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Maria Clotilde dirige oficinas artísticas no Brasil

Maria Clotilde deixou para trás as águas frescas do Índico ao meter-se num avião. Destino? As extensas terras que constituem Brasil. Para lá foi a artista moçambicana, desinibida, num estilo aventureiro e ousado, levando consigo à bagagem a pretensão de partilhar peças da cultura moçambicana com um público diferente, feito de outros sonhos e vaidades. Por isso, considerando a necessidade de intitular a série de oficinas artísticas levadas às cidades da São Paulo e Belo Horizonte, nos últimos 34 dias, definiu “Da capulana, máscaras à performance”. A partir daí, Maria Clotilde procurou mostrar como é que da capulana e das histórias que a envolvem pode-se chegar a uma performance, fazendo do artefacto muito peculiar à identidade nacional um factor de exposição da tradição e cultura moçambicanas no estrangeiro.

As oficinas orientadas pela actriz e encenadora, abertas fundamentalmente a actores e bailarinos, por ter se tratado de um trabalho que exigia expressões corporais, tiveram duas variantes, uma curta e a outra mais exigente, com três horas diárias durante três dias em cada casa cultural. Depois do intercâmbio, as sessões orientadas pela moçambicana só terminaram quando ao público em geral foram apresentadas o resultado do que se praticou na oficina, as quais sempre iniciaram com apresentação teórica, na qual a actriz explicou aos participantes aspectos atinentes à realidade cultural moçambicana, os contextos históricos e geográficos, afinal apercebeu-se que muitos brasileiros não sabem onde fica Moçambique.

Com efeito, engane-se quem julgar que as capulanas usadas nas oficinas, no Brasil, foram levadas por Maria Clotilde de Moçambique. Não foi assim. Uma amiga brasileira da actriz, que os artistas privilegiam a amizade, emprestou um conjunto de capulanas compradas aqui no país, quando há algum tempo cá esteve. O mesmo com as oito máscaras utilizadas nas sessões. Além disso, na oficina prática, “a base de tudo foi fazer com que os participantes deixassem o corpo expressar-se, com algumas dicas minhas, com recurso à improvisação. Feito isso, o resultado foi surpreendente. Quando viajei, achei que levava ao Brasil uma oficina sobre capulana e máscara, mas a forma como os brasileiros acolheram o meu trabalhão não tem explicação. Trabalhei com quatro grupos, maioritariamente constituídos por negros, com várias perspectivas. No Teatro Neura tive jovens que queriam fazer de tudo, enérgicos, empolgados em aprender coisas novas, sagradas para eles por virem de África. Nas comunidades negras, no Brasil, há um interesse incessante pelas suas origens africanas, porque o passado lhes foi apagado”, e isso facilitou tudo, explicou a actriz.

 

PERFIL

Maria Clotilde Guirrugo é licenciada em Teatro, pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane. Participou em seis filmes e mais de 20 espectáculos teatrais, na qualidade de actriz. Como encenadora dirigiu cenas e espectáculos teatrais como “O mercador de Veneza”, de William Shakespeare, “Fim de pena”, adaptado de “O crivo”, de Michel Azama, “O sexo da mulher como campo de batalha”, de Matei Visniec, e “Ngilina da zona”. Igualmente, tem trabalhado com espectáculos infantis, actuando como actriz e encenadora.

 

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