O País – A verdade como notícia

Jornal O País: 16 anos de sonhos, transpiração e inspiração

Quando se me pedem para dissertar sobre os 16 anos do jornal O País, a primeira dificuldade óbvia é por onde começar. Deixem que me concentrem na história do jornal que poucos conhecem. Historicamente, o jornal O País passou por quatro fases de evolução. A primeira fase compreende a sua criação e lançamento da primeira edição, em 2003, pela Editores Associados, cujo director e um dos accionistas era António José Correia Paulo. Esta fase durou quase dois anos, entre finais de 2003 e Maio de 2005. Não há muito a contar sobre este período.

A segunda fase inicia em Maio de 2005, quando a publicação é adquirida pelo grupo Soico. Este momento foi marcante, não só para o grupo Soico, também para nós recém-contratados que trabalhávamos neste jornal. O jornal sofreu uma revolução quer no aspecto gráfico, desde as cores até ao layout (passou de cores vermelha e branca a azul e branca), bem como na sua linha editorial. A nível editorial foi-nos colocado a todos um grande desafio que constitui a visão do grupo: sermos a referência em Moçambique e na região da SADC. Para isso deveríamos optar por um jornalismo de isenção e guiar-nos pelos altos padrões éticos e técnico-profissionais. Tínhamos de romper com a anterior linha editorial. Houve, de facto, uma ruptura com o passado. Aprovámos um quadro de princípios ético e deontológico. A primeira decisão, após termos assinado contratos, é que deveríamos ser jornalistas multimedia. Não tínhamos na noção do que isso significava e representava, mas foi-nos explicado que isso significava que assinámos os contratos com o grupo Soico para fazer simultaneamente o jornal, a televisão e a rádio.  Ou seja, há 16 anos, quando o conceito de convergência multimedia era quase desconhecido, o grupo Soico já estava avançado nos processos de implementação de multimedialidade de plataformas. Tal como todas as mudanças suscitam resistência, esta decisão também não foi completamente aceite e implementada por todos. Era mais fácil um jornalista que cresceu a escrever para um jornal fazer televisão do que um jornalista da televisão fazer o jornal. Em quase todas as reuniões, Daniel David enfatizava que “o jornalismo multimedia é o futuro, não há voltas a dar” e ameaçava, como sempre, aos gritos: “quem não quer abraçar a ideia e o projecto a porta esta aberta. Todos devem saber fazer jornal, televisão, rádios e no futuro saberem filmar, editar as imagens e tirar fotografias. Quem não se adaptar não tem espaço neste grupo”. Essas ameaçam deixavam-me pessoalmente com arrepio, quão uma tempestade, no estomago e uma insegurança laboral tremenda. Quando ele saísse a redacção ficava toda ela gelada e em silêncio por alguns segundos ou minutos.

Raramente Daniel passava pela redacção sem deixar o ambiente de pânico. Se não era Daniel David era Jeremias Langa. Claro, era mais fácil aguentar pressão de Jeremias que já o conhecíamos do que de Daniel. Era difícil saber quando o trabalho era melhor? Quando eu julgasse que tinha feito excelente trabalho, em vez de elogios vinham críticas. Havia sempre algo de errado. Ou era a linguagem ou era o título ou era qualquer coisa. Às vezes o título era de Jeremias Langa, mas quem apanhava com críticas éramos nós. Jeremias Langa era profundamente influenciado pelo jornalismo desportivo português. Por isso, não gostava de títulos óbvios, adorava títulos fortes. Isso influenciou-me bastante na construção de títulos.

A multimedialidade criou, na altura, desgaste em nós do jornal O País. Era previsível, porque alguns jornalistas da televisão tinham limitações óbvias para um jornal. Era violento obrigar um jornalista da televisão a escrever um artigo de uma página ou duas do jornal. Eram poucos os jornalistas que tinham experiência de jornal. Recordo-me que apenas tínhamos Jeremias Langa (director editorial), Alfredo Júnior e Francisco Mandlate. Os restantes jornalistas não tinham experiência de jornal, embora alguns tenham estagiado em impressos. Nós, mais integrados no jornal, fazíamos as duas coisas, sem grandes dificuldades. Com o tempo, a resistência aos processos de mudança foram aumentando. Muitos preferiram fazer televisão a jornal. Em 2006, o semanário O País, com 32 páginas, chegou a ser produzido por três repórteres (eu, Arão Valoi e Ramos Miguel, este último chefe da redacção), sem textos de jornalistas da televisão.

Relativamente ao layout, tinham sido desenhados três ou quatro versões de layout que foram discutidos numa das salas do VIP. Duas versões foram as mais votadas: o layout muito próximo do anterior jornal, o mais votado e o de cor azul e branca, o segundo mais votado. Claramente que eu também tinha votado vermelho e branco. O argumento era de que a cor vermelha era viva do que a azul. A azul e branca eram pálidas e não atraiam aos leitores. Nessa reunião, Daniel David disse que o jornal tinha de marcar diferença e considerava a palidez da cor do jornal como uma das grandes diferenças em relação aos outros semanários. Era um jornal com mais cor branca do que azul. Prevaleceu a ideia vencida.

A terceira fase foi de transformação de semanário em diário e a respectiva reforma no layout, em 2007. Se produzir um semanário era difícil, mais difícil era aventurar para um diário de 32 páginas. É verdade que entre 2006 e 2007 tínhamos recebido um reforço de quatro estagiários, idos da Escola de Jornalismo e Universidade Eduardo Mondlane, com potencial enorme que viriam reforçar sobremaneira o jornal O País.  Hoje são referências incontornáveis no jornalismo moçambicano. Refiro-me a Boaventura Mucipo, Ricardo Machava, Orlando Macuácua (Escola de Jornalismo) e a própria Olívia Massango (vinha da UEM). Estes vieram aliviar-nos muito o fardo antes da transformação do semanário em diário. Como era de esperar, a transformação do jornal em diário trouxe enormes problemas. Saíamos da redacção de madrugada esgotados, no dia seguinte nova edição tinha de ser preparada. Fui-me incumbida a missão de negociar a contratação de bons e experientes jornalistas na praça para integrar o projecto de diário. Na altura negociei com vários jornalistas experientes e excelentes da praça. Quase todos aceitaram a proposta, mas à hora de assinatura do contrato recuaram. Outros vieram buscar contratos para irem ler e não regressaram mais. Os argumentos eram os mesmos: “ali se trabalha muito”, “ali só há hora de entrada e não há de saída”, “Ali não há tempo para descanso, nem aos fins-de-semana”, “ali há muita insegurança, mandam-te embora com facilidade, por isso, prefiro ganhar pouco mas com emprego seguro”.

Com a recusa dos jornalistas experientes só nos restava uma saída: lançar um concurso público para contratação de jornalistas e de estagiários. Pelo menos conseguimos vários estagiários. Dessa lista, ainda me recordo de Elísio Uamusse. O País diário foi fundamentalmente produzido por um muito de jornalistas experientes e de estagiários ou recém-contratados após estágio com sucesso. O projecto de diário fez com que a multimedialidade funcionasse em pleno. A redacção foi construída para servir todas as plataformas. Deixou de existir chefes da redacção para o jornal e para a stv. Só havia chefe e sub-chefe da redacção do grupo Soico. Igualmente, as secções também passaram a ter apenas editores de todas as plataformas, ou seja, o editor de sociedade era o mesmo para o jornal e para a televisão, ide em relação às outras secções. A resistência a mudança cessou. Claro que havia um e outro que ainda resistia. Esta foi a fase mais difícil. Numa primeira fase, a edição do jornal só fechava entre 3 e 4 horas. Com o tempo, o entrosamento e experiencia de jornalistas, fomos reduzindo a hora do fecho para 1 e 2 horas de madrugada. E finalmente, o fecho acontecia entre 22 e 23 horas.

A quarta fase é a que não participei. Apenas acompanhei como leitor. Nesta fase o jornal impresso foi descontinuado, dando lugar ao electrónico. Embora o electrónico tenha sido introduzido há bastante tempo, o marco desta fase seria 2020, após a eclosão do Covid-19.

Em todas estas fases há momentos que merecem destaque. Um dos momentos foi o início da governação do Presidente Armando Guebuza. Havia muita expectativa de que aquela seria uma governação transformacional e que romperia com o espirito de “Deixa Andar”, o burocratismo e a corrupção. O jornal O País desempenhou um papel do primeiro plano na monitoria de governação desse período. A cobertura de explosão de paiol de Malhazine a 23 de Março de 2007, que culminou com a morte de mais de 100 pessoas, as manifestações populações de 5 de Fevereiro de 2008 e de 1 e 2 de Setembro de 2010 constituíram também um momento marcante, nos quais o jornal se mostrou à altura, cumprimento, com excelência a função social. O mesmo papel cumpriu na cobertura dos processos eleitorais autárquicas e gerais de 2008/2009, 2013/2014 e 2018/2019; na cobertura dos ciclones e cheias e nos conflitos militares entre as forças governamentais e os homens da Renamo (2012-2014 e 2015 em diante; de Cabo Delgado, entre outros eventos. Um papel que continua a desempenhar, com maior ou menor dificuldade. Os tempos são outros.

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