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Mariamo Domingos: uma reclusa com medo da liberdade

Foi condenada a 12 anos de prisão e falta um ano e meio para terminar o cumprimento da pena, mas diz ter medo da liberdade: “tenho medo de lá fora…às vezes me pergunto se vou ser aceite novamente”. Ela faz parte de um grupo de 27 reclusas que tiveram um natal solidário esta terça-feira em Nampula.

Ela toca o tambor com vigor e lidera o grupo de dança (tufo) da Cadeia Feminina, adstrita à Cadeia Provincial de Nampula. O pretexto era a celebração do Natal solidário, mas a sua história chamou-nos mais atenção que o almoço em si.

Mariamo Domingos é uma jovem clara, com tatuagens bem visíveis em várias partes do corpo, estatura média e uma cintura que dá para miss. E, de facto, quem a conhece nos seus tempos áureos diz que era mesmo uma miss local pelo furor que fazia por onde passasse. Tudo que ela faz na cadeia o faz esboçando uma alegria surreal porque sente-se melhor acolhida e segura na cadeia, que fora. “Para ser sincera, dei muito trabalho cá no estabelecimento [penitenciária]. Eu era muito indisciplinada, mas hoje consigo respeitar os meus colegas e os chefes e este lugar para mim é uma segunda casa”.

Mariamo foi condenada a 12 anos de prisão maior. Falta apenas um ano e meio para terminar o cumprimento da pena e de forma surpreendente, ela revela medo da liberdade. “Tenho medo de lá fora, por causa do comportamento que eu levava e às vezes me pergunto: ‘será que vou ser aceite novamente na sociedade?’”.

Mariamo reconhece que andava em más companhias. Diz que bebia e fumava drogas. Pior de tudo é que ela fazia parte de um grupo de criminosos que roubavam motorizadas. Ela servia de isca; solicitava serviços de moto-táxi e chegado ao local ela accionava o seu gangue para actuar. Assistiu vários mototaxistas a serem assassinados na sua frente.

Hoje, vive atormentada, a cada diz que se apercebe que está prestes a ganhar a liberdade, justamente pelo medo que confessou acima. Todavia, sente-se arrependida: “consigo reconhecer o meu erro. Peço perdão. Envergonhei minha família, minha mãe. Não fui uma boa mãe para o meu filho, então, hoje consigo reconhecer isso”.

Isabel Simione, outra reclusa, tem 34 anos de idade, é natural de Tete. Formada em Contabilidade (médio) e Economia (superior), ela está em conflito com a lei, por isso vai cumprir uma pena de 8 anos de prisão. Está há apenas dois anos. Vaidosa e alegre, a jovem diz-se feliz pelo facto de estar a ter uma ressocialização, depois “de eu ter pisado na bola, como se diz na gíria”.

“A única coisa que dói é estar longe da família, mas temos o tratamento que merecemos, como se estivéssemos fora, como o rosto mostra”.

As nossas duas personagens fazem parte de um grupo de 27 reclusas que esta terça-feira beneficiaram de um almoço especial, inserido no natal solidário. Os responsáveis da cadeia assinalam o comportamento exemplar daquelas mulheres. “Não há razões de queixa. São pessoas muito responsáveis, viradas a fazer tudo que lhes é orientado para o seu bem”, disse Jordão Mangue, director da Penitenciária Provincial de Nampula.

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