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Investigador diz que recuo da Justiça seria o fracasso do Estado sul-africano

O investigador de relações internacionais, João de Barros, defende que um possível recuo da justiça sul-africana em relação à detenção de Zuma seria o fracasso do Estado sul-africano. O académico avança ainda que as sucessivas crises na África do Sul poderão ter efeitos negativos em Moçambique.

Em entrevista exclusiva ao “O País”, o Director do Centro dos Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Joaquim Chissano disse acreditar que mais do que contestar a detenção de Zuma, os manifestantes estão nas ruas para reclamar exclusão na distribuição da riqueza naquele país.

“O que está a acontecer na África do Sul é complexo. Ao que estamos a assistir são pilhagens, roubos, assaltos e destruições, o que nos mostra que um crescimento considerável que não se reflecte nas pessoas tem o condão de fracassar. E a África do Sul é um país que cresceu bastante, mas desenvolveu muito pouco particularmente nas comunidades negras. Esse estrato social procura, a todo custo, um escape para exteriorizar o que vai no seu coração”, defendeu.

Para o académico, as questões tribais ainda continuam presentes na vida dos sul-africanos e têm grande influência na vida política do país. João de Barros defendeu, por isso, a aposta na educação e em políticas para acabar com o ciclo de violência.

“Como disse o Presidente Chissano, quando há episódios de xenofobia, o Governo sul-africano deve educar a sua população. É sua obrigação fazer reformas para que o estado de direito se sobreponha às lideranças tradicionais, porque ao que estamos a assistir é que desde o fim do apartheid, até hoje, essas lideranças têm um grande peso nas decisões daquele país”.

Com as sucessivas crises na vizinha África do Sul, o investigador avançou que Moçambique pode sofrer impactos severos nos próximos tempos. Por isso, o país deve reinventar-se para acabar com a dependência em relação àquele país.

“Não devemos pensar que os nossos amigos de hoje serão os nossos amigos amanhã. Da mesma forma que a geração de 25 de Setembro está a passar, a geração de Thabo Mbeki e outros líderes que governaram a África do Sul estão a passar. Temos que procurar reinventar-nos e não pensar numa África do Sul sempre dominada pelo ANC. Os laços históricos são importantes, mas eles mudam, sofrem transformações e, quando o testemunho não é bem passado às novas gerações, isso pode criar problemas”, explicou.

João de Barros disse, ainda, que um possível recuo da justiça seria catastrófico para o Estado sul-africano.

“Espero que não haja recuo da justiça sul-africana. Isso seria o fracasso total do Estado sul-africano. Seria o nascer de uma bola de neve e que poderia reflectir-se pelo mundo fora. Quero acreditar que não haverá mudança na decisão, o que pode acontecer é que haja negociações para reduzir os meses de prisão, mas não necessariamente a saída dele da prisão”, concluiu o académico.

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