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Mais de 500 deslocados chegaram a Pemba e trazem relatos de intensificação de ataques

Contrariamente à garantia dada pelo Governo, através do ministro da Defesa Nacional, Jaime Neto, o distrito de Palma continua fora do controlo e milhares de pessoas aguardam resgate na zona costeira, única saída possível para as zonas seguras.

Quase todos os dias, a cidade de Pemba, capital de Cabo Delgado, recebe embarcações com centenas de deslocados oriundos de Palma, onde os ataques terroristas não param desde 24 de Março último.

Nas últimas 48 horas, cerca de 500 pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, desembarcaram na praia de Paquitequete, o histórico bairro da baia, que, há vários meses, se tornou no principal ponto de chegada dos sobreviventes do terrorismo.

Segundo contaram algumas famílias, várias aldeias de Palma encontram-se abandonadas e tantas outras correm o mesmo risco, devido ao alastramento da acção do grupo armado que continua a assassinar, destruir e a raptar civis.

“Estamos a fugir da guerra. Lá, na nossa terra, há decapitações e, todos os dias, há disparos. É uma guerra de verdade e não há sinais de que vai terminar agora”, relatou Salima Momade, uma deslocada que fugiu de Palma com o seu marido e que chegou a Pemba com duas trouxas à cabeça que continham esteiras capulanas e chinelos.

Além da morte, a maior parte dos sobreviventes escapou da onda de raptos, supostamente protagonizados pelo grupo armado, que deixou parte de Palma sem população.

“Poucas pessoas continuam em Palma. Todos os dias, ouvem-se disparos”, descreveu Bacar Fumo, um deslocado que chegou a Pemba com metade da sua família.

“Raptaram os meus cinco filhos, uma mulher com dois filhos e duas raparigas, todos da nossa família”, contou Fumo, que, depois de escapar da morte, continua a sofrer em Pemba onde vive ao relento nas margens da praia de Paquitequete.

Além das suas famílias, os deslocados deixaram, para trás, milhares de pessoas que aguardam por ajuda em transporte para chegar às zonas seguras.

“Quase toda população de Palma está concentrada numa aldeia da zona costeira e não vem a Pemba, porque não tem dinheiro para pagar o transporte que custa 2500 meticais por pessoa. Quando é uma família que tem crianças e uma bagagem, há negociações com os donos das embarcações”, relatou Abudo Raibo, outro deslocado que não tem família em Pemba e vive na praia de Paquitequete.

Quando desembarcam na praia de Paquitequete, os sobreviventes dos ataques terroristas são recebidos apenas pelas Forças de Defesa e Segurança e não com as Organizações Humanitárias como era habitual durante o desembarque dos deslocados.

O “O País” procurou a actualização da situação de segurança em Cabo Delgado, dos deslocados que chegam a Pemba e os que aguardam pelo resgate em Palma, mas, como o habitual desde que iniciaram os ataques terroristas, não obteve resposta.

 

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