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Histórias de quem nasceu vendo, ficou cego e voltou a ver

A catarata é a principal causa da cegueira em Moçambique e 80% dos casos da perda de visão são evitáveis. Esta quinta-feira celebra-se o Dia Mundial da Visão e a nossa reportagem traz o retrato de idosos, em Nampula, que voltaram a ver, 3 a 15 anos depois de perderem a visão.

A idade está para lá dos 70. O seu caminhar, naturalmente, começa a ser de perder o balanço e meio trémulo, pelo peso da idade, mas nada que o obrigasse a ter que andar acompanhado, como teve que ser quando percorria os corredores da Oftalmologia do Hospital Central de Nampula, na quarta-feira, quando seguia para um momento decisivo da sua vida.

A médica oftalmologista, Marta Abudo faz as primeiras análises com o equipamento apropriado e rapidamente conclui que o idoso tem cegueira total, nos dois olhos. É encaminhado ao bloco operatório para a retirada da catarata.

Outra idosa, com mais de 60 anos de idade, também passa pelo mesmo procedimento. Duas pessoas que se desconhecem, todavia, com um traço comum: nasceram com visão, ao longo da vida foram perdendo progressivamente a visão e adquiriram a cegueira.

As cirurgias de catarata duram entre 15 e 20 minutos, só que são muito delicadas. As mãos de fada de instrumentistas e médicas-cirurgiãs com especialidade para a vista entram em cena, num ambiente descontraído, evocando sempre a luz do Além para que corra tudo bem. Um dia depois, os mesmos pacientes entram na sala de pequena cirurgia, desta-feita, para a retirada dos pensos e ali abre-se literalmente um novo mundo.

“Estou a ver…estes aqui e mais aqueles dois”, grita emocionada em imácua a idosa que aludimos acima. Era o renascimento de uma idosa, três anos depois de ter ficado nas trevas, sem ver a luz, nem as pessoas, muito menos as coisas, por isso era inevitável aquela emoção, acompanhada de lágrimas.

“Quem é aquele?”, questiona um dos técnicos de saúde, apontando para um homem de rugas que trajava uma camiseta branca e portava uma máscara. A paciente estava a ser submetida ao teste para se saber se conseguia ou não ver. Leva uns segundos com os olhos arregalados e pede para que ele tire a “coisa” que tapava a boca e o nariz do homem em causa. O que se seguiu foi uma frase que tinha um tom de declaração de amor: “é meu marido!”

O mesmo sentimento emotivo teve o homem que entrou acompanhado e saiu caminhando sozinho.

Marta Abudo está há apenas um ano como médica oftalmologista no Hospital Central de Nampula e já guarda memórias de histórias de “renascimento” de adultos. “A minha maior satisfação é devolver a visão a esses pacientes. Então, para mim é um orgulho trabalhar nesta área porque é muito sensível, não só para os que perdem a visão, mas de uma forma geral. Temos que ter muito cuidado com os olhos porque são um órgão sensitivo do qual necessitamos para muitas actividades que realizamos”.

Histórias emotivas na data em que se celebra o Dia Mundial da Visão (8 de Outubro). Os idosos são os mais acometidos pela catarata, a principal causa da cegueira em Moçambique, posicionando-se em mais de 80%.

No distrito de Mogovolas, em Nampula, encontramos Namuatha Nune, de 78 anos de idade, que ficou 15 anos sem ver, até que em 2018 teve a sorte de ser operado e voltou a ver.

“Não conseguia trabalhar. Para ir à casa de banho tinha que ser acompanhado, mesmo para tomar banho”, descreveu Artur Mupamela, filho.

Uma vida de dependência que comove organizações humanitárias que procuram reverter este cenário. Uma delas chama-se Sightsavers e trabalha na província de Nampula desde 2018, tendo já ajudado a devolver a visão a mais de 4800 pessoas.

“O maior desafio para tratar as pessoas é garantir que haja recursos humanos, falo de médicos, oftalmologistas, assim como técnicos de oftalmologia que dão tratamento a essas pessoas. Durante as campanhas apoiamos em termos de consumíveis, a logística da equipa que vai aos distritos para garantir que aquelas pessoas que se encontram nas áreas mais remotas também tenham acesso a estes serviços”, anotou Abrão Banqueiro, oficial de programas naquela organização.

Os especialistas da área desencorajam, por outro lado, o uso de óculos de vista sem a prescrição médica, por ser um atentado à saúde ocular.

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