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José dos Remédios: O horizonte e a escrita

Por: Marcelo Panguana

 

O país navega em águas auspiciosas, falo, neste caso, da literatura, através das ondas capazes de nos levar até lugares nunca dantes navegados. Não sei se temos a consciência disso, mas estamos a palmilhar caminhos que se tornarão memoráveis quando quisermos estudar o desenvolvimento da nossa literatura pós-independência. A actividade editorial anda de vento em popa. O livro e o escritor assumem, aos poucos, o seu lugar e importâcia. Há muitos encontros onde se fala cada vez mais da literatura  e se equacionam as diversas questões a ele inerentes. Pode  se afirmar que o País está a despertar para uma realidade que dantes ocupava o lugar de sonho. E para que essa realidade sobreviva e se afirme, torna-se necessário que seja veiculada nas páginas da especialidade. José dos Remédios, jornalista e ensaista, indiscutível “Rei da nossa Baviera”, incansável  estudioso da coisa cultural, vem se ocupando, através dessa “sua rendição ao talento dos outros”, a debitar palavras sobre as obras dos artistas. Esse exercício que vem seguindo com perspicácia e sobretudo com essa humildade que o caracteriza, levou-o a escrever “O Horizonte e a Escrita” , um ensaio sobre as diversas narrativas de Adelino Timóteo. O título do livro, interessante na sua sonoridade e plasticidade, leva-nos, para além da metáfora subjacente, a pensar no horizonte como algo que limita o campo visual do observador, mas que não impede que se queira alcançar o que está para lá do seu limite. É como a escrita, onde não se sabe onde está o limite e assim se atiça a vontade de o alcancar, quer dizer, de atingir a perfeição.

Levanta-me, esta modesta crónica, a dificuldade de saber a quem se deve prestar a devida atenção, se ao José dos Remédios, reconhecido pela sua exemplar militância no jornalismo cultural; ou ao Adelino Timóteo, guru da literatura nas terras do Chiveve. O José dos Remédios, na sua permanente modéstia, sempre recusou a qualquer tipo de visibilidade, embora desempenhasse essa nobre missão de dar visibilidade a inúmeros fazedores de arte. Hoje, José dos Remédios assume-se como escritor através do livro “O horizonte e a escrita”, acrescentando a esta nobre condição com a de ensaista, moderador, palestrante, apresentador de livros, guionista, ocupações que nunca o tornaram um homem arrogante, porque tal como René Descartes, nunca o seu intento foi mais longe do que reformar os seus próprios pensamentos e construir em terreno que fosse todo seu. Nada mais que isso. Talvez por essa razão, toda essa sua simplicidade, todas as suas virtudes. Do Adelino Timóteo é aquilo que se conhece: toda uma vida dedicada as palavras. A reiventá-las. A tentar convencê-las para que fossem capazes de falar de si e do país a que pertence. Falar de Adelino Timóteo é referir-se aos muitos livros que escreveu. Dos prémios que usufruiu e sobretudo, do silêncio a que  se votou `a uma parte significativa da sua obra, devido a ausência duma crítica literária presente e reconhecida. Sem dúvida nenhuma algo inaceitável, porque “sendo Adelino Timóteo um autor preocupadíssimo com as vicissitudes históricas e sociais do seu país, julgamos crucial esta consideração aos seus livros, pois a partir dos mesmos se redescobre Mocambique”, assim se encontra escrito numa das orelhas do livro.

Vinte e um anos de publicação e dezanove títulos de Adelino Timóteo, constituiram o pretexto suficiente para dar corpo ao livro o “Horizonte e a Escrita”, inaugurando, de certa maneira, aquilo que entre nós foi sempre uma raridade: um livro a debruçar-se inteiramente sobre um escritor. José dos Remédios fê-lo. Elogiável a iniciativa, num meio em que a prática da crítica  literária é pouco frequente, não se sabe por que razão, acredito que não seja por falta de talento, provavelmente porque cultiva-se entre nós, a excessiva cautela de não ofender o outro, principalmente quando se sabe que uma crítica literária imparcial, corre o risco de ser verdadeira e as verdades, `as vezes, incomodam.

O livro começa com uma reflexão sobre a narrativa e o romance: duas abordagens essenciais, sabendo-se quão importante se tornou o romance no nosso contexto literário, e embora algumas respeitáveis opiniões considerem inábil o tratamento que o escritor moçambicano concede ao romance, não restam dúvidas que se apresenta como expressão literária ideal para mostrar a nossa realidade, em detrimento a poesia, que embora sendo a mátria da literatura, acabou sendo colocada de lado, devido, provavelmente, a sua forma hermética, o modo quase subjectivo como a realidade é descrita, insuficiente para dar o perfil do país que somos.

A reflexão que Dos Remédios desenvolve sobre a narrativa, chama ao de cima elementos primordiais como o espaço e o tempo, pois que é dentro deles que tudo se desenvolve, ou se quisermos, que ocorre todo o enredo das histórias que Adelino Timóteo nos conta. Aliás, como se refere no livro, “ O espaço é das mais relevantes qualidades narrativas, por ser nele onde se encontra a acção, a movimentação das personagens, os cenários geográficos e o retrato das atmosferas sociais e psicológicas, indispensáveis para a compreensão global da trama”. Quer dizer, sem o espaço nem o tempo não pode existir nenhuma narrativa. Não pode se construir um romance, em última análise, não se pode retratar uma sociedade. Não é, pois, por acaso, que o escritor checo Milan Kundera acaba dizendo que o romance é a grande forma da prosa em que o autor, através das personagens, examina até ao fim alguns grandes temas da existência”. Começa então aqui e na prespectiva de Dos Remédios, a grande aventura para se descobrir a relação existente entre o mundo real e a narrativa ficcional de Adelino Timóteo.

Mulungu, A Virgem da Babilónia, Nação Pária, Não Chora Carmen, Nós os do Macurungo, Apocalipse dos Predadores, Os Oito Maridos de Dona Luiza Michaela da Cruz e Cemitério dos Pássaros, foram os livros escolhidos por José dos Remédios para tentar fazer a leitura dos elementos considerados importantes na escrita de Timóteo, falo, por exemplo, da importância dos actos religiosos. E aqui se constata que “Adelino Timóteo resgata as divindades africanas, defende que cada civilização tem os seus conceitos de paraíso e de vida eterna, os quais são garantidos por um Ser que, para uns, se encontra no céu e em toda parte, quando para outros é terreno, necessariamente humano e espírito, simultaneamente”. “As personagens de Adelino Timóteo dão muita importância `a  virgindade, não no sentido de a preservar. Buscam virgens, enquanto símbolo de pureza, com intenções lascivas, apenas para satisfação individual”.  O livro de José dos Remédios é extenso na abordagem dos tiques sociais, politicos, culturais, não fosse a literatura o verdadeiro resgate de tudo o que nos rodeia, por isso, nesta vasta leitura dos livros do Timóteo encontramos um livro extremamente interessante, A Nação Pária, onde uma nação desaparece misteriosamente, uma espécie de metáfora ao país que pode deixar de existir se não forem debelados os males que o apoquentam. Podemos encontrar neste autor a abordagem sobre o fantástico e maravilhoso, o amor, a guerra e a morte. Afloram-se também as técnicas de escrita de Adelino Timóteo, como a recorrência a palavras bantu ou neologismos estranhos ao português europeu. Em todos os seus livros há um substracto comum, o amor `a pátria. De resto, como escreveu o autor do livro “O Horizonte e a Palavra“, autores como Adelino Timóteo são muito ligados `a Nação, enquanto espaço de afirmação e ruptura.

Ao debruçar-se atentamente sobre a escrita do “patriarca” de Chiveve, José dos Remédios faz-nos o grande favor de chamar atenção a esse incansável poeta, escritor e pintor, cujo trabalho artístico atravessa as fases mais importantes da sua terra, deixando gravadas todas as marcas que o tempo, imparável, as vezes faz questão de apagar. Este livro, “O Horizonte e a Escrita”, vem anunciar o surgimento e a solidez de um estudioso que se prepara para ocupar “espaços” de reflexão que, infelizmente permanecem vazios. Dizia, aliás, o José dos Remédios: Temos a convicção de que toda a literatura deve eternizar pelo menos os seus importantes criadores. Um dos mecanismos a ter em consideração  é a recensão literária, por via da qual se criam condições para que o espólio desses mesmos criadores não fique desvalorizado. Então, a decisão de estudar Adelino Timóteo surge, primeiro, por constituir um exercício com a possibilidade de inverter qualquer tendência natural de se “esquecer” o autor, como tem acontecido com tantos outros, como Fonseca Amaral, Carneiro Gonçalves, Aníbal Aleluia ou Heliodoro Baptista. Estou certo que o Adelino Timóteo não será esquecido!

 

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