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Histórias de quem enfrenta o desafio da pobreza extrema diariamente

Foto: O País

Em Moçambique, cada pessoa gasta, por dia, abaixo de 60 meticais para viver mas isto é só estatística. O facto é que várias famílias vivem muito abaixo dessa média. Alusivo ao Dia Mundial da Luta contra a Pobreza, assinalado ontem, o jornal “O País” traz histórias de algumas pessoas que enfrentam, no seu dia-a-dia, a luta pela sobrevivência.

Está difícil conseguir o que comer. Os pratos e entulhos dentro do quintal mostram o lado de uma família que muitos não conhecem. Enfim, deviam estar a desfrutar as doçuras da vida, mas o destino reservou-lhes amarguras.

“Dormimos, muitas vezes, sem ter tido nem uma refeição. É difícil garantir comida suficiente para os meus filhos. Quando recebo, compro um saquinho de arroz, mas não dura nem uma semana. As crianças estão a sofrer. Tenho sete filhos, dos quais cinco estudam e os outros dois, os mais velhos, abandonaram a escola”, lamentou Lourenço Manhiça.

É com chapas velhas que Lourenço construiu uma cobertura, num espaço pertecente a uma igreja, para evitar que a sua família ficasse exposta a intepéries. Uma solução ameaçada, porque os proprietários já exigem que se retirem do terreno.

“São várias as dificuldades que enfrento aqui, em casa, sendo a mais crítica a falta de tecto. Mesmo agora, corremos o risco de ser expulsos pelos donos da casa a quem pedimos para ficar. O espaço pertence a uma igreja e já nos disseram para sair. Estamos magros e pálidos. Temos muitos filhos, mas sem condições para os sustentar.”

Os sacos que deviam conservar alimentos servem para armazenar materiais recicláveis. Sem muito para dar, o pai de sete filhos deseja um futuro melhor para eles.

“Não desejo que os meus filhos passem por aquilo que eu passo na vida. Perdi os meus pais ainda novo; cresci no sofrimento em tempos de guerra e sem acesso à Educação. Espero que os meus filhos estudem e consigam emprego para sustentar as suas famílias. Espero que Deus me leve enquanto os meus filhos estejam em boas condições.”

Há quem não tem, pelo menos, a graça de ter a família por perto. É numa cabana improvisada e rodeada de lixo, onde Cacilda passa os piores dias da sua vida.

“Não consigo! Se o Governo pudesse ajudar-me a passar por esta fase em que vivo seria mais-valia, porque até a família em que eu confiava já não existe.”

Na vida, Cacilda caminha todos os dias sobre impurezas. Na verdade, nunca seguiu a direcção certa. No início, tudo correu bem, mas com o andar do tempo a história ganhou novos contornos.

“Arrendei uma casa alguma vez, mas, ao longo do tempo, não consegui mais pagar, por terem agravado o dinheiro da renda e estava doente na altura. Quando conheci esta senhora, pedi-lhe abrigo. Ela encaminhou-me ao chefe do quarteirão que veio mostrar-me este espaço.”

Falta dinheiro para comprar comida, mas há uma dor que não se cura com valores monetários.

“Os meus filhos já estão crescidos, mas não tenho contacto com eles, porque saí há muito tempo da casa do pai, devido à guerra.”

O facto é que, nas cidades de Maputo e Matola, várias famílias vivem em situação de pobreza extrema. Muitos não têm acesso aos serviços básicos, como a água, a energia eléctrica e geralmente sem alimentos.

Segundo o Inquérito sobre Orçamento Familiar 2019/2020, do Instituto Nacional de Estatística, que abrangeu cerca de 13 milhões de famílias, a população moçambicana continua a viver com menos de um dólar por dia.

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