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Lixeira de Hulene: quatro meses depois da tragédia

A área circunvizinha à lixeira de Hulene tem hoje um novo aspecto, contrariamente ao que se verificava antes da tragedia que foi responsável pela morte de 17 pessoas. Eram casas desordenadas, pessoas e lixo, muito lixo, diga-se de passagem, que conviviam no mesmo espaço. A circulação de pessoas e carros era feita por uma rua estreita junto ao monte de lixo, que já foi comparado a um edifico de três andares, constituindo sempre, um perigo a espreita.

Devido a essas características e a existência no local de muitas pessoas de conduta duvidosa, que se misturavam aos que, efectivamente, tem na reciclagem de lixo uma  forma de sobrevivência, os moradores do Bairro onde se encontra localizada a lixeira dizem que o local era um verdadeiro foco de assaltos e outros crimes.

“Não posso dizer que o problema está resolvido mas, nos últimos tempos não temos registado muitos problemas como antes “diz David Nassone chefe do quarteirão 119.

Com efeito, com a destruição das casas à volta da lixeira, a visibilidade melhorou, a nova rua já não está junto à lixeira onde muito facilmente um mal-intencionado podia se esconder e mesmo o número de pessoas que usam a mesma aumentou o que transmite uma certa confiança em relação a zona.

São benefícios que naturalmente, agradam os residentes do bairro, que entretanto, não resolveram um outro problema que os apoquentam. Para controlar e drenar as águas das chuvas e principalmente as que descem dos montes de lixo, o Conselho Municipal construiu, uma vala de drenagem cujas águas encontram-se estagnadas. Para os moradores, estas águas aumentam a reprodução de mosquitos e agravam o risco de doenças, que na verdade, sempre afectaram seriamente os residentes do bairro.

“Aqui há doenças, há malária e cólera que ninguém imagina “ diz agastado o chefe do quarteirão.

Apesar de a vala não ser profunda, os moradores das redondezas não descartam a possibilidade de crianças nela se afogarem (principalmente na época chuvosa) uma vez que constitui local privilegiado de brincadeira dos menores apesar das suas águas de cheiro e aspecto desagradáveis. Aliás é esta e outras preocupações levam os moradores a questionarem o porquê de algumas promessas feitas aquando da tragédia e da transferência das famílias do local não estarem a ser cumpridas.

“O que eu ouvi da vereadora quando estavam a fazer as demolições é que iam construir um muro à volta da Lixeira, mas até agora nada feito. Isso preocupa os moradores mesmo” diz o chefe do quarteirão

Enquanto isso, a luta pela sobrevivência na lixeira continua.Com a retirada das casas, os chamados catadores lixo arrendaram casas nas redondezas da lixeira e retomaram as suas actividades. Eles têm agora maior espaço para fazer a selecção e a venda do produto do seu trabalho. E ao que tudo indica, esta actividade não vai terminar pelo menos por enquanto. O lixo continua a ser depositado em Hulene e isso deixa os moradores agastados.

“Prometeram que em três meses, ou seja, noventa dias, a lixeira seria encerrada mas até agora isso ainda não aconteceu. Essa era a nossa esperança de que a lixeira ia sair daqui mas isso não está a acontecer”, disse o nosso entrevistado.

Na verdade, essa é a esperança não só de quem vive à volta da lixeira mas de todos os residentes do bairro de Hulene. Afinal, há cerca de cinquenta anos que convivem com a mesma com todas as consequências que daí advém: Mau cheiro, ratos, moscas, fumos tóxicos resultantes das constantes queimadas no local entre outros males. Há relatos de casos em que os moradores tiveram de usar redes mosquiteiras para passarem refeições sem a invasão, sempre desagradável, das moscas. O sonho de encerrar a lixeira pela edilidade tem pelo menos quinze anos. O dinheiro para o efeito esse, sempre faltou. Só para as operações de encerramento foi estimado um orçamento de pouco mais de oitenta e nove milhões de euros.

Os vizinhos da lixeira de Hulene sabem que para além de problemas de dinheiros, há dificuldades no reassentamento das famílias que ocupam parte do terreno reservado ao aterro sanitário de Matlemele, concebido para receber resíduos sólidos de Maputo e Matola mas não se conformam.

“A mesma flexibilidade que tiveram em tirar as pessoas que viviam aqui deviam ter lá”, sentencia Nassone.

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