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José Pastor: o poeta do amor e da morte publicado em livro

A editora Cavalo do Mar lançou a título póstumo, quinta-feira, no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, o livro de poemas Com a saliva muito ao Sul, da autoria de José Pastor.

 

“Quando no chão da nossa/ intimidade sulcamos a terra,/ para nos semearmos,/ é então que ela grita,/ e sangra, e canta com/ voz de barro”. Assim começa o primeiro poema de Com a saliva muito ao Sul, da autoria de José Pastor. O livro foi lançado quinta-feira, no Camões – Centro Cultural Português, em Maputo, sob a chancela da Cavalo do Mar.

Na cerimónia em que estiveram pessoas próximas ao falecido poeta, dois amigos partilharam memórias e uma certa imagem do que, de certo modo, representa José Pastor. Entre esses amigos destacaram-se Luís Lage e João Carlos Trindade. Não lhes cabendo apresentar a obra literária, ambos investiram num exercício de memória, celebrando Pastor com histórias comoventes e hilariantes.

O livro Com a saliva muito ao Sul é o primeiro de José Pastor. Quer isso dizer que em vida o poeta deixou poemas em algum lugar. Assim, coube a Afonso dos Santos, a quem o poeta confiou a tarefa por escrito, seleccionar os textos que agora compoem o livro. No Camões, durante a sua intervenção, Afonso dos Santos preveniu: “Não pus o José Pastor a escrever o que ele não escreveu. Também aqui se trata de uma questão de respeito. Tudo o que está neste livro, do primeiro ao último verso, é a escrita do José Pastor”.

Segundo acrescentou o coordandor editorial, “o objectivo não era simplesmente publicar um qualquer livro de poesia do José Pastor, era, sim, construir um livro que fosse uma obra coerente e com vida própria”, pois o que o poeta pretendia não era ter o seu nome na capa dum livro.

Afonso do Santos explicou, com efeito, como procedeu na selecção dos poemas e na organização do livro, o que inclui a ordenação dos poemas, de modo que a unidade de sentido não ficasse comprometida. “Quanto à selecção dos poemas, quero salientar que eu não me limitei a incluir no livro apenas os poemas da minha preferência, até porque outros leitores terão preferências diferentes das minhas, e, além disso, eu não estava a preparar um livro meu, estava a preparar o livro do José Pastor. Isto quer dizer que este livro não é aquilo que poderia ser considerado o meu livro de poemas do José Pastor”, acrescentou.

Com a saliva muito ao Sul é constituído por 151 páginas. No Camões, o livro foi apresentado por Nelson Saúte. Durante o discurso, o escritor afirmou: “Num país que pratica o esquecimento como uma das suas artes sublimes; num país que cultiva a amnésia com espantoso método; num país alheado, ancorado na desmemória e no opróbrio do descaso a que vota a muitos dos seus melhores; num país que trata com meticulosa displicência os seus poetas, este acto tem um significado e uma simbologia muito relevantes”.

Ainda durante a apresentação da obra, Saúte referiu que o livro Com a saliva muito ao Sul está dividido em dois momentos. Primeiro, “Respirar o Fogo”, que ocupa quase dois terços da obra, com poemas de amor, de um amor arrebatado, incessantemente carnal. Já na segunda parte, “Com a saliva muito ao Sul”, o escritor encontra um longo e fragmentado poema que não se exonera do seu registo lírico, onde se observa um poeta mais onírico, que muito cultiva a morte. “Este é um livro tremendo de um Poeta espantoso, de uma alma formidável, de um homem surpreendentemente excepcional, de uma ânsia de viver esplêndida, o que poderá parecer paradoxal, de uma vida breve e portentosa”.

Conforme se lê na sua nota biográfica, José António Pastor Duarte Silva nasceu a 29 de Julho de 1954, em Nampula, e faleceu a 26 de Agosto de 1993, na Cidade de Maputo. Passou grande parte da sua infância e uma pequena parte da adolescência em Lisboa. Regressou a Moçambique em 1969, tendo vivido sucessivamente nas cidades de Nampula, Lichinga e Maputo. Em 1977, foi para Cuba, como professor nas escolas moçambicanas na Isla de la Juventud. Regressou a Moçambique em 1985 e continuou a trabalhar como professor, primeiro na Escola Secundária de Nwachicoluane, no Distrito de Chókwè, na Província de Gaza, e, depois, na cidade de Maputo. Posteriormente, saiu da Educação e trabalhou como funcionário administrativo numa empresa.

Vários poemas e contos de Pastor estão publicados na imprensa moçambicana. Por exemplo, na Gazeta de Artes e Letras da célebre revista Tempo. Por vezes, assinou textos com o pseudónimo Broeiro Duarte São Pedro. Está representado nas seguintes antologias: Antologia da nova poesia moçambicana, de Fátima Mendonça e Nelson Saúte; Rostos da língua – breve antologia de autores da língua portuguesa, de Eduardo White; Die liebe aller tage – erzählungen aus Moçambique, de Elisa Fuchs e Elsa Fuchs-De Melo; Colectânea breve de literatura moçambicana, de Rogério Manjate.

Com a saliva muito ao Sul, com efeito, assim termina: “Quero atravessar o deserto,/ o desastre// Negrejo, e esta é a remendagem da alma./ Vejo-me espelhado num múrmuro/ abismo ignorado.”

 

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