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Hepatites – um inimigo desconhecido por muitos, mas com sequelas para muitos

Pelo menos quatro pessoas morrem por mês na capital do país por hepatites e o Hospital Central de Maputo regista, anualmente, cerca de 260 casos de infecção pela mesma doença.

O jornal “O País” traz histórias de pessoas que vivem com esta doença e lutam, a todo o custo, para viver sobre os limites impostos por esta enfermidade.

Olhos amarelados, pés inchados, massa corporal óssea e fígado danificado são as características de um jovem que viu a sua vida ser condicionada pelas hepatites.

“Tudo começou em 2019 quando uma vizinha questionou o facto de as minhas vistas estarem muito amareladas, após isso comecei a prestar atenção, até que, um dia, fui ao hospital fazer exames e descobri que tinha hepatite B, mas não encarei a informação de forma séria, pois ainda não sabia muito da doença nem o mal que me podia causar”, disse Láuzio.

Quanto mais parecia concretizar-se um sonho, mais fazia-se presente a desgraça. Láuzio concorreu a uma bolsa de estudo para uma universidade da Índia e foi admitido, mas as condições para a sua viagem ao país asiático despertaram a existência de uma barreira.

“Para viajar e estudar na Índia, tinha de fazer exames médicos como garantia de que eu estava saudável. Fiz os testes necessários e fui diagnosticado com hepatite B mais uma vez e, automaticamente, o centro de exames da universidade a que concorria cancelou a minha bolsa”.

O seu sonho ficou por terra, mas não se deu por vencido. Sem muitos motivos para sorrir, um jovem sonhador foi tentar mais uma chance, já na vizinha África do Sul, mas a situação, que parecia estar controlada, transformou-se num pesadelo.

“Fui à África do Sul na perspectiva de encontrar soluções para o meu problema e, no início, as coisas correram bem. Concorri e foi-me admitido na Universidade de Johanesburgo, no entanto, logo depois, o centro de exames médicos informou que o meu fígado estava estragado e a minha situação era crítica.”

No meio de tantas respostas negativas, surgiu a necessidade de procurar soluções.

“Fizemos umas pesquisas e constatámos que a operação devia ser feita na Índia pela experiência que o país tem com casos idênticos ao meu e isso, no total, nos custaria cerca de 3 500 000 meticais”.

Aos seus 21 anos, teme o pior, mas nem mesmo o momento difícil que enfrenta o faz parar de sonhar. A esperança prevalece e pede qualquer tipo de ajuda para quem puder apoiar.

“Peço ajuda de todos, qualquer ajuda é válida e não desejo isso a ninguém. A hepatite B é muita chata e mata.”

A situação do jovem Láuzio é considerada complicada, mas os médicos dizem que, havendo condições, é possível que tenha um tratamento definitivo.

“A situação do Láuzio é delicada – ele tem uma doença crónica, hepatite B e deve fazer o transplante cujo processo não é fácil. Temos de ver se tem uma co-infecção associada à necessidade de ver se, clinicamente, os outros órgãos estão funcionais”, explicou Mussagy Tarmamade, especialista da área.  

As hepatites são extremamente perigosas por conta da sua forma de actuação, como afirmam os médicos. “Quando este vírus persiste na corrente sanguínea por mais de seis meses, muitas vezes não dão sintomas, outros podem ter náuseas, vômito, dor abdominal, coloração amarelada dos olhos e só descobrem acidentalmente quando vão fazer doação de sangue.”

Entretanto, há também quem vive com hepatites e segue a vida tranquilamente, Fredelício Mondlane é uma das várias pessoas que “descobriram que são portadoras da doença no processo de transfusão de sangue ou nas consultas pré-natais das mulheres grávidas”, disse Mussagy Tarmamade.

Tarmamade 

“Nunca tive complicações, a medicação não tem efeitos colaterais, é muito seguro e acho muito bom para salvaguardar vidas humanas”, disse Fredelício Mondlane, paciente no Serviço de Gastroenterologia do Hospital Central de Maputo

Tal como outras doenças, as hepatites podem contrair-se de várias formas. “Costuma ser por transfusão de sangue, o uso de objecto perfuro-cortantes, através do uso de drogas e outras formas não muito relevantes”, esclareceu Tarmamade.

Já Sandra Macarringue descobriu atempadamente que tem hepatite B. Apesar da possibilidade de uma mãe poder contaminar o seu filho recém-nascido, ela conta que deu à luz um bebé saudável.

“Em 2018, engravidei e mediquei para não contaminar a criança e tive um bebé saudável e levo uma vida normal sem nenhum problema”.

Para evitar que os recém-nascidos sejam contaminados, existem procedimentos a seguir. “A prevenção da mãe para o filho é feita através da consulta pré-natal, na qual vacinamos as mães e as crianças, o que diminui a probabilidade de contaminar o bebé”.

De acordo com as autoridades sanitárias, em Moçambique, estima-se que dois milhões de indivíduos sejam portadores crónicos da hepatite B. Cerca de 90% dos recém-nascidos infectados por transmissão vertical desenvolvem a hepatite crónica e, anualmente, 1.400 mil pessoas no mundo morrem por conta da doença.

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