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José Luís Cabaço entende que arquivos da História de Moçambique devem ser abertos

José Luís Cabaço entende que os arquivos da História de Moçambique devem ser abertos para que as novas gerações saibam exactamente de onde vêm. Falando do seu mais recente livro, À sombra da utopia, o autor explicou, em Maputo, por que a utopia é importante para as gerações.

 

À sombra da utopia: quando eu era nós é o mais recente título de José Luís Cabaço. A ideia do livro surgiu de algumas conversas que o autor teve com amigos, que, depois de lerem os textos que Cabaço publicou quando se encontrava na política, fizeram-lhe compreender que mereciam ser conhecidos. Assim, o autor seleccionou, do período em que estava na vida política activa, 10 textos de diversas épocas e matérias. Depois, fez um enquadramento de cinco, seis ou sete páginas, onde deu a história do texto e do contexto em que foi escrito.

Prefaciado por Lourenço do Rosário, À sombra da utopia é dedicado à mulher do autor e aos jovens moçambicanos, numa revisitação à História, não a grande narrativa, mas aos pequenos incidentes. “Foi isso o que procurei dar, explorando como é que se foi construindo o nosso pensamento colectivo, porque nos primeiros 10 anos da independência nacional discutíamos muito em conjunto. Daí a ideia de quando eu era nós. Naquela altura, o que eu dizia não representava o que eu pensava, mas o que nós pensávamos. A gente tinha pensamento comum. Trabalhávamos juntos e tínhamos uma linguagem empolgante. Pode-se deduzir que o que nós dizíamos reflectia o debate que tínhamos”.

De igual modo, José Luís Cabaço decidiu editar os textos em livro porque as novas gerações têm direito de ter acesso às fontes históricas do país, aos testemunhos e aos documentos. “No meu livro faço referência a isso: os donos da história não são os partidos nem os governos, mas o povo”. Foi mais ou menos a essa altura que José Luís Cabaço defendeu que os arquivos devem ser abertos aos historiadores, aos estudantes, aos investigadores ou aos jornalistas, “para que a nossa história, com tudo o que tem de grandioso e de menor, seja conhecida. A nova geração precisa de pegar na história real e fazer o próprio juízo de valor. Não julgar em função de clubes. Este país precisa muito dessa abertura das fontes, dessa disponibilização. Não estou a falar apenas da Frelimo. A Renamo tem documentação, MDM tem documentação, quer dizer, o exército tem documentação. Todos os actores envolvidos na História de Moçambique têm documentação que precisa ser disponibilizada para que as novas gerações possam saber exactamente de onde vêm e ter seu próprio juízo crítico sobre esse passado”.

Questionado se o país ainda está a produzir utopias, tal como no passado, José Luís Cabaço respondeu: “O grande sucesso da minha geração foi ter libertado o nosso país. A utopia da independência realizou-se. A justiça social, digo no meu livro, é uma bandeira que não conseguimos levar adiante. Deixamos por terra, e as novas gerações vão pegar naquela bandeira. A utopia não deve desaparecer. Alguém sempre vai pegar nela, pois a utopia não é a coisa do impossível, mas aquilo que nos faz andar para frente”.

Para Cabaço, “uma geração sem utopia é uma geração morta. É uma geração que não olha para o futuro, mas apenas para os pés. Todo este período histórico foi à sombra de uma utopia, essa sombra protectora que nos faz pensar no sentido da nossa vida”.

José Luís Cabaço entende igualmente que a leitura de um texto é sempre um diálogo entre aquilo que se é e aquilo que o texto diz. Por isso, “espero que o leitor leia o meu livro com abertura de espírito, com sentido crítico suficiente”.

 

Uma perspectiva com fracturas

Nas 297 páginas que compõem o livro editado pela Fundação Fernando Leite Couto, José Luís Cabaço também apresenta algumas fracturas que se iam desenhando no pensamento colectivo, o que contribui para que hoje tenha deixado de existir pensamento colectivo. Aliado a isso, “Trago também esta visão de fora de Moçambique, com distância física e ambiental que dá outras indicações analíticas. Quando estamos perto, às vezes, ficamos muito envolvidos e entusiasmados e algumas coisas não conseguimos ver”, acrescentou: “Quando a gente revisita o passado, tem duas tendências: ou a gente esquece tudo de mau e fala apenas do bom ou então a gente opta por dizer que tudo era mau e não havia nada de bom. É o que mais ouço”. Então, À sombra da utopia contorna essa tendência.

Segundo o autor, de alguma forma, À sombra da utopia é uma autobiografia intelectual, que reflecte como o seu pensamento se foi exprimindo nas várias circunstâncias. “Algo de mim está lá, mas não a contar a minha história”.

O exercício de memória de José Luís Cabaço foi feito em duas partes. Depois deste primeiro volume, dedicado aos textos escritos quando se encontrava na política activa, virá um segundo, com textos sobre a vida académica, com uma abordagem diferente daquela engajada, menos militante, mais analítica.

 

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