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Luís Gonçalves: “fui enganado na FMF”

O ex-seleccionador nacional de futebol, Luís Gonçalves, disse que muita coisa aconteceu para que os Mambas não se qualificassem ao CAN dos Camarões, dentre aspectos organizacionais e a pandemia, para além da influência de terceiros. Gonçalves diz que a nossa organização (FMF) tem muito por melhorar e que não foi devidamente explorado. Diz que o seu contrato não era por objectivo e que terminava em finais de 2022

Luís Gonçalves escalou a sede do grupo Soico para uma entrevista ao programa Ao Ataque da Stv, onde abordou o passado, presente e futuro do futebol moçambicano. Nas linhas abaixo segue a entrevista, na íntegra, com o ex-seleccionador nacional, Luís Gonçalves.

 

Mister, o que falhou para que os Mambas não se qualificassem ao CAN?

Falharam várias coisas. Se olharmos apenas para dentro das quatro linhas e do jogo, essencialmente falhamos porque não fomos eficazes. Criámos muitas oportunidades de golo, muitas situações de golo, e não foi somente neste jogo, mas infelizmente uma das brechas do futebol moçambicano, que é a finalização, continua a penalizar a selecção nacional. Não é por falta de empenho dos jogadores, não é por falta de profissionalismo, mas é um facto. É uma questão de ver as estatísticas do jogo. Neste jogo creio que tivemos cerca de 16 remates, contra oito do adversário. Mas prontos, tivemos muitas oportunidades, tivemos um volume de jogo ofensivo e não marcamos. Isto dentro das quatro linhas. Mas há outras situações de circunstâncias que condicionam a preparação de jogos. É de domínio publico que o Moçambola não está a decorrer por conta da Covid que afectou todas equipas. Mas há selecções que são penalizadas em relação a outras em função das opções que tem a disposição. Quando o PR comunicou que o Moçambola iria parar imediatamente fiz saber que queria realizar um estágio interno de três semanas, e elaborei, inclusivamente uma lista de 32 jogadores e queria minimizar o impacto desta paragem repentina, mas este estágio não chegou a acontecer.

 

Qual foi a justificação que a FMF alegou para que o estágio não acontecesse?

Falaram de questões de logística e financeiros. E eu como profissional tenho que aceitar. Mas atenção que não estamos aqui a apontar o dedo a A,B ou C, estamos a constatar os factos que aconteceram, e que realmente tiveram alguma influência na preparação da equipa e no resultado final. Mas não me excluo e nunca iria fazer isso, da responsabilidade, tendo que até há bem pouco tempo era o responsável máximo da selecção e porque os resultados não apareceram, tenho a minha quota de responsabilidade. Mas é bom que se diga que a conjuntura não era de todo favorável. Penso que todas as pessoas que acompanham o futebol e estão ligadas ao fenómeno do futebol percebem isso.

 

Estando cientes Luís Gonçalves que aquela seria a derradeira fase de colocar os Mambas no CAN, teria dito ao elenco de Feisal Sidat que as condições não estavam criadas, nomeadamente a paragem do Moçambola e a não vinda de jogadores estrageiros, para esse objectivo?

Não, não. Não disse porque não é minha obrigação dizer e temos que trabalhar com o que temos. Trabalhar com as condições que temos e, apesar de todas dificuldades, eu acreditava que era possível chegar. Quem viu o jogo sabe que teria sido possível, apesar de olhar para o “onze” e ver muitos jogadores habituais na selecção que não estavam, sem desprimor os que estavam e fizeram um bom jogo, deram o seu melhor e honraram a camisola nacional, mas apesar das dificuldades sempre acreditei porque acredito muito no meu trabalho e nestes jogadores. Há coisas que devem melhorar ao longo do tempo, mas há coisas que não vamos conseguir melhorar amanhã, mas há coisas que decorrem, também, de coisas estruturais, de formação, de condições, etc. Mas não estamos aqui a arranjar desculpas, são factos.

 

Mister já trabalhou em Moçambique como adjunto de Abel Xavier e conhece o futebol moçambicano. Acreditava neste projecto de levar os Mambas a uma fase final de um CAN, mesmo tendo em conta que há 11 anos o país não chegava lá?

Realmente vim a Moçambique como adjunto de Abel Xavier num projecto, e em Maio de 2018 decidi sair, segui meu caminho e depois estava na China num projecto da federação chinesa. Quando me convidaram para vir treinar a selecção de Moçambique tive que contar com a compreensão dos dirigentes da federação chinesa e agradeço a eles por isso, aceitei porque é um país que também considero meu, e conhecia muito bem este grupo de jogadores, esta geração, com uma e outra entrada e saída, mas a base era a que conhecia desde o início. E por conhecer bem estes jogadores e o seu potencial, eu acreditava e sempre acreditei que era possível fazermos algo muito positivo. Portanto, apesar de todas dificuldades que nós conhecemos do futebol moçambicano continuo a acreditar que esta selecção pode atingir a qualificação a um CAN. Claro que a meio do percurso há outras condições que se levantam, como a pandemia que afecta a toda gente. Mas também acredito que a pandemia veio por mais a nu as organizações mais frágeis e as dificuldades foram muitas por causa disso.

“Nossa organização tem muito por melhorar”

A nossa organização é fragilizada?

A nossa organização tem muito para melhorar e toda gente reconhece isso. E não é mal nenhum. Eu, por exemplo, faço uma reflexão do meu desempenho profissional e não sou perfeito porque cometo erros e procuro sempre melhorar. Mas nós, acima de tudo, temos que ser mais profissionais. Acho que isso é importante. No futebol moçambicano temos que, todos, e não me excluo, temos que tentar ser profissionais. As vezes não é possível e as vezes, por mais profissionais que sejamos, por mais vontade que tenhamos, as vezes as condições não são possíveis, por falta de condições ou porque a conjuntura não é favorável ou porque somos afectados por decisões de terceiros. Mas penso que podemos fazer muito melhor.

 

Neste projecto que abraçou na selecção nacional, que tinha como principal objectivo qualificar os Mambas ao CAN, houve influência de terceiros que acabaram ditando este percurso inglório?

Para já dizer que não tinha como principal objectivo qualificar os Mambas ao CAN. Apenas era um dos objectivos. Essa foi uma ideia que foi vendida a partir de uma certa altura, mas era um dos objectivos, mas claro todos queríamos qualificar ao CAN e eu e minha equipa técnica fizemos de tudo que estava ao nosso alcance para nos qualificarmos, mas não foi possível. Mas isso não era único objectivo, porque não se faz um contrato até finais de 2022 com único objectivo de ir ao CAN. Para isso o contrato terminava quando terminasse esta fase de qualificação ao Mundial do Qatar. Os objectivos passavam por uma intervenção mais abrangente, e foi com essa primícia que vim cá, de colaborar no desenvolvimento do futebol moçambicano. Por exemplo, não era somente seleccionador nacional da selecção AA, mas também da selecção sub-23, e coordenador técnico das selecções de formação, sub-20 e sub-17. Só dai já dá para perceber que minha intervenção era muito mais abrangente.

 

“Se fosse contrato por objectivo do CAN não aceitaria”

Se fosse um contrato somente para qualificar os Mambas ao CAN 2021, teria aceitado o convite?

Não! Aceitei porque acreditei que era possível fazermos uma coisa mais e que estava a ser feito, que era possível, realmente, estes jogadores atingirem a qualificação para o CAN, porque era a prova logo a seguir, e foi isso que me pediram no princípio quando me contactaram. Aceitei porque também me pediram para renovar a selecção nacional. E aceitei também porque me pediram para colaborar na reformulação do futebol em Moçambique. E isso passa por definir estratégias de projectos a médio e longo prazo. Desenvolvimento do futebol através das selecções jovens. Foi nesse pressuposto que aceitei. Mas sendo seleccionador nacional AA, o foco é sempre na competição. É termos uma selecção competitiva, e que discuta a possibilidade de estar num CAN até ao final e isso aconteceu, porque chegamos ao último jogo e podíamos ser apurados. A selecção vai começar agora a disputar a fase de qualificação ao mundial e agora pergunto qual foi a última vez que Moçambique esteve na fase de grupos de qualificação ao mundial? Já faz alguns anos. Quem é que conseguiu essa qualificação? Foi esta equipa técnica que foi demitida. São estes jogadores que estão a ser postos em causa. Foi nos meus primeiros dois jogos na selecção na eliminatória contra as Maurícias. Mas isso agora não interessa nada porque o que eu quero é que as coisas melhorem e desejo as maiores felicidades a pessoa que me vai suceder.

 

Achas que há falta de reconhecimento do trabalho que desenvolveu?

Há, claramente. E mais: senti-me sub-aproveitado. Quero dizer que podia ter dado muito mais do que aquilo que dei, no sentido de colaborar mais porque tenho curriculum, tenho um passado e tenho algum conhecimento adquirido. Também não sou um falso-modesto porque sei das minhas competências e capacidades.

 

Há alguns dias mister dizia que para além de qualificar os Mambas ao CAN, tinha outros objectivos neste contrato, que passavam por participar nesta fase de qualificação e desenvolver o futebol moçambicano. Como é que reagiu a esta decisão da FMF?

Com surpresa, tristeza e indignação. Porque nem 24 horas passaram e eu ainda estava com azia, estava a digerir a derrota, porque não foi um simples jogo que perdemos, mas a possibilidade de estarmos num CAN. Mas quem pode tomar as decisões toma e fomos chamados para uma reunião cordial e profissional em que nos foi comunicado que rescindiam com os nossos serviços a partir daquele momento e de uma forma imediata. Senti-me indignado da forma como foi feito e não com ninguém em particular.

 

Ficou com essa ideia pré-concebida de que caso falhasse a qualificação Luís Gonçalves deixaria de ser seleccionador nacional?

O treinador de futebol tem consciência de que os resultados são importantes. Quando alguém é convidado para fazer parte de um projecto de uma selecção nacional de médio e longo prazo, não pode viver só dos resultados. E temos que perceber todas as condicionantes e conjunturas a volta das competições. Estava convencido que iria continuar e não senti, em momento algum que me iriam despedir caso não conseguisse a qualificação. Aliás, até tinha sinais contrários, mas as pessoas tem direito de decidir. Não guardo rancor e sigo a minha vida e desejo melhor para Moçambique.

 

Tirando os problemas de finalização que apontou, em termos de organização, estavam criadas condições para uma qualificação tranquila ao CAN, mesmo com todas adversidades, como não termos o Moçambola e não contar com alguns jogadores que actuam fora de portas?

Há aqui muitas situações que não são da responsabilidade da federação e nem da equipa técnica, mas são contingências, são coisas que acontecem. Mesmo antes destes dois jogos tive o cuidado de chamar atenção e até fazer um apelo para que a CAF adiasse estes dois jogos e era possível fazer estes dois jogos em Junho. Mesmo com jogos de qualificação ao mundial, acho que podiam encaixar estes dois jogos de apuramento ao CAN. E não sei se a CAF defendeu os jogadores africanos que jogam na Europa. Então, em relação a este estágio concretamente, as condições existentes foram as necessárias para que nós pudéssemos fazer o nosso trabalho. Para além de que houve a alteração do jogo com Ruanda e jogamos a 1500 metros de altitude e isso influenciou bastante.

 

Mister disse que não foi consultado da alteração do jogo…

Sim, não fui consultado. Quando me perguntaram na conferência de imprensa eu disse, e continuo dizendo que a CAF não me consultou. Agora, se a CAF consultou a FMF ou não, também não sei. Se a CAF pode marcar os jogos sem consultar as federações, também não sei… A mim, nem ninguém da CAF e nem da federação me perguntaram sobre a minha opinião em relação a essa alteração.

 

Ainda assim continua a acreditar nesse projecto?

Continuo a acreditar sempre. Havia duas hipóteses: ou deixava de acreditar e dizia as pessoas que não valia a pena, ou, apesar de tudo isso, iria fazer tudo que estaria ao meu alcance para conseguir atingir o objectivo e foi isso que eu fiz. Se se recorda a minha convocatória incluía jogadores que sabíamos que não viriam e foi no sentido de fazer um forcing, uma pressão para que, tanto a nossa federação assim como a CAF, pressionassem os clubes para que libertassem os jogadores e esse trabalho foi feito pela federação, a que dize-lo, mas não foi suficiente. No meu entendimento o jogo do Ruanda era tão importante quanto o jogo do Cabo Verde.

 

Olhando para o seu contrato, se a FMF diz que era por objectivo, do seu lado, foram cumpridas todas as condições que pediu em termos de condições de trabalho?

Sei das limitações do nosso país por isso nunca pedi algo que fosse inatingível. Há seleccionadores que antes de uma convocatória fazem digressão a Europa, para observarem os jogadores, mas eu nunca pedi isso porque reconheço as limitações. Em termos de condições de trabalho considero que foram suficientes para que nós pudéssemos desenvolver o nosso trabalho. Não sou uma pessoa que faz exigências desmedidas. Nós temos que saber fazer muito com o pouco que temos, que é uma das qualidades do povo moçambicano. Mas se me perguntar se em Moçambique há ou não condições ideais para alta competição, diria que não temos.

 

“Não fui seleccionador de Simango e nem de Feisal, mas de Moçambique”

Foi contratado no tempo de Alberto Simango Jr. e depois trabalhou com Feisal Sidat. Sentiu alguma mudança no tratamento, sob ponto de vista das condições criadas, que condicionou seu trabalho?

Cheguei a dizer ao presidente Feisal que não era o seleccionador do Simango e nem seleccionador do Feisal, mas que era seleccionador nacional de Moçambique e o contrato que celebrei foi com a Federação Moçambicana de Futebol, embora seja verdade que o presidente Simango é que apostou em mim, mas isso não muda nada em relação ao trabalho que desenvolvo e ao profissionalismo naquilo que faço. Acho que o presidente Feisal é que responder essa pergunta. E lembro que aquando da eleição de Feisal sidat a presidência da FMF uma das perguntas que fizeram a ele era se iria manter o seleccionador nacional e ele respondeu que sim, porque estava a fazer um bom trabalho. A relação que sempre tive com o presidente Feisal e toda direcção sempre foi profissional e cordial. Mas se me perguntar se eu era o seleccionador deste presidente, não sei, não consigo responder a essa pergunta. O seleccionador nacional, seja ele qual for, e o presidente da FMF, seja ele qual for, deve sempre pensar, em primeiro lugar, no país. Eu exerci este cargo com muita responsabilidade e estando consciente que era, realmente uma grande responsabilidade e por isso por diversas vezes eu disse que não me considerava um simples treinador, porque ser seleccionador nacional exige uma outra responsabilidade. Porque a selecção nacional é a equipa que representa o país. Por isso o povo tem razão de estar zangado, desiludido e revoltado porque os resultados são negativos.

 

Mister, o que essencialmente deve mudar neste nosso futebol e o que deve ser feito para que vivamos apenas em lembranças?

Deve ser feito uma aposta muito forte no futebol de formação. Acho que a formação, e não falo apenas do futebol, é a principal causa do desenvolvimento de um país. Deve ser feito um plano de desenvolvimento do jogador e o motor desse desenvolvimento deve ser a Federação Moçambicana de Futebol. A federação deve ser a principal responsável da política desportiva daquela modalidade em causa. Claro que há muitas questões como a falta de campos para treinar, clubes que não pagam salários e muito mais. Mas temos que olhar para frente e colocar as ideias no papel e depois colocar em prática. Em relação as competições, em vez de estarmos a exigir sempre que Moçambique vá ao CAN ou vá ao mundial, porque não dizer, nós vamos participar sem que haja essa exigência, mas a fazermos o melhor que pudermos, mas ao mesmo tempo termos que trabalhar para que depois o futebol de formação seja uma realidade no país.

 

Estamos a exigir muito, neste momento, para aquilo que é o nosso contexto?

Claramente! Como é que possível exigir-se sempre que devemos ir ao CAN quando…a última participação foi em 2010. Se me dissesse, Moçambique está sempre nas fases finais do CAN, Moçambique é sempre apurado para o Mundial, se exige tudo e mais alguma coisa das pessoas, não é! Caso contrário, temos que acalentar sempre a esperança. Daí eu dizer, eu tenho um sonho, sou ambicioso e vou trabalhar o máximo, porque não há impossíveis no futebol.

A questão é, nós dizemos assim, esta selecção, este país está normalmente presente nas fases finais, isto significa que o futebol neste país está desenvolvido e é um futebol já com um outros nível. Portugal passou muito por isto.

 

Aliás, temos apenas quatro presenças num CAN…

Portugal passou muito por isto. Portugal só a partir de um plano de desenvolvimento…foi o professor Carlos Queiroz que o fez, não sozinho, mas ele era a cara do projecto, era o líder. Só a partir desse momento é que depois Portugal começou a participar com regularidade nas fases finais do Europeu e também do Mundial. Agora, a questão é quando não se vai lá é uma surpresa. Isto decorre de um projecto que foi feito, um projecto de médio e longo prazo, que foi implementado, com muitas dificuldades, também, e ao longo dos anos. Porque é preciso tempo para as coisas acontecerem. Se estivermos sempre a avançar e a recuar, não saímos do mesmo sítio.

 

“Tinha plano de desenvolvimento que não avançou”

E o plano de desenvolvimento que o mister exigiu como é que está?

Eu não exigi nada, eu tinha um plano de desenvolvimento para propor, mas não foi possível avançar. Se falarmos na questão do desenvolvimento do futebol ao nível de formação.

 

E não foi possível avançar com esse plano aquando da assinatura do contrato?

Não! Vamos lá ver, eu estou a dizer as coisas como elas são e com todo o respeito por todas as pessoas. Neste momento, a Federação Moçambicana de Futebol conta com um profissional de excelência chamado Arnaldo Salvado, uma pessoa que tem curriculum invejável, Director-Técnico Nacional, é uma pessoa que eu reconheço, que tem grande competência, e eu faço votos para que deixem o Arnaldo Salvado pôr em prática as suas ideias.

 

E quanto ao plano técnico?

O plano técnico foi, como eu tinha dito, temos que competir o melhor possível, tentando uma qualificação para o CAN, estivemos quase, e elevar a selecção A, ao longo do tempo, uma qualificação para o Mundial, se possível. Porque na minha cabeça não ia acabar aqui, eu me considerava que estava a meio do projecto.

 

“Devemos baixar expectativas e não pensar na qualificação ao mundial”

Para qualificar ao Mundial, o que efectivamente deveria ser feito?

Em primeiro lugar, dizer publicamente, que depois destes acontecimentos que nós vamos tentar pontuar na qualificação para o Mundial. Que é para baixar de uma vez por todas as expectativas. Também de certa forma alimentei expectativas, mas eu não podia, como líder de uma equipa, dizer publicamente que nós não temos hipótese, porque também eu acreditava que tínhamos, em relação ao CAN, mas em relação Mundial, honestamente, talvez seja mais realista para dizer: não vamos participar nesta qualificação, vamos fazer o melhor possível jogo a jogo e tentar pontuar, até pode acontecer no fim das contas, estarem a disputar essa possível qualificação, mas ao longo desse tempo tem que se continuar a fazer a renovação da selecção. A selecção tem que ser renovada.

 

Mister, há três pontos que podemos aqui levantar, desta conversa que estamos a ter. Quando assinou o contrato com a FMF não tinha como principal objectivo qualificar Moçambique ao Campeonato Africano das Nações.

Não, não era o principal objectivo, era um dos objectivos.

 

O plano era o desenvolvimento do futebol nacional, era a proposta!

Era participar no desenvolvimento do futebol nacional. Atenção, Moçambique tem muita gente com capacidade.

 

Pelo que eu percebi da sua explanação, neste momento não está a acontecer…

Não estava a acontecer comigo, não! A partir de um certo momento, por exemplo, com a entrada desta actual direcção, foi nomeado um Director-Técnico Nacional, que eu já falei aqui, uma pessoa que eu tenho uma grande consideração, é uma pessoa muito competente e essa pessoa, a partir dessa altura fiquei responsável por essa tarefa, ou seja, a partir dos Sub-20 para baixo e também com essa tarefa. Tivemos algumas conversas, muito positivas e estávamos a começar um trabalho de colaboração, inclusive foi criada uma task force.

 

Isso estava preparado ou aconteceu pelo caminho?

Vamos ser claros! Quando eu entrei na Federação, quando assumi eu tinha responsabilidades mais abrangentes. Quando entrou uma nova direcção, entrou um novo Director-Técnico Nacional e a minha intervenção mais limitada, contudo havia diálogo entre o Director-Técnico Nacional e o Seleccionador Nacional e até estava a ser criada uma task force, até com outros treinadores moçambicanos que não fazem parte da federação, mas que foram chamados para isso. Neste momento estava a se começar a discutir o modelo de jogos das selecções nacionais. Portanto, nós estávamos a trabalhar em conjunto.

 

“Fiz o meu trabalho perante condições que recebi”

Mister, olhando para esses dois aspectos, a não qualificação de Moçambique ao Campeonato Africano das Nações, mas este não era o principal objectivo, contrariamente a o que se tem falado e a não execução deste plano de desenvolvimento. Disse que na sua era isso não estava a acontecer…Por que o mister aceitou abraçar um projecto deste, tendo em conta que quando assinou contrato sabia muito bem o que lhe esperava, sabia o que queria fazer…nalgum momento teria se sentido enganado?

Sim! Vamos lá ver, eu vim com um propósito, vinha com uma ideia e a partir de um certo momento…por força das circunstâncias, mas eu acabei por aceitar isso, ou seja, acabei por continuar a fazer o meu trabalho, sempre disponível para colaborar, a partir de um certo momento deixei de ter essa responsabilidade mais abrangente, porque foi imposta, paciência!

 

Porquê acabou aceitando isso?

Eu como Seleccionador Nacional, não há, como já disse…em primeiro lugar eu acredito nos jogadores e no grupo de jogadores que tinha e acreditava firmemente que nós íamos conseguir, pelo menos chegar ao CAN. Depois veio uma série de coisas e uma série de contingências.

 

Qual foi o acordo rubricado entre Luís Gonçalves e Federação Moçambicana de Futebol. O que o mister deixou de fazer que deveria ter feito? O que fez que não deveria de ter feito?

Essa é uma pergunta muito interessante, mas muito difícil de responder. Eu penso que fiz tudo que estava ao meu alcance, perante as condições de trabalho e perante as circunstâncias que foram aparecendo. Atenção, não queria que ficasse aqui uma imagem muito negativa, porque a Federação tem muitas coisas boas e tem muitos profissionais, também, competentes que querem que as coisas aconteçam, mas não consigo dizer mais que isto. Em consciência fiz o melhor que pude perante as circunstâncias.

 

Falo das actividades concretamente…

Como por exemplo…

 

O que fez, que não deveria ter feito…

Então pronto! Vamos por ordem cronológica, se calhar é mais fácil.

Eu entrei em Agosto e logo em princípios de Setembro fizemos dois jogos, e era uma eliminatória que dava acesso à fase de grupos do apuramento para o Mundial, como já disse. Naturalmente fomos competir, saímo-nos bem e fomos apurados. Isso estávamos em Setembro de 2019, já nessa altura foram dados passos no sentido de organizar. Portanto, mesmo ao nível das selecções de base, foram feitas algumas reuniões, não muitas, porque aí havia uma grande urgência ao nível competitivo por parte da selecção A, entretanto tivemos em Outubro mais um estágio, fomos ao Quénia jogar e esse jogo também serviu, de certa forma, de preparação para os jogos que vinham em Novembro, que era o início da qualificação para o CAN, depois em Novembro tivemos dois jogos, recebemos o Ruanda e vencemos, com Cabo Verde empatamos. Entretanto, houve eleições, entrou uma figura nova, o Director-Técnico Nacional e a partir daí a minha intervenção já não pode ser fora dos limites. É só isso, foquei-me na selecção A, na selecção Sub-23.

 

A partir desse período em que há esse novo elenco da Federação Moçambicana de Futebol sentiu-se limitado em exercer algumas actividades ou certas actividades?

Há aqui uma questão de ética e respeito. A partir do momento em que é nomeado um Director-Técnico Nacional, a primeira coisa que fiz e volto a dizer o mister Salvado é uma pessoa muito competente, vamos dizer, cinco estrelas. E eu disse, eu estou disponível para o que precisar e numa altura já estava constituída uma task force, está ainda em marcha e ainda bem. Eu acho que é preciso haver modelos de jogo transversal dos Sub-23 para baixo. Com a A eu entendo que é diferente, porque é mais representativa do país e a prova disso é que o treinador perdeu o jogo, não perdeu a qualificação. Agora vem outro treinador, talvez vem com ideias diferentes.

 

“Decisões de agora vão ditar futebol no futuro”

Como é que olha para futebol moçambicano daqui há cinco anos?

Acredito que estas desilusões sirvam para nós pararmos, no sentido de fazermos uma reflexão e não pararmos as competições. Acredito que as pessoas vão fazer “mea culpa”, e dizer vamos arregaçar as mangas e trabalharmos para fazer com o futebol seja mais forte. E depois há coisas que não controlamos, casos da pandemia, que condiciona muito o futebol. Daqui há cinco anos vai depender muito daquilo quase decidir agora, da estratégia. Sua excelência é a pessoa mais qualificada para falar dessas coisas e acredito que fez uma análise mais profunda da situação e entende que ‘e necessário, talvez seja esse o caminho. Mas uma coisa tenho certeza: há muito talento no país e temos que olhar muito pelo jogador moçambicano, principalmente aquele que joga em Moçambique, que precisa de mais apoios, mais incentivos e mais oportunidades para se desenvolverem e depois poderem representar a selecção ao mais alto nível. Reconheço as dificuldades que os clubes tem e que fazem das tripas coração para poderem sobreviver, mas tem que realmente se apostar a sério. Se o Moçambola não puder ter 14 equipas, que tenha 10, se não se puder pagar salários num certo valor, que se negocie, porque a partir do m omento que há compromissos tem que serem honrados, porque o jogador de futebol deve ser tratado como profissional porque aquele é o seu emprego. Há muita gente boa no futebol moçambicano que quer que as coisas evoluam. Vamos ter esperança que as coisas vão melhorar. Mas o que se fizer agora é que vai determinar o que vai acontecer no futuro.

 

“Não sei se aceitaria o convite de ser seleccionador nacional”

Como é possível que Moçambique consiga fazer quatro pontos em dois jogos e depois consente quatro derrotas consecutivas nesta fase de qualificação ao CAN?

Essa é uma pergunta que me faço sempre e já fiz a minha equipa técnica e faço uma reflexão sobre onde não estivemos tão bem que podíamos ter estado melhor. Efectivamente em quatro jogos marcamos um golo (não conto com os jogos amigáveis em Portugal, devido, também as circunstâncias). Isso não pode. Mas estivemos bem em todos os quatro jogos, desde o jogo diante dos Camarões. Os erros acontecem, não por falta de plano de jogo ou de preparação ou de intenção, mas fomos jogar depois de muito tempo de paragem devido a pandemia. E aqui em Maputo, com nove jogadores e eu mesmo infectado, não seria fácil fazer melhor. Ainda hoje me pergunto como foi possível isso acontecer porque sempre nos preveníamos em relação aos protocolos e não consigo explicar o que aconteceu. Mas sempre tivemos várias oportunidades de marcar e não conseguimos e isso acabou por nos penalizar. Aceito que as pessoas me critiquem e faz parte do meu trabalho. Quem toma as decisões normalmente é criticado porque convoquei este e não aquele, coloquei este a jogar e não aquele, etc, e as pessoas falam sempre e todos são seleccionadores.

 

Mister aceitaria voltar a assumir o comando dos Mambas se recebesse o convite?

Depende. Apanhou-me desarmado porque ainda estou a me refazer do despedimento, como foi feito, por isso não sei.

 

Se sim, o que deveria mudar?

Há muita coisa para mudar e não interessa agora mencionar. Mas já disse que estarei sempre disponível para Moçambique porque sou profissional de futebol. Se eventualmente no futuro, daqui a 10 anos, estaria aberto a todas propostas porque sou profissional de futebol. Neste momento não tenho trabalho e estou disponível para analisar qualquer proposta de qualquer parte do mundo. Um treinador de futebol tem que estar preparado para estar 10 dias, 10 meses, 10 anos num clube ou numa selecção.

 

 

 

 

 

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