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Indústrias culturais e criativas: Fazer o quê?

Quais são os passos a serem dados nos próximos tempos que possam possibilitar o crescimento da nossa cultura? A resposta à esta questão não pode ser considerada fácil. Posso apresentar, se me for permitido, a mesma pergunta duma forma samoriana: o que devo fazer para que a cultura vinque? Esta é, em minha opinião, a questão fundamental se quisermos falar de desenvolvimento cultural.  O conceito de indústrias culturais e criativas é novo, mas a realidade que pretende abarcar presumo que seja aquela que desde sempre perseguimos, isto é, a promoçao do desenvolvimento cultural, onde o sujeito principal é o artista. Falar desse conceito, relativamente novo entre nós, sonhar as suas realizações, significa, necessariamente, colocar esse artista a frente da produção, a criar e a materializar os seus sonhos. De acordo com Muocha et al, 2020:31, a indústria cultural e criativa “é definido como sendo um conjunto de sectores de actividades com uma cadeia de valor baseada no talento individual, alicerçada no património cultural das suas comunidades, com potencial para a geração de renda e exploração da propriedade intelectual.” Fica claro, na citação acima referida, que cada um de nós, alicercando-se no seu talento individual, seja o que for que faça e onde quer que esteja, assuma o seu quinhão de responsabilidade perante o seu trabalho. Este é o segredo, para que não passemos o tempo esperando que os outros façam aquilo que desejariamos que fosse feito. Para que não endossemos o nosso infortúnio e incapacidade de realização à terceiros. Façamos a nossa parte, aquilo que nos é exigido, para que se realize plenamente a exploração económica da arte.

Quando se pergunta o que deve ser feito no sector da indústria cultural e criativa, endosso-me para a minha área profissional, a literatura, onde há muitas décadas palmilho os meus passos, e conheço, portanto, as janelas que se devem abrir para que os sonhos sugeridos pela escrita se concretizem na sua plenitude.  Quando se faz essa pergunta, não olho para os outros, viro-me para o meu próprio trabalho. Não me preocupo se os investimentos a nivel cultural foram devidamente alocados por aqueles que assumem essa delicada responsabilidad; não me embrenho nos meandros da indústria livreira que há seculos se esforça para colocar o livro nas mãos do leitor; deixo de outorgar-me o direito de exigir estímulos que merecem ser dispensados ao sector empresarial para que este apoie a Cultura; recuso-me a questionar por que razão o livro tarda a chegar aos lugares onde devia chegar. Não me preocupo demasiado com todas essas questões, embora pense, sobremaneira, nesta frase sábia lida algures: “O livro deve ter a protecção do Estado”. Claro que deve. Porque através da sabedoria que se apreende das páginas dos livros,  pode-se erguer um País.

Quando se pergunta o que deve ser feito para alavancar a indústria cultural e criativa em Moçambique, olho apenas para mim, eu, artista, criador, como factor principal de desenvolvimento. E penso, como escritor, que devo escrever. E escrever sobretudo bem. Os meus livros devem ser os melhores livros dentre todos os livros. Somente dessa forma se entra no concorrrido mercado livresco. Os meus livros, sendo, por presunção, os melhores dentre todos os livros, devem transpor fronteiras, para decorar as livrarias de Lisboa, Barcelona, Lagos, Dakar, Londres, Cidade da Praia ou Luanda, itinerários imprescindíveis do livro. O escritor, esse, não precisa de viajar. As suas palavras sim. A ele compete apenas permanecer sentado num lugar aparazível nas margens do Índico, a construir outras utopias, outras narrativas. Para que a industria cultural e criativa cresça, deve o Estado assumir que a Cultura, nas suas diversas manifestações, é um poder imprescindível. Deve apreender que existem artistas  capazes de “afirmar” o País com uma simples pincelada,  um poema, ou com uma estrofe musical, que o artista é capaz de mobilizar empreendimentos para Moçambique, mais do que o discurso monocórdico de qualquer político.

Reitero aqui, de forma breve, a minha convicção: os grandes anseios da nossa indústria cultural e criativa só poderão se tornar exequíveis se cada um de nós, no seu lugar, fazer aquilo que deve fazer, com perfeição, com afinco, com responsabilidade. Se assim acontecer, a nossa Cultura será como um imenso barco a furar águas profundas e longínquas, percorrendo mares nunca dantes navegados. O resto, isto é, a implantação de estruturas, de órgãos de execução disto ou daquilo, e demais burocracias, não passa de questões periféricas que apenas podem complementar a grande responsabilidade que cada um deve ter na sua área específica de trabalho. No contexto da indústria cultural e criativa, penso, como modesto “fazedor de palavras”, que deve-se colocar todo o povo a ler, porque segundo Paulo Freire, “a leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo. E aprender a ler, a escrever, alfabetizar-se, é, antes de mais nada, aprender a ler o mundo, compreender o seu contexto, não numa manipulação mecânica de palavras mas numa relação dinâmica que vincula linguagem e realidade”. Vamos, enfim, incorporar o livro e a leitura nessa imensa estratégia da industria cultural e criativa, porque um povo que não lê cria a possibilidade de construir uma Nação incapaz de atingir os seus objectivos de crescimento.

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