O País – A verdade como notícia

Histórias e sentimentos trazidos pelas chamas de “Chamanculo” D

Há duas semanas, 22 casas de madeira e zinco foram destruídas no bairro Chamanculo “D”, na Cidade de Maputo. A maioria das famílias chegaram à capital do país à procura de melhores condições de vida, mas na capital sujeitam-se a condições precárias e passam noites em pequenos compartimentos.

Doze de Agosto, uma quinta-feira fica na memória das 22 famílias que ficaram sem tecto no bairro Chamanculo “D”. O incêndio devorou tudo e no local ainda são visíveis os vestígios da destruição. Neste momento, cada família procura recomeçar de onde pode, pois a ajuda que as autoridades e pessoas de boa-fé dão não será para sempre.

O dia começa cedo no centro de acolhimento, onde se encontram as famílias prejudicadas pelo incêndio. A primeira tarefa é cada uma delas organizar o lugar onde dorme.

Zélia Damião é uma das vítimas, vivia na casa, outrora queimada com a sua neta e agora partilha o dormitório com sete mulheres adultas e cinco crianças.

“Acordamos às sete horas ou antes, arrumamos o quarto, varremos, cuidamos da nossa higiene pessoal e depois nós as adultas começamos a preparar as refeições”, contou Zélia.

Separados, os homens dormem de um lado e as mulheres do outro lado, mas pelo número de pessoas em cada dormitório, não há privacidade.

No incêndio, tal como as outras vítimas, Zélia perdeu tudo e chegou ao centro apenas com a roupa do corpo, hoje, graças às doações já tem o mínimo para recomeçar a sua vida.

“Eu não tinha muita coisa em casa, porque sou uma simples vendedeira ambulante, mas o pouco que tinha foi-se com as chamas, mas a cada dia que passa chega ajuda e vou juntando coisas para mim e para a minha neta”, explicou.

Zélia sai do dormitório e vai para o banho, tira água num tanque comum e na casa de banho existem duas divisões, uma para os homens e outra para as mulheres.

No Centro, os trabalhos são bem divididos. A tarefa da lavagem da louça está a cargo das crianças.

Tássia tem 10 anos, frequenta a 5ª classe e conta que após acordar e cuidar da sua higiene, deve lavar a louça usada no jantar e por vezes ajudar a varrer o quintal

“Depois eu e as minhas amigas nós trocamos, umas lavam a louça usada para o matabicho e outras a do almoço, depois vamos brincar”.

A aluna da 5ª classe ainda lembra-se do dia que viu o seu material escolar ser consumido pelas chamas.

“Eu estava a brincar quando vi fumo, corri e fui ao mercado chamar a minha mãe, que estava a vender, quando chegamos em casa conseguimos tirar algumas coisas, mas a minha pasta e os meus cadernos não conseguimos”, Tássia.

Os moradores das casas queimadas são, na sua maioria, pessoas que chegaram à Cidade Capital à procura de melhores condições de vida.

Aos 58 anos, Adriana Zunguza é viúva e vendedeira ambulante, veio de Inhambane junto do seu falecido marido. Já passaram duas semanas, e ainda assim, parece não acreditar no que aconteceu… E com as mãos na cabeça e olhar fixo ao infinito, tenta buscar explicações para o sucedido.

“Não sei por onde vou começar, nem para ir vender tenho forças, já que quando estamos a vender, temos também que fugir da Polícia Municipal, não sei se continuo aqui em Maputo, ou se volto para Inhambane, não sei…”, desabafou a vendedeira.

Conta que gostaria que as casas em construção fossem de alvenaria, o que fossem levados para outro sítio, mas reconhece que pode não conseguir custear com as despesas da referida residência, e por isso, o que vem (as casas, actualmente, em construção) estão de bom tamanho.

Armindo Bila, também, vem de Inhambane vende roupa usada no mercado Xipamanine, tudo que quer é voltar a ter o seu canto, e para tal, nos últimos dias não tem ido vender para ajudar na reconstrução das casas.

“Vim de Inhambane para trabalhar aqui, cheguei em 2017 e consegui juntar algumas coisas, cama, cadeiras, estante, computador, e tinha dois telefones mas que queimaram no incêndio, sou órfão e tenho que mandar dinheiro para minha mãe e irmãs, mas com esta situação, está tudo parado”, disse Bila.

Nas obras, os trabalhos não param, todos ajudam como podem, homens e rapazes pegam nas pás, serrotes, carrinhas de mão e ajudam na construção das casas.

Segundo o ponto focal do distrito KaLhamanculo, estão em construção 22 casas, de madeira e zinco do tipo zero, mas assegura que não serão para sempre. Apenas até conseguirem um lugar melhor para acomodar as famílias.

AS CASAS TERÃO DIMENSÕES MAIORES QUE AS ANTERIORES

“ As casas antes tinham dois metros por dois, mas agora decidimos fazer algo maior: são dois metros e setenta por quatro, assim elas terão mais espaço e estamos a fazer dois pavimentos, para que tenham casas na parte frontal e na parte traseira”.

O ponto focal avançou ainda, que o município conseguiu um espaço para acomodar uma família, e agora a Acção Social deverá decidir quem será beneficiado.

No quintal, onde ocorreu o incêndio, sobraram algumas casas que são o exemplo de como eram as que foram consumidas pelo fogo. São pequenas, e nelas cabem apenas uma cama, um fogão e poucos bens, não há espaço para os membros da casa sentarem e confraternizar. A cama é para muitos, mesa e cadeira.

Isildo Zefanias nasceu em Chamanculo “D”, sempre viveu nestas casas, e diz que a situação aqui é extremamente complicada.

São mais de 100 pessoas que vivem no quintal e partilham a mesma casa de banho. Num quintal com mais de 50 casas.

“A casa de banho é comunitária, tem seis compartimentos é mesmo para tomar banho, fazer necessidades e sair, não dá para passar muito tempo lá. Como somos muitos temos de fazer fila, e se quisermos sair de casa às 7:00 por exemplo, devemos acordar às 5:00 para marcar a fila e podermos tomar banho”, lamentou.

Mas já foi pior, conta que esta casa de banho foi melhorada, antes a pia era feita a base de pneus, e na época chuvosa passavam mal, pois os excrementos saíam e poluíam o quintal e por isso, gostaria de sair do local.

“Vivemos aqui não porque gostamos, mas porque não temos condições, mal dormimos, quando chove nem se fala, se pudéssemos ter ajuda e sair daqui, agradeceríamos muito, porque isto não é vida”, finalizou.

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos