, fosso, vazio, falha, sobre a relevância da indústria cultural e criativa. “Se nós não crescemos com o hábito artístico, em casa, não será aos 26 anos, mesmo com poder de compra, que iremos adquirir objectos de arte. As pessoas não compreendem, por exemplo, por que tirariam 50 mil meticais para comprar uma obra de Mudungaze e colocar na sala de casa”.

Para Mudungaze, o facto de apenas um moçambicano ter comprado uma obra sua, no universo de 30 obras vendidas, preocupa. Por isso, seguindo os ensinamentos transmitidos por David Abílio, na altura que ambos trabalharam juntos na Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD), Mudungaze lançou-se num projecto de criar público para o futuro. “Na CNCD, a maior escola de artes que se pode ter em Moçambique, nós íamos às escolas primárias e levávamos crianças a iniciarem-se, por exemplo, num cinema ou num teatro. As crianças são aquelas pessoas que nós temos de educar agora. Eu tenho um projecto pessoal de criar uma vila artística em Marracuene. O projecto vai consistir em inserir crianças daquela zona num espaço artístico em geral, pois se não usarmos a arte como uma componente lúdica, continuaremos assim como estamos nos próximos 50 anos, apontando erros ao passado. Não vamos estar à espera que os milagres aconteçam, de tal forma que do nada o público compre as nossas obras. Por que compraria? Por amiguismo?”.

Através de exposições como O amor de Vuyazy ou Remédios de lua, Mudungaze, procura contar histórias, como forma de salvaguardar o que considera legado africano. “Não temos um grande legado em termos de escrita, mas nós passamos histórias de umas pessoas as outras.

Mudungaze, que foi convidado do programa Artes e Letras da Stv Notícias, sábado, nasceu a 24 Novembro 1980. Como artista, expôs a sua individual em 2017. Este ano, foi seleccionado e convidado para representar Moçambique na Expo Dubai 2020, pelo Ministério da Cultura e Turismo. Nestes três anos, tem participado em várias experiências artísticas no estrangeiro. Por exemplo, o Festival Internacional de Artes – Guimarães (Portugal), onde expôs em 2019 e Residência Artística no Centro de Investigação Artística – HANGAR, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. De 2011 a 2013, no African History Week – Noruega (Oslo), foi responsável técnico pela área de produção, vídeo e gestão de delegações e de artistas internacionais. No mesmo período, foi convidado a fazer parte do Nordic Black Theatre, que trabalha com o Teatro Nacional da Noruega, e fez parte da representação dramática “Destination África”. A sua especialidade é o ferro e o reaproveitamento de materiais, com atenção a questões relacionadas à mulher, à tradição e à preservação ecológica.

Mudungaze esteve na CNCD entre 2002 e 2011, onde trabalhou no Departamento de Documentação e Pesquisa, e foi responsável pelo Arquivo Audiovisual e Documentação das actuações dentro e fora de Moçambique. Ainda na CNCD, coordenou a logística inerente aos espectáculos.

Na arte, Mudungaze, que não se considera um artista plástico, mas elástico, encontrou uma forma de se expressar e de ser.

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