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Melhor Filme Internacional na Mostra de São Paulo expõe talento de Moçambique

Mosquito, de João Nuno Pinto, foi distinguido pela crítica como Melhor Filme Internacional na Mostra de São Paulo, este mês. Para o cineasta português, o acto é importante para a cultura moçambicana, afinal a longa-metragem foi rodada em Nampula e Maputo, com vários actores nacionais.

 

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no Brasil, Moçambique esteve muito bem representado. Actores como Josefina Massango, Ana Magaia, Mário Mabjaia, Aquirasse Nipita, Gigliola Zacara e Maria Clotilde lá foram, virtualmente, através da grande tela. E, com feito, a sua performance no Mosquito, do português João Nuno Pinto, ajudou a produção cinematográfica a ser reconhecida pela crítica Melhor Filme Internacional naquele evento brasileiro.

Na visão do realizador, a distinção de Mosquito é muito importante para a cultura moçambicana, pois, argumenta João Nuno Pinto: “em primeiro lugar, a identidade de um povo constrói-se através da sua cultura e através dos seus artistas. Se não tivermos arte e cultura, não temos identidade”. Além disso, em entrevista exclusiva a este jornal, o realizador realçou que seu filme é um exemplo do tipo de cinema que também se pode fazer aqui no país. “É importante mostrar um cinema de autor feito em Moçambique, com actores moçambicanos, que foram excepcionais nas rodagens. Até fico arrepiado, quando penso na experiência que tive trabalhando com os actores moçambicanos, que são, de facto, de uma generosidade e de um talento incrível e que merecem ter muito mais oportunidade e trabalho”.

O prémio Melhor Filme Internacional na Mostra de São Paulo é especial porque foi atribuído por uma certa intelectualidade do cinema, que vive do cinema e vive o cinema. Em São Paulo estiveram cerca de 200 filmes, e, para a crítica, Mosquito foi o melhor, o que coloca os holofotes mundiais no filme e, claro, nos actores moçambicano também.

A longa de João Nuno Pinto começou o ano abrindo o Festival Internacional de Roterdão, nos Países Baixos, para uma audiência de três mil pessoas. “Foi a primeira vez que um filme português abriu um festival desta importância. Entretanto, logo a seguir à sua estreia em sala, uma semana depois, em Portugal, os cinemas fecharam, não dando hipóteses para a careira do filme. Na verdade, esta situação universal forçou, inclusive, o cancelamento da estreia do filme em Moçambique, antes prevista para Abril deste ano. Portanto, num ano tão adverso para as artes, foi com enorme satisfação receber prémios em festivais internacionais para o realizador português, que sustenta: “quando o filme começa a ganhar prémios, isso é muito positivo porque foi feito para ser voz activa neste debate que se quer universal sobre o questionamento do que foi a colonização, a presença europeia em África e do que é a aceitação do próximo”, sem excluir uma reflexão sobre o racismo institucional. Para João Nuno Pinto, todas essas questões são universais e o filme quer fazer parte dessa discussão. E o facto de ganhar prémios chama mais atenção para que isso possa acontecer.

Partindo do questionamento de uma certa narrativa institucionalizada sobre a herança colonial, sobre questões relacionadas com o racismo, Mosquito vai lá atrás para romper hábitos. O filme é, segundo o realizador, o primeiro a falar do período 1917, em Moçambique, de uma forma que as pessoas não estão acostumadas.

Além de Moçambique e Portugal, Mosquito teve envolvimento da França e dos Estados Unidos.

 

SINOPSE

Zacarias, um jovem português de 17 anos, sonha em viver grandes aventuras. Por isso, ele se alista no Exército durante a Primeira Guerra Mundial. É enviado a Moçambique, com a missão de defender a colónia portuguesa da invasão alemã. Zacarias, porém, contrai malária e é deixado para trás quando seu pelotão segue para batalha. O rapaz não se dá por vencido e parte, sozinho, para alcançar o esquadrão. Ainda sofrendo os efeitos da enfermidade, ele passa a ter dificuldade em distinguir a realidade das alucinações que vem tendo. Em sua jornada, o garoto encontra — ou acredita encontrar — animais selvagens, desertores alemães e colonos perdidos. O roteiro de Mosquito é baseado na história real do avô de João Nuno Pinto, que foi um dos soldados mandados a Moçambique durante a guerra.

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