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Herdeiros de Craveirinha e Malangatana reclamam da falta de direitos sobre as obras

Tudo começou ao som de uma música acústica que maravilhou os ouvidos da platéia. Audiência agraciada com um som provido das cordas da guitarra de forma descontraída para um diálogo sobre o espólio das obras de José Craveirinha e Malangatana.

Craveirinha fez poesia lírica e incisiva na altura do colonialismo. Buscava inspiração nas madrugadas, pois considerava o silêncio do dia um momento para colocar os versos no papel. Malangatana tentou escrever os poemas, mas preferiu buscar a exaltação da poesia de Craveirinha para representar nas telas através do pincel.

O evento decorreu no Centro Cultural Moçambicano-Alemão, na Cidade de Maputo, com a presença de artistas como Lucrécia Paco que não resistiu ao debate e encontrou uma forma de colocar a opinião declamando alguns versos do livro, “As negras das Lagoas” de Malangatana…fazem a exposição dos seus quadros nus, e triste hei hei hei, oh oh oh com o próprio corpo as negras pintam o fundo da parede de caniço…

O debate fluiu com o grito de socorro de um dos herdeiros de José Craveirinha, em relação às obras do pai. Segundo Zeca Craveirinha, existem vários escritos que estão a ser publicados sem respeitar os direitos do autor.

Individualmente, o herdeiro disse estar a envidar esforços para recuperar o material produzido pelo pai, mas sem sucesso. “Há pessoas que não querem devolver o espólio do meu pai… não vou revelar nomes”, disse Zeca, num tom melancólico.

Mutxine Malangatana, com um olhar sorridente, mas preocupado, contou que existem obras do seu pai em colecções privadas e públicas que estão a ser usadas para fazer exposições em Portugal e Moçambique. “Estou à espera, há mais de um ano, da resposta sobre o paradeiro das obras de Malangatana, que foram identificadas e detidas pelas autoridades legais em Lisboa, que eram expostas sem o conhecimento da família”, desabafou Mutxine.

O herdeiro tem limitações para seguir o assunto do espólio das obras além-fronteiras, porque mesmo depois de uma investigação que identificou as pessoas que estão com as telas, é difícil recuperá-las. Num outro momento, Zeca Craveirinha acrescentou que há cartas escritas pelo seu pai, durante a prisão em 1969, em Moçambique, num período solitário de três meses e meio na cela um. “Em Moçambique e Portugal existem fotografias e poemas enviados para os destinatários na altura da prisão do meu pai, mas nunca foram entregues”.

Herdeiros…mas limitados

Malangatana e José Craveirinha alcançaram a imortalidade na divulgação das obras, que continuam a ser apreciadas actualmente. Por insistência do destino, os herdeiros comungam dos mesmos problemas para recuperar e conservar as obras dos seus pais. Malangatana produziu várias telas e algumas não são conhecidas pelo público. “Estou com dificuldades sérias para a conservação das obras produzidas por Malangatana e da última vez que fiz o inventário, em 2007, já tinha algumas que corriam risco de degradação”, explicou Mutxine. Avança ainda que teve a parceria da Fundação Mário Soares, mas até hoje não conhece o total do inventário das obras.

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