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Literatura, música e memória: o start da 5ª edição do Resiliências

Mingas, Armando Artur, Rogério Manjate e José Luís Peixoto referiram-se aos seus processos criativos e trocaram impressões sobre arte no primeiro dia do Resiliências – Festival de Literatura. No Camões, Cidade de Maputo, esta terça-feira, a sessão de abertura foi dirigida pelo Embaixador de Portugal em Moçambique.

A sala de eventos do Camões – Centro Cultural Português em Maputo continua colorida, graças à exposição Musambique, dos portugueses Manuela Pimentel e JAS. Na verdade, a colectiva foi inaugurada no dia 30 de Março e pode ser visitada até 7 deste mês. Também por isso, o pano de fundo que serviu à quinta edição do Resiliências – Festival de Literatura foi completamente diferente das edições anteriores. Entre artes visuais que inspiram universos inerentes à Ilha de Moçambique, autores, leitores e amantes da literatura e das artes em geral uniram-se em torno de um movimento, através de conversas e de troca de impressões.

Assim, no primeiro painel estiveram duas vozes importantes das artes moçambicanas. Nomeadamente, Mingas e Armando Artur. Durante a conversa que durou mais de uma hora, os autores referiram-se aos seus processos criativos, partilhando “segredos” e o que os emociona. A cantora, com efeito, não escondeu a admiração pelos escritores, seres que considera inalcançáveis por todas as questões ligadas às suas capacidades criativas. Conforme entende Mingas, embora a música e a literatura sejam artes muito próximas, a literatura, em particular a poesia, distingue-se pela complexidade na tessitura.

Quem não concordou com a cantora, sempre num tom divertido e simpático, foi mesmo Armando Artur. Segundo disse o poeta, tanto a poesia assim como a música são artes com mesmo peso e que, nessa perspectiva, dispensam comparações hierárquicas. Aliás, nesse sentido, o poeta ouviu Mingas referir-se aos locais onde busca ideias e sensações para alimentar as suas letras musicais. A cantora mencionou paisagens, coisas simples ao seu redor e a oralidade. Nesse aspecto, Mingas coincide com Armando Artur porque, para o poeta, a paisagem natural é tão essencial quanto a paisagem humana que, muitas vezes, busca para compor o ser numa vertente estética e filosófica.

No encontro, Mingas cantou trechos de Gabriel Chiau para lembrar a sua infância, à capela, e, também por isso, mereceu atenção do público. “Foi interessante estar neste Resiliência com Armando Artur, afinal de contas, temos muito em comum na forma como trabalhamos e na forma como nos inspiramos. Todos precisamos de experiências e de estar connosco mesmos através destas partilhas, para conseguirmos construir o que pretendemos expressar. Aprendemos uns dos outros ao trocarmos estas experiências”, confessou Mingas, já sem pensar nas diferenças existentes entre a literatura e a música.

Concordando com Mingas, Armando Artur acrescentou que o encontro foi fabuloso, pois, igualmente, serviu de pretexto para homenagear três grande fazedores das letras: Craveirinha, Pastor e Saramago. “Acho que o Resiliências deve continuar a homenagear artistas. Este cruzamento entre a escrita e a música foi extremamente interessante e importante”.

No segundo painel do dia, estiveram Rogério Manjate e o escritor português José Luís Peixoto. Numa moderação da professora universitária Conceição Siopa, os dois autores levaram o público a uma aventura “descomprometida” pela ficção. Coincidentemente, ambos os autores trabalham com muitos géneros literários. Por exemplo, a poesia e a ficção. Referiram-se a tudo isso como uma necessidade criativa, natural. Por isso mesmo, Rogério Manjate destacou que no teatro encontra esse lugar de trabalho colectivo, tão importante quanto o da escrita, que é essencialmente solitário. Além disso, Manjate referiu-se ao que mais lhe interessa em sessões como Resiliências: “O que destaco nestes encontros é a relação com o leitor. O que nos falta é a criação destes momentos em que o leitor dialoga com o autor e vice-versa. E há um encontro com o outro, e esse outro pode ser um escritor, local ou estrangeiro. Esta é uma das coisas que o Resiliências está a propor-nos, preenchendo espaços ausentes”.

Manjate não saiu do Camões sem ter dito que o evento organizado pela Cavalo do Mar é oportuno para pensar a obra dos autores celebrados, isto é, os três José: Craveirinha, Pastor e Saramago. Por essa via, também caminhou outro José… Luís Peixoto: “A dimensão de estarmos a recordar grandes autores, de estamos no presente a trocar ideias e experiências e passar isso para os outros que podem vir a ser escritores, tem uma vitalidade que me entusiasma”. E continuou, pegando na ideia da importância de partilha de impressões entre escritores de proveniências diferentes: “Efectivamente, deparamo-nos com as mesmas questões. Estamos todos a solucionar problemas semelhantes. Muitas vezes, podemos aprender com as diferenças dos outros. Cada um tem as suas realidades e as suas perspectivas. A literatura, muitas vezes, é uma forma de lidar com isso”. Para o efeito, concordaram Peixoto e Manjate, as viagens por outras culturas e por outros espaços são fundamentais.

A sessão de abertura do Resiliências foi dirigida pelo Embaixador de Portugal em Moçambique, António Costa Moura. E, porque esta edição celebra Craveirinha, Pastor e Saramago, a poetisa Énia Lipanga declamou o poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade.

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