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Macau e a Língua Portuguesa como Pontes para a Colaboração

Hoje gostava de começar por realçar dois pormenores interessantes que recentemente estabeleceram pontes entre a minha juventude em LM (Maputo), por onde comecei esta série de artigos, e o presente aqui na Universidade de Macau (UM). O primeiro, tem a ver com o Michel Vaillant, uma das minhas séries favoritas de banda desenhada, criada precisamente quando nasci (1957) pelo francês Jean Graton (agora com 97 anos), e da qual adquiri vários livros entre os 12 e os 17 anos. Macau é famoso pelo seu Grande Prémio de Fórmula 3, com um traçado semelhante ao do Mónaco e cuja 67a. edição se realizou recentemente. Decorria o ano de 2018 quando o filho Philippe Graton, que edita actualmente o livro, veio até Macau e me falou na ideia de lançar o 77o. livro da série, com uma história sobre o GP local 35 anos depois da primeira, “Michel Vaillant – Encontro em Macau” de 1983. Como tinha ouvido falar do meu laboratório através de um amigo comum (Ricardo Pinto – Director do Jornal Ponto Final) gostava de incluir na aventura umas cenas de uma trama de espionagem electrónica no meu laboratório, e assim ficámos “imortalizados” (!) nuns quadradinhos da história apresentada em Novembro de 2018 e designada por “Michel Vaillant – Macau”, editada em 3 versões, Português, Chinês e Inglês. Foi um momento inesquecível até porque o livro autografado pelo autor foi oferecido (na minha ausência) à minha neta (Gabriela) no dia do lançamento. O segundo, está relacionado com a minha faceta de filatelista iniciada também em Moçambique quando coleccionava os selos das cartas que chegavam de Portugal, colecção que agora se espalha aos milhares por dezenas de álbuns com selos e blocos novos e usados, com carimbos do 1o. dia, etc… aproximando-se o 20o. aniversário da criação da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) a 20 de Dezembro de 2019, e uma vez que a bandeira da Região tem uma flôr-de-lótus, verifiquei no princípio do ano que um dos nossos chips electrónicos, publicado numa revista científica de topo da área, o IEEE Journal of Solid-State Circuits, tinha uma implantação muito semelhante a um corte de uma raíz da flôr-de-lótus. Propus então aos Correios de Macau que o chip aparecesse num selo/bloco comemorativo dos 20 anos, o que foi aceite. Assim a 20 de Dezembro, após a criação artística de um especialista, a colecção do aniversário da RAEM surgiu com o selo do bloco principal contendo o nosso chip e alguns esquemáticos do circuito destinado a aplicações na rede de 5G. Tendo assim a nossa Electrónica ficado perpetuada na “História Filatélica de Macau”!

Macau, é uma Região de 31 km2 com 1 península, 2 ilhas (Taipa e Coloane) e um enclave (1 km2) na ilha da Montanha (Hengqin), na China, com a UM apenas, murada e ligada à Taipa por 1 túnel sub-aquático. Uma característica local são as suas 5 pontes! A mais famosa de 1974, um dos ex-libris locais (aparece no logo da UM), é designada por Ponte Nobre de Carvalho (antigo Governador), projectada pelo Engo. Edgar Cardoso, com o formato de um Dragão, entre Macau e a Taipa. Outras duas em paralelo e uma quarta, designada por Flôr-de-Lótus entre a Taipa e a ilha da Montanha (Hengqin), e por fim a Ponte em Y, Hong Kong-Macau-Zhuhai, que é a mais longa travessia marítima do mundo com 55 km! Para além destas 5 pontes físicas em betão, Macau foi igualmente definido pela China como uma plataforma (ou seja, mais uma ponte, esta intangível) para os países de língua portuguesa. A sua universidade pública principal, a UM, tem cumprido exactamente essa função ao longo dos tempos como irei elaborar de novo com mais alguns episódios que o demonstram.

 

Em 1998, quando do primeiro encontro em Macau da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), presidiu ao mesmo o Primeiro Ministro, Engo. António Guterres (estudámos ambos no mesmo departamento do Técnico), quando o recebi e nos deslocámos do parque de estacionamento até ao auditório principal da universidade passámos por um cordão de alunos dos países africanos de língua portuguesa, que aqui estudavam, ele foi cumprimentado efusivamente por todos, e perguntou-me: “Mas isto não é uma reunião de Reitores?”, eu respondi: “Sim, eles estão lá dentro à sua espera, estes são nossos alunos”, ficou bastante surpreendido por serem tantos alunos de África!

Em 2000, Timor-Leste passava ainda um mau bocado antes da independência, quando um grupo de 10 jovens timorenses, na sua maioria familiares do pároco local também timorense, Francisco Fernandes, mais conhecido por “Padre Xico” (nosso mestre em português), chegou num sábado ao aeroporto de Macau, vindo da Indonésia. Como não tinham documentação não podiam entrar na Região. Recebo então um telefonema dum funcionário do Governo relatando o facto e perguntando-me se eles eram alunos da UM, porque se fossem poderiam entrar, caso contrário seriam deportados… pedi um tempo para verificar, telefonei à nossa Directora do Departamento de Português, Profa. Maria Antónia Espadinha perguntando-lhe se sabia de alguma coisa, ficou de falar com o Padre Xico, o qual lhe disse que sim e que estava à espera que eles chegassem e pudessem estudar na UM… face a esta situação desesperada, assumi a responsabilidade e respondi ao funcionário, que sim que eram nossos alunos, e assim entraram os 10 em Macau. Possuíam apenas documentos da Indonésia, alguns papéis de liceus em indonésio (tinham apenas o equivalente ao 10o. ano…), não sabiam falar Português, e apenas alguns falavam pouco Inglês. Tivémos de criar cursos especiais de 2 anos para aprenderem Português, Inglês e outras matérias ao nível do 12o. ano para os podermos admitir depois na UM. Mas a universidade teve de suportar tudo no início, alimentação, alojamento, propinas, etc… e a situação económica local na altura não era famosa, pelo que corríamos o risco de não os conseguir financiar durante muito tempo. Mas, em 2002, numa tarde, a minha secretária diz-me: “Está ali fora um senhor que diz ser o Cônsul da Finlândia, em HK e Macau, e gostava de falar consigo”. Recebi-o, fiquei espantado pois apesar de estar de fato e gravata trazia uma mochila às costas. Apresentou-se como Pauli Makela, estava baseado em HK mas tinha vindo nesse dia a Macau, e disse que sabia que Timor-Leste ia ser independente em breve, e como eu era o Vice-Reitor português, gostava de ver comigo se tínhamos alunos timorenses e se tinham necessidades financeiras, pois a Finlândia estava interessada em ajudá-los a completar os seus estudos. Pensei para com os meus botões, isto é um milagre, este sujeito só pode ter caído do Céu! Mas, assim foi, a Finlândia pagou tudo aos 10 jovens a partir desse momento, não foi fácil, a progressão foi lenta, alguns foram desistindo, mas o Cônsul dizia-me sempre: “Mesmo que consigamos graduar só 1, já é importante”! E conseguimos, em 2008, 2 licenciaram-se, em Comunicação, o Francisco Gusmão, e em Direito, a Zulmira da Silva. Na altura, já o Cônsul era Embaixador da Finlândia em Roma e, como nós, ficou radiante com o resultado. Dois pormenores interessantes, a Zulmira, é actualmente Juíza em Díli, e visitou-nos recentemente nesse âmbito, por outro lado, o Cônsul finlandês era uma pessoa única, aparecia de vez em quando no meu gabinete, quando vinha a Macau, e lembro-me uma vez de lhe perguntar: “Tem carro? Se precisar o meu motorista leva-o onde fôr preciso.” Foi a única pessoa que sempre recusou tal oferta dizendo: “Não se preocupe, eu apanho um táxi”! Realmente, inacreditável.

Foi, assim, com uma enorme satisfação, que em 2016, como Presidente da AULP, presidi ao primeiro encontro da Associação, em Díli, organizado pela Universidade de Timor-Leste, pelo Reitor, Prof. Francisco Martins, de quem sou amigo. E, num momento especial em que Portugal se qualificou para as meias-finais do Europeu de Futebol, o jogo acabou perto das 5h da manhã e as ruas encheram-se de motorizadas com jovens que gritavam: “Porto”! “Porto”! Impressionante o carinho que o povo timorense demonstrava pela equipa portuguesa. Mas são inúmeras as estórias ao longo de mais de 28 anos como professor, e 23 anos como Vice-Reitor na UM, que envolvem a relação com os alunos e também professores dos países de língua portuguesa, nomeadamente os alunos africanos. Foram por isso dois momentos altos na minha vida, um quando recebi a Presidência da Associação, da Universidade Lúrio, do Reitor Jorge Ferrão, em 2014, e o outro quando em 2017 entreguei a Presidência à Universidade Mandume Ya Ndumefayo do Lubango, em Angola, ao Reitor Orlando Mata, no encontro anual em Campinas, no Brasil, e no qual entregámos os prémios Fernão Mendes Pinto (autor da “Peregrinação” que passou por Macau) às melhores teses de mestrado e doutoramento de 2015, 2016 e 2017, prémios estes que propus e foram financiados pela Fundação Macau.

Para concluir, e num ano atípico com uma pandemia global, não queria deixar de referir, que pensando nas necessidades dos países africanos para fazerem face à mesma, surgiu-me a ideia em meados de Abril, e falei com uns colegas do meu laboratório e um outro colega da UM, que preside ao Instituto do Desenvolvimento e Qualidade – IDQ/Macau, Prof. Tam Lap Mou, e decidimos projectar 2 ventiladores para apoiar doentes com Covid-19, que foram concluídos em Agosto com tecnologia inovadora e completamente local, com custos muito menores que um ventilador normal no mercado. Foram entregues simbolicamente em cerimónia presidida pelo Reitor da UM, Prof. Yonghua Song, em Outubro de 2020, aos Cônsules de Angola e Moçambique em Macau, e estão neste momento a caminho de Maputo, e do Lubango, tendo sido doados à Universidade Pedagógica e à Universidade Mandume. Poderão ser utilizados em doentes reais, mas a ideia é igualmente doar a tecnologia e treinar engenheiros e médicos locais no desenvolvimento de novos ventiladores, o que deverá acontecer na próxima fase do projecto. Em tempo de pandemia e de dificuldades em todo o mundo, Macau e as suas instituições, UM e IDQ-Macau, cumpriram mais uma vez o seu papel de Ponte para a colaboração entre 2 continentes!

 

Rui Martins.

Macau, 1 de Dezembro de 2020.

P.S.- A praça principal de Macau é o Leal Senado, onde no edifício com o mesmo nome, se encontra uma placa com o título “Não Há Outra Mais Leal”, concedido pelo Rei D. João IV à cidade em 1654, pois foi o único local que não se rendeu aos Filipes de Espanha. Lembrei-me disto pela data de hoje, dia da restauração, em Portugal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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