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Mankew (1934 – 2021): morreu o artista da cor

Foto: O Pais

O artista plástico Mankew perdeu a vida esta segunda-feira, em casa, no Bairro Xipamanine, na Cidade de Maputo. Mankew estava doente há algum tempo.

Em Outubro do ano passado, Mankew perdeu a esposa Alice Uamba. Nessa altura, o artista de Marracuene, Província de Maputo, já não gozava de boa saúde. Viu a esposa partir e, assim, ficou a travar, sem a companheira, uma difícil luta pela sobrevivência. Mankew não se deixou abalar, no entanto, a sua saúde não colaborou. Além do peso da idade já avançada, o artista teve de enfrentar mais uma difícil realidade: a vista começou a falhar. Sem visão, não há pinceis, paletas de cor, telas, enfim, não há pintura ou desenhos. Mankew susteve a dor de perceber que a visão se esfumava vagarosamente e até participou numa colectiva intitulada Tempos e percursos em 3D, exibida no Museu Nacional de Arte, com os seus companheiros Noel Langa e Makamo.

Este ano, além da saúde frágil, o artista plástico perdeu um filho há três meses. Na verdade, foi a terceira vez que Mankew perdeu um filho seu. Entre o luto, a vontade de pintar e a vista sem nenhum vigor, Mankew ainda foi debilitado por um tumor maligno no ouvido. Muita coisa para um só homem que, há nove meses, preparava uma individual que já não vai acontecer na sua presença. Hoje, dia 13 de Setembro de 2021, por volta das 17 horas, Mankew Mahumana cedeu à morte que bateu à porta da sua casa, no Bairro Xipamanine, na Cidade de Maputo. Morreu, surpreendendo os filhos que até aí cuidavam dele.

Além de um grande artista, para Alda Costa, Mankew é um homem de uma geração importante moçambicana, um artista de transição, originário das zonas rurais, que vai à cidade colonial, que não está aberta a outras expressões culturais, para expor a sua arte. “Eu diria que Mankew faz parte de um conjunto de artistas tutelares, de uma geração que viveu o contexto colonial e que se afirmou nos primeiros anos da independência. Era uma pessoa simples, não se expunha muito”, afirmou, esta segunda-feira, a historiadora de arte.

Nos momentos altos da sua carreira, Mankew teve a oportunidade de mostrar no estrangeiro o que era Moçambique culturalmente. O artista participou em várias exposições e intercâmbios artísticos na Alemanha, onde recebeu uma medalha da Academia de Belas Artes. “É uma pessoa que só nos merece muito, muito respeito”, acrescentou Alda Costa, “por isso desejamos que a sua obra e da sua geração seja estudada, porque é a melhor forma de valorizarmos o artista. Acho isso fundamental. Não podemos fazer a história de um certo período sem referência a figuras como Mankew. Temos de continuar a estuda-lo”.

Uma das últimas exposições de Mankew foi a colectiva Simbiose, que esteve patente na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto, na Cidade de Maputo. Nessa mostra, Mankew expôs com Sebastião Matsinhe, para quem Moçambique perdeu um pai, que muito contribuiu para inspirar artistas do seu tempo. À semelhança de Alda Costa, Matsinhe defendeu, esta segunda-feira, que a melhor forma de honrar Mankew é estudando o seu trabalho artístico, produzido ao longo de várias décadas.

Quando, em Dezembro do ano passado esteve numa das actividades de promoção da colectiva Tempos e percurso em 3D, no Museu Nacional de Arte, Mankew afirmou determinado: “Com esta exposição, nós quisemos dizer que ainda estamos aqui. Ainda estamos vivos e com a nossa arte. A exposição é para lembrarmos aos amantes da nossa arte, aos que nos apoiam, aos nossos governantes que continuamos com talento forte e cada vez mais forte, em relação ao que fizemos no passado”. O artista disso isso mesmo a justificar uma individual em preparação. Bastava que houvesse saúde.

Mankew Mahumana nasceu 1 de Janeiro de 1934, no Distrito de Marracuene, na Província de Maputo. Com 20 anos de idade, emigrou para trabalhar nas minas da África do Sul. Algum tempo depois, voltou a Moçambique e aí começou a pintar na área da construção civil. Lá esteve cinco anos. Quando se fartou, preferiu investir na agricultura, no seu distrito natal. A partir de 1971, decide investir nas artes plásticas, o que lhe garantiu muitas oportunidades, como exposições e intercâmbio artístico nos seguintes países: Zimbabwe, África do Sul, Egipto, Tanzânia, Alemanha, Áustria, Rússia, Ucrânia, Geórgia, Itália, Cuba, Nigéria e Portugal.

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