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“Líderes africanos devem deixar de pensar em seus estômagos e pensar no continente”

Foto: O País

Nem o colonialismo, nem os interesses de outros países de fora de África devem justificar os fracassos do continente, diz o analista de Política Internacional, Hélder Jauana. Argumenta que o continente precisa de intelecto capaz de pensar nos países africanos, em vez de políticos preocupados com “estômago”. 

“Os responsáveis pelos nossos infortúnios, pela nossa miséria, pela guerra e pelo atraso do continente são os próprios africanos, em primeiro lugar”. Com esta tese, o analista de Política Internacional, Hélder Jauana, afastava a ideia de haver conspiração contra os africanos, até porque, para si, qualquer Estado soberano virá à África com interesses próprios, tendo em conta os recursos que abundam no continente.

Embora seja o terceiro maior continente, o segundo mais populoso e com várias riquezas naturais e minerais, África é o continente mais pobre e contribui apenas com 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do mundo.

Cerca de um terço dos habitantes do continente vivem com menos de um dólar por dia, abaixo do nível de pobreza definido pelo Banco Mundial.

O economista Yasfir Ibrahimo diz que o continente deve priorizar a sua industrialização e não pensar apenas na lógica de exportar produtos inacabados, porque é obrigado a importar os mesmos já processados, estando, assim, num ciclo de dependência.

“Enquanto a África não substituir importações, não transformar as suas mercadorias em produtos acabados, dificilmente tiraremos proveito desses recursos”, diz o economista.

Entretanto, se por um lado falta industrialização, por outro falta intelecto capaz de impor a sua agenda nos países do continente, num contexto em que há uma corrida de multinacionais que querem explorar recursos.

“Temos que ter recursos humanos intelectualmente fortes, que têm a capacidade de discutir com os países do ocidente que têm interesses nos nossos países e impor a nossa agenda”, diz Hélder Jauana, acrescentando mesmo que a desculpa de neocolonialismo é “uma desculpa de quem não está a reflectir criticamente sobre os seus problemas e sobre os melhores caminhos a trilhar”.

Para o economista Yasfir Ibrahimo, o continente sequer está preparado para a zona de comércio livre continental, que vigora desde Janeiro de 2021.

O desequilíbrio das economias do continente é também uma barreira à eventual moeda única, que foi uma das lutas do falecido estadista africano, Muammar al-Gaddafi.

“Mesmo a fase de zona de comércio livre e a livre circulação de pessoas e bens ainda não está totalmente desenvolvida, depois, associado aos conflitos que existem dentro do continente africano. Um dos primeiros desafios que as economias africanas têm é a manutenção da paz.”

E, enquanto o continente tiver a sua economia dependente de financiamentos externos, continuaremos a pagar caro. Aliás, sobre este aspecto, o Presidente da União Africana já veio reclamar de taxas altas de juros, em parte, causadas pela inexistência de instituições próprias.

Macky Sall disse que as agências de notação financeira internacionais apresentam dados irreais das economias do continente, desincentivando e encarecendo o financiamento.

Bom, desafios económicos à parte, o continente é um verdadeiro palco de conflitos, a destacar actualmente o terrorismo.

Não há, hoje, uma região, sequer, de África que não seja abalada por este fenómeno.

Nígeria, Níger, Mali, Burkina Faso, na África Ocidental são exemplo de países cujo terrorismo é uma realidade.

Na África Central, o destaque vai para a República Democrática do Congo e Chade.

Somália e Quénia são, igualmente, o rosto desta força que instala terror na região Oriental do continente.

O fenómeno estende-se à África do Norte. A Líbia e o Sudão foram apontados como local de abrigo de terroristas.

Mais recentemente, Moçambique está no centro das atenções por ser o país de África Austral que se debate com o terrorismo.

Disputa pelo poder e consequentes golpes de Estado são também o rosto mais visível da discórdia entre os africanos. O Malí, Guiné Conacri, Burkina Faso, Sudão do Sul e Chade vivem um cenário político incerto como consequência de golpes de Estado.

A região Ocidental é a mais afectada pelo problema, tendo verificado quatro ocorrências em apenas 18 meses. O Mali até foi expulso de participar em todas as actividades da União Africana em consequência de dois golpes de Estado em nove meses, orquestrados por militares.

“Há grupos de interesses que estão preocupados com o seu estômago, preocupados em reproduzir-se e perpetuar-se no poder. É preciso pensar em África, mas isso só se faz com o compromisso das elites”, afirma Jauana, para quem os países africanos precisam de ter instituições de formação sobre a gestão do bem público.

“Não são as academias que devem aproximar-se dos políticos. Os políticos é que se devem aproximar às academias para fazerem melhores políticas públicas”, adverte.

Enfim, é neste contexto que os africanos celebraram, ontem, o seu dia e celebram, este ano, os 59 anos da criação da União Africana, com a finalidade de um continente mais unido, organizado, desenvolvido e livre.

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