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Ilha de Ibo à beira de uma crise humanitária

O Governo e as organizações humanitárias continuam a prestar ajuda aos deslocados, mas parece que não estão a conseguir resolver os problemas básicos da população que, actualmente, vive em condições consideradas desumanas.

A Ilha do Ibo, na zona centro da província de Cabo Delgado, corre o risco de entrar numa crise humanitária, devido ao elevado número de sobreviventes dos ataques terroristas concentrados no distrito.

A situação é, também, grave em Matemo, ilha que não pára de receber pessoas desde o ataque armado à vila de Palma, a 24 de Março último, altura em que a via marítima se tornou a única alternativa de fuga das zonas de conflito. Um dos maiores problemas que as famílias enfrentam é a fome e, muitas delas continuam a sobreviver graças à solidariedade de outros deslocados.

“Eu vim a Matemo há 27 dias, com a minha esposa e quatro filhos e nunca recebemos ajuda. Comemos graças a algumas pessoas que, às vezes, dão um quilo de arroz ou farinha. E, quando não há nada, todos dormimos com fome”, contou Sumail Saíde, um deslocado que fugiu da aldeia Namandingo, distrito de Palma, devido à intensificação dos ataques terroristas.

A situação é considerada crítica, especialmente para as crianças que não estão a suportar a fome.

“Eu vivo aqui desde que atacaram a vila de Palma, há mais ou menos três meses. E o pouco que recebemos reservamos para as crianças que não aguentam a fome. Quando não temos nada para cozinhar, comemos mandioca seca com côco ou amendoim que pedimos às pessoas que vendem no mercado local,” lamentou Halima Anchide, uma deslocada oriunda de Olumbe, em Palma e que vive em Matemo com três filhos.

Outro problema que os deslocados enfrentam é a falta de acomodação condigna. A maior parte dorme em barracas improvisadas de paus e cobertas de capim. Outros, devido à sua incapacidade física, dormem ao relento, aguardando pela ajuda de pessoas de boa vontade para construir um abrigo e proteger-se do sol, vento e frio.

“Eu não recebi lona como os outros que chegaram primeiro. Por isso, amarrei um plástico ao lado desta palhota para diminuir o frio. Vou dormir aqui até conseguir paus e capim para construir a minha cabana” reclamou Mariamo Selemane, uma idosa que fugiu de Macomia há mais de dois meses.

Além da falta de comida, água potável e acomodação condigna, os deslocados não têm acesso a alguns serviços básicos.

“Aqui temos um pequeno posto de saúde que, além de não ter medicamentos suficientes, fica longe. As mulheres grávidas não conseguem caminhar até lá. As crianças deixaram de estudar, porque não temos escola”, reportou Halima Saíde, outra deslocada de Palma.

A situação em Matemo é considerada grave e ultrapassa a capacidade do governo local, que, mesmo com ajuda de algumas organizações humanitárias, não consegue resolver o problema dos cerca de 35 mil deslocados espalhados em várias ilhas do arquipélago das Quirimbas.

“Nós não conseguimos resolver todos os problemas, devido ao elevado número de deslocados e todos precisam um pouco de tudo. A Matemo chegam pessoas todos os dias. Segundo o nosso registo, que não está actualizado, até princípios deste mês, tínhamos 4 mil pessoas e hoje devem ser mais. Além de Matemo, temos as Quirimba, onde estão mais de 800 famílias oriundas do distrito de Quissanga. No Ibo, estão cerca de 5 mil pessoas”, disse Issa Tarmamade, administrador do Ibo, que lançou um apelo para o reforço da ajuda humanitária.

Para minimizar o sofrimento que atravessam, as famílias deslocadas tornaram-se solidárias entre si, entretanto, apesar dessa ajuda, a situação continua crítica e muitos preferem partir para Pemba, onde além de ser considerada uma zona segura, esperam encontrar alternativas para a sobrevivência.

Perante este cenário, a presidente do Instituto Nacional de Gestão de Riscos e Desastres (INGD) visitou a ilha do Ibo. Depois de ver o drama humanitário em Matemo, Luísa Meque prometeu uma solução aos deslocados.

“Viemos avaliar a situação e agora já temos uma realidade do que se vive aqui na Ilha de Matemo. Vamos procurar soluções imediatas” prometeu Meque, mas sem avançar detalhes.

Além de Ibo que concentra a maior parte dos deslocados que vêm de Palma, Macomia e Quissanga, a presidente do INGD visitou o centro transitório para deslocados de Pemba e a praia de Paquitequete, onde testemunhou a chegada de embarcações com mais sobreviventes dos ataques terroristas em Cabo Delgado.

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