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‘Lamura’: o possível universo da liberdade

No fim do nosso caminho está a liberdade.

Ascêncio de Freitas”

 

Num país atravessado por tantas intempéries, as histórias continuam sendo um pretexto imprescindível para se repensar o sentido da vida. Apercebendo-se ou não disso, Suzy Bila escreveu uma história cheia de asas, onde a técnica narrativa é o substracto de um voo para múltiplas dimensões.

Lamura começa por ser uma história para sonhar, feliz e com um universo diegético cheio de luz. No princípio, o enredo desenrola-se na aldeia de Bogoro, se acreditarmos no narrador, onde outrora morou África e a sua essência. Talvez para destruir essa essência ou, pelo menos, para mostrar como tem sido continuamente destruída, Suzy Bila ficcionou uma realidade atroz, pintando-a com sangue, suor e lágrimas. Assim, o que parece ser uma história auspiciosa e um sorriso iminente, rapidamente desemboca num caos, porque “Um dia, o vento que atravessou a aldeia trouxe o medo… Tudo começou a mudar. As famílias em desassossego cessaram as estórias à volta da fogueira. A aldeia emudeceu, adormecendo em silêncio. Até os pirilampos deixaram de luzir!”, (p. 13).

A situação que irrompe em Bogoro corrompe o contexto das personagens e, com isso, a violência se instaura. Desconhecidos homens armados chegam à aldeia, invadem casas e crianças são arrancadas dos braços das mães para irem servir a ganância dos vilões numa mina horrível. É um cenário muito idêntico ao que se passa em Cabo Delgado. Sem saberem porquê, aldeões vergam-se ao desespero e pais, humilhados, nem sequer conseguem proteger os seus próprios filhos. A diferença com Cabo Delgado é que o silêncio na aldeia de Bogoro não é causado pelos que partem, mas pelo pavor dos que ficam: “No lugar onde a aldeia se reunia à volta da fogueira e se contavam estórias, estava uma multidão de homens armados rodeando crianças desprotegidas”, (p. 17).

Submersa na crueldade, Bogoro vê a humanidade que sempre a definiu esfumar-se. Vê os filhos partirem para as minas de Cobalto e com eles uma perspectiva de coexistência. Lamura e o amigo Lwandle, por exemplo, quase se perdem no percurso a um futuro que os condena à morte. Mas Lamura encontra nas histórias contadas pelo pai a força interior que o permite sobreviver.

No livro de estreia de Suzy Bila, quem tem histórias possui conhecimentos, e, consequentemente, uma percepcao positiva sobre as coisas. Ao contrário de Lwandle, Lamura adapta-se às circunstâncias nas metamorfoses das mariposas, um sinal de esperança. Na verdade, a esperança é a base da liberdade e responsável por introduzir na ficção a vitalidade diferenciadora do protagonista.

Ora, mais do que uma denúncia dedicada às crianças que perderam a infância e a vida nas minas de Cobalto, Lamura é uma história escrita com muita autenticidade. É um lugar de confluência, no qual os conceitos de coexistência, liberdade, esperança e metamorfose são invocados através de uma personagem imberbe. Esta história de Suzy Bila é um confronto entre a ordem e o caos, a força e a subtileza, a morte e a superação. Lamura também é um pretexto para repensar um país, um continente ou um mundo atravessado por tantas adversidades. Nem mais, é a casa que merecemos e podemos construir em oposição à desordem que nos ronda, sempre por combater.

Numa sequência de eventos nucleares bem encadeados, com cor, atmosfera, movimento e acção, Suzy Bila sintetizou em 60 páginas o possível universo da liberdade. Não o preencheu de fantasias e nem se deixou levar pela necessidade de um desfecho justo. Pelo contrário, seguiu as trilhas do seu protagonista e emancipou-o da dor e do medo. Por isso Lamura sobrevive. A gruta onde é forçado a trabalhar não é um lugar para morrer, mas, fundamentalmente, um pêndulo onde se projectam outros princípios da vida. Eis o que nos diz Suzy Bila nesta história que pode ser infanto-juvenil e outras coisas: a liberdade não de deve calar com a intimidação das armas. Portanto, Lamura também é uma afronta ao silêncio.

 

Título: Lamura

Autora: Suzy Bila

Editora: Escola Portuguesa de Moçambique

Classificação: 16

 

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