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Hortêncio Langa: Elegia a um artista versátil

Por: Marcelo Panguana

A escrita deste texto representou para mim um enorme sacrifício, ou para ser mais preciso, um enorme sofrimento. Cada palavra significava o remover das dores duma ferida que tentava cicatrizar com a indiscutível terapia do tempo. No entanto, cada palavra significava um acto de cura, porque se tornava necessário enfrentar a dor para poder amainá-la. Dizia, alguém muito próximo, que se sentia bastante desolada por não ter conseguido verter uma lágrima desde que soube da viagem sem regresso do Hortêncio Langa. E isso martirizava-a. Sufocava-a. Porque a dor que habitara no seu peito nâo lhe permitia nenhum sossego. Talvez porque esse alguém, tal como eu, ainda não aceitou o facto de que Hortêncio Langa se afastou definitivamente de todos nós.

Reparem que digo que Hortêncio Langa se “afastou”. Recuso-me a utilizar nesta breve elegia a palavra “morte”. Porque na verdade o Hortêncio não morreu, apenas decidiu emigrar para uma outra dimensão existencial. Continuo a pensar que somente  morrem os que não são recordados, sobre os quais os escribas não debitam nenhuma palavra. Apenas morrem os que sobre eles não se verte nenhuma lágrima. Sobre os quais recai um silêncio maior que o próprio silêncio. Hortencio Langa pertence, felizmente, aos homens que nunca serão votados ao esquecimento porque o legado que nos deixou é demasiado marcante, uma espécie de ode a arte de um homem que agregou todas as artes sobre si, compositor, letrista, cantor, arranjista, escritor, pintor.  Hortêncio Langa não morreu porque nós, todos os dias, nos recordamos dele, porque todas vezes que é homenageado, ele ressuscita. Muito mais que as virtudes artísticas do Hortêncio Langa, há esse outro lado de profundo humanismo que o identificava. Era militante para todas as causas, abria o seu peito para acolher os que precisavam, afogava as mágoas dos que lhe batiam a porta, ostentando sempre o seu sorriso calmo. Nunca se exaltava. Em nenhuma circunstância levantava a voz. Nunca o vi apontando o dedo para quem quer que fosse. O silêncio e a serenidade das suas palavras constituiam a sua arma de persuasão e sedução. Era um homem simples. Ao contrário de tantos outros, que ao menor sopro de fama e popularidade levantam exageradamente os ombros, Hortêncio Langa detestava a arrogância e a vulgaridade. Amava a expontaneidade e o prazer da vida que ele perseguia intensamente, como se soubesse que o destino, com a sua voracidade, encurtava-lhe cada dia que passava a vida. Partilhei com ele momentos sublimes, extraordinários, momentos de alegria, beleza e arrebatamento. E também de sonhos, porque, como dizia o trovador Zeca Afonso, “o sonho é que comanda a vida”, e Hortêncio Langa sonhava, por exemplo, em trazer novas sonoridades que fossem capazes de enriquecer o nosso sistema musical, porque ele, sempre fez parte das pessoas que “fazem o caminho para que as outras o percorram”, como dizia o poeta Valter Hugo.

Quando o seu talento ofereceu-lhe oportunidades para abandonar a Pátria e explorar o seu talento em outros continentes, ele decidiu permanecer aqui. Sentia-se ligado a Moçambique pelo nascimento, pela sua vida e pelo seu trabalho. E valeu a pena ter permanecido aqui connosco, pelas canções geniais que criou, pelos quadros que pintou, pelos livros que escreveu. Era um sonhador, mas antes disso, um fazedor. Por isso, no auge dos seus setenta anos, nunca considerou afastar-se da sua arte. Não era capaz. A arte ensinara-lhe a ser solidário. O amor que apregoava na sua escrita, na sua pintura, nas suas letras, não representava apenas uma simples utopia, mas a forma mais perfeita de se existir. Talvez por isso, nunca conheci alguém que não gostasse dele, e se existia, esse alguém não sabia, com certeza,  gostar de si próprio.

Fico por aqui, para não repetir o que já outros disseram, além disso, quando as elegias são longas, deixam de o ser e passam a ser relatórios. Resta-me apenas dizer que as palavras verdadeiras e definitivas sobre o meu amigo e padrinho Hortêncio Langa, ainda estão a ser escritas por outras mãos. Porque há tantas coisas para se escrever sobre este artista genial, sobre esse homem íntegro, sobre esse cidadão de causas justas, e que venham o mais depressa possível essas palavras, para preencher o nosso vazio.

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