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“Madgerman”: assunto encerrado para Governo e aberto para automobilistas

Os antigos trabalhadores moçambicanos da antiga República Democrática Alemã (RDA) continuam as suas manifestações semanais em Maputo. Se para o Governo este é um assunto encerrado, para os automobilistas é uma “dor de cabeça” adicional nas avenidas percorridas pelos chamados “madgerman”.

Eram milhares no princípio. Já foram considerados uma ameaça à segurança e tranquilidade públicas. Marcham todas as quartas-feiras pelas mais nobres e movimentadas avenidas da Cidade de Maputo, num exercício que dura há mais de 20 anos. Suas manifestações já foram proibidas e já tiveram confrontos com a polícia, que culminam com mortos e feridos. Agitaram os sucessivos governos de Moçambique e chagaram a ser acusados de ter motivações políticas, e serem alvo de aproveitamento em momentos eleitorais ao revelarem, certa vez, que o seu voto iria todo para a oposição. Calculava-se na altura que fossem mais de 20 mil. Negociaram com o Governo e ganharam indemnizações que custaram, na altura, cerca de 44 milhões de euros, valor que pouco tempo depois, disseram que não correspondia ao que eles teriam descontado na antiga RDA. Por isso, pouco tempo depois, voltaram à rua. Decidiram que também eram trabalhadores e protagonizaram um dos desfiles mais tumultuosos em festividades do Dia dos Trabalhadores na era do presidente Joaquim Chissano, tendo a partir daí sido banida a sua participação no evento. Diz-se até que as cerimónias do Dia do Trabalhador terão deixado de ser dirigidas por um governante (muitas vezes era o presidente da República) a partir desse incidente. Colheram a simpatia de algumas representações diplomáticas no país que, parece ter-se esvanecido com o tempo. Nunca, porém, pararam de desfilar com as bandeiras alemãs, como quem pretende dizer que o seu assunto é também com o país de Angela Merkel, apesar de tudo ter sido negociado e acontecido na era de Erik Honecker.

Hoje, já sem o seu “quartel-general”, a praça 28 de Maio, os madgermanes continuam religiosamente o seu itinerário reivindicativo todas as quartas-feiras, contudo, já sem a vitalidade dos tempos da juventude de outrora e em número cada vez menor a cada ano. Muitos perderam a vida ao longo dos anos, vítimas de vários males (incluindo a indigência), outros, já habituados a vida de emigrantes, rumaram para a África do Sul, mas outros ainda, apesar do avançar da idade, continuam com a luta, ao que parece, de vitória pouco provável. Nunca ninguém ouviu um pronunciamento oficial do Governo saído das últimas eleições sobre eles e a medida que o tempo passa vão se tornando cada vez menos visíveis, e menos notícia. Mas se são quase invisíveis para o Executivo, o mesmo não se pode dizer em relação aos automobilistas que, muito provavelmente, não são culpados pela situação em que se encontram estes seus concidadãos. A sua marcha tornou-se cada vez mais lenta e com direito a paragens para sessões de cantos e danças reivindicativas nos principais cruzamentos, para a desgraça dos automobilistas. A polícia está sempre no local para garantir a segurança dos manifestantes, porém pouco ou quase nada pode fazer pelos automobilistas, que chegam a ficar retidos por mais de meia hora. Se para o Governo o assunto esta encerrado, para os automobilistas apenas começou. Ou seja, os condutores tornaram-se vítimas colaterais duma guerra prolongada, penosa, sem desfecho à vista.

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