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“Meus filhos não vão vender, vão brincar como qualquer criança”

Para algumas crianças na cidade de Maputo, o 01 de Junho não foi para brincar ou celebrar, senão mais um dia de trabalho para conseguirem alguma refeição a si e às suas família, já que assumem o papel de encarregados e trabalham para sustentá-las.

Artur é nome fictício de um rapaz de 11 anos que, na Praça dos Trabalhadores, diariamente vende ovos cozidos para ajudar a sua mãe. O petiz sabe o que se comemora no dia 01 de Junho e até entende que aquele não é o seu lugar, mas ao “O País” diz não ter escolha.

“A minha mãe é quem me mandou para vender ovos e faço-o todos os dias, depois da minha volta da escola. Agora como não vou sempre à escola, passo mais tempo a vender e volto à casa entre às 17 e 18 horas. Hoje, 01 de Junho, é, para mim, um dia normal e, porque é dia da criança, tinha combinado com os meus amigos para sairmos para brincar, mas a minha mãe ordenou-me que viesse trabalhar”, disse o menor Artur, visivelmente triste.

Por uns instantes, lembrar que 01 de Junho é dia para celebrar com outras crianças, Artur não aguentou à pressão da vida e desatou a chorar, pois, como justificou as suas lágrimas, estar ali não é o seu desejo; passa o dia, ora no sol, ora na chuva. A natureza do seu trabalho o obriga a passar por tanto sofrimento.

“Na escola, quando os meus colegas me perguntam se eu vendo aqui, fico com vergonha e eles começam a rir-se e a zombar-se de mim”, lamentou aos soluços.

Artur não se identifica com o trabalho que exerce, até porque o ambiente em que pratica o negócio é impróprio para crianças. Passa maior parte do tempo com pessoas de todo tipo e diz que tem permissão para tirar apenas 20 meticais para se alimentar.

Artur estuda, está na quinta classe, mas nem sequer conhece os direitos que tem e, por ter obrigações de um adulto, garante que os seus filhos não vão passar pela mesma situação.

“Os meus filhos não vão vender, vão brincar como qualquer criança; vou comprar roupa para eles e, no dia 1 de Junho, vão brincar e vou dar-lhes muitos presentes”, disse, convencido, o pequeno Artur.

O menor em referência não é o único nessa situação de ambulante ou algo afim. Ao longo da cidade de Maputo, várias são as crianças cuja infância lhes é roubada por terem deveres de pessoas adultas.

Passo-a-passo e, nas calmas, José caminha todos os dias de Maxaquene a Magoanine para vender folhas de chá. O pequeno de 13 anos vem de Gaza e, na mesma calmaria com que fala, chegou a Maputo na esperança de ter um futuro melhor, contudo a cidade capital do país não é bem o que sonhava e os seus dias de criança estão a ser roubados por um trabalho árduo.

“Estar aqui não é fácil, se não consigo vender, não tenho o que comer”, deplorou José.

Hoje, 1 de Junho, queria estar como outras crianças, porém, já que não pode, ainda lhe sobra algo que ninguém pode roubar – lembranças dos bons momentos que já viveu.

“Lembro que lá, em Gaza, no dia 1 de Junho levávamos comida em casa e íamos à escola, brincávamos, cantávamos, jogávamos bola e os professores davam-nos presentes”, recordou, sorridente, o menor.

Mesmo brincando em lugares arriscados, de forma inocente e trabalhando como se tratasse de adultos, têm algo que ninguém os devia tirar – o direito de ser crianças e de viver os momentos dessa faixa etária de inocência.

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