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Há conflitos em muitas Confissões Religiosas no país

Foto: O País

Mais de 80% das confissões religiosas no país registam algum tipo de conflito. Entre elas, destaca-se a luta pela sucessão, falta de apresentação de relatório e contas, má gestão do património, bem como a violação dos estatutos.

De acordo com a Constituição da República, Moçambique é um estado laico, isto é, não tem uma religião oficial. O país apresenta uma diversidade religiosa. “Boa parte das confissões religiosas tem algum nível de conflitualidade”, disse Albachir Macassar, Director Nacional de Assuntos Religiosos no Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos.

Neste momento, há, no Ministério da Justiça Assuntos, Constitucionais e Religiosos, 1326 confissões religiosas registadas, e, no seio destas confissões, há conflitos de vária ordem, entre as quais se destacam a violência e ameaças de morte entre os crentes e os líderes. Na mesquita da Associação de Socorros Mútuos Anjuman Anuaril ou simplesmente Anuaril Islam, há luta pela sucessão – a direção máxima está fora de mandato desde 2019 – fato que está a gerar um ambiente de mal-estar. Nas preces de sexta-feira, assistiu-se a um cenário fora do comum. Os membros da PRM forçaram o Sheik Abdul Hnnan a interromper a oração para dar lugar a um outro membro que não é reconhecido na comunidade. Tal situação ocorreu num momento em que o Vice-ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos efectuava visita a esta mesquita.

“Eu fiquei espantado. Nunca tinha visto a Polícia com AKM dentro da Mesquita, num assunto que nada tem a ver com crime, um assunto civil – os membros desta associação estão a tentar entrar em consenso. Ficámos felizes porque se convocou, ontem, uma assembleia extraordinária, apesar de, infelizmente, não constar da agenda que tal reunião está relacionada à eleição de novos órgãos sociais”, explicou o sheik.

Toda esta situação é imputada à direcção da associação, que não convoca eleições e não se reúne com os associados, diz este membro da mesma agremiação que, segundo suas palavras, está a ser afastado injustamente.

“O que acontece é que, desde Abril de 2019, isto não existe. Portanto, não há convocação para as reuniões do conselho de direcção, e estamos a ver, a cada dia, decisões tomadas em nome do nosso órgão e, inclusive, perseguição de parte de nós mesmos, ilegalmente”, explicou João Vembane, Membro de Direcção da Associação Ajuman Anuaril Islam.

Entretanto, a reportagem do Jornal “O País” procurou a direcção da Associação de Socorros Mútuos Anjuman Anuaril Isalm, mas, através de contactos telefónicos, esta afirmou que não estava disponível para falar à imprensa. Deste modo, fica-se sem saber quando é que o alvoroço vai terminar.

Ora, na comunidade Mahomentana, em que também se enfrentam os mesmos problemas, foi interposta uma providência cautelar, o que obrigou o adiamento das eleições que estavam previstas para a noite da última sexta-feira.

A Igreja Velha Apostólica, em Moçambique, cujo líder é contestado por uma parte de crentes que, na manhã deste sábado, voltou a mais episódios de violência no seio de crentes, e um deles foi, alegadamente, esfaqueado. A Direcção Nacional dos Assuntos Religiosos diz que só as igrejas podem resolver os seus problemas.

“Quem resolve os problemas é a própria confissão religiosa e não o Ministério”, referiu o Director Nacional de Assuntos Religiosos

Na igreja, os portões foram encerrados. Ninguém podia entrar ou sair. Os crentes ficaram de fora. Do outro lado da igreja, abriu-se um outro portão, onde eram seleccionados os crentes com direito a assistir ao culto. Uma coluna de carros transportava o líder contestado chegou e entrou na igreja, e os crentes continuaram fora.

“O nosso líder não está a agir de acordo com os princípios da igreja. Ele dorme com mulheres de outros crentes, porém, na nossa igreja, isso não é permitido. Apoderar-se, ilicitamente, dos bens da igreja não é permitido, aqui na nossa igreja”, disse José Maiuna, crente contestatário da Igreja Apostólica de Moçambique.

O carro de uma crente embateu contra o portão, que era aberto e fechado violentamente. A agitação continuou e alastrou-se até à nossa equipa de reportagem, a quem se disse que não estava autorizada a filmar e, por isso, devia desligar a câmara de filmar.

A contestação está a assumir outros contornos conforme uma dos crentes. “Se quisesse mudar de comportamento, quando a confusão começou devia ter aceitado conversar, mas tornou-se arrogante. Se tivessem sentado com ele, tudo isto não teria acontecido. Ele está acima de todos e já não aguentamos. Ele tem que sair!

Albachir Macassar, Director Nacional de Assuntos Religiosos, no Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, sugere que a alteração da legislação pode mudar este e outros cenários que estão a ensombrar as confissões religiosas.

“Se estamos a dizer que confissões religiosas são associações de base religiosa legalmente constituídas, o estado tem algum poder de saber onde estão, quem são e pode tomar algum posicionamento e impor sanções. Imagine-se que não haja nenhuma norma nem lei: se a pessoa acordar e dizer que está iluminada e começar a cultuar sem nenhum controlo, isto vai virar uma anarquia! Eu penso que deve haver uma possibilidade de o estado poder impor-se mais”, disse Massacar.

A polícia foi, mais uma vez, enviada à Igreja Apostólica, o que amainou um pouco os ânimos, contudo, os que estavam destinados a ficar de fora lá estiveram, mesmo com a chuva que caía.

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