O País – A verdade como notícia

Guardas viram angariadores de clientes de prostitutas na Baixa

A prostituição tem uma nova forma de acção na Baixa da Cidade de Maputo. As vendedeiras do sexo contam com a ajuda dos guardas-nocturnos para angariarem os clientes depois das 21 horas, momento em que, por decreto presidencial em vigor, todas as pessoas na rua devem ser recolhidas, obrigatoriamente, pela Polícia da República de Moçambique (PRM).

É uma das mais antigas e mais resistentes profissões de sempre, a prostituição que, na Baixa da Cidade de Maputo, ganhou um novo modus operandi, devido ao decreto que determinou o recolher obrigatório depois das 21horas na região do Grande Maputo.

Antes de o relógio marcar a vigésima primeira hora do dia, as moças comportam-se tal como sempre o fizeram – expõem-se com pouca roupa e fazem os gestos sexuais para os homens que passam pelas ruas de Bagamoio, Rua Araújo ou pelas proximidades. Os interessados aproximam-se, fazem a negociação e dirigem-se ao local onde tudo deve ocorrer, neste caso, o acto sexual.

Entretanto, quando o ponteiro do relógio marca 21h, todas elas se recolhem para os pontos desconhecidos pela maioria do público. Ao passar pelas respectivas ruas, o ambiente que se vê é de muita calma. Às vezes, estão lá os agentes da PRM e, outras vezes, os guardas-nocturnos ficam parados a conversarem normalmente. É como se as comerciantes do sexo não mais estivessem lá.

E como se faz para se ter acesso a elas? Não é tão simples assim para um novato, mas para os frequentadores já é um procedimento normal. Agora, há um novo player: os angariadores dos clientes são os guardas-nocturnos, que não são abrangidos pelo recolher obrigatório.

À chegada, faz-se a negociação com os guardas. O cliente deve fazer a descrição do tipo de menina que deseja, indicando as características físicas e até a idade. De seguida, o guarda ausenta-se por uns minutos e volta, depois, acompanhado por uma ou por várias moças conforme a solicitação.

No nosso caso, a equipa do jornal “O País” era composta por três homens, mas o pedido foi para dois. Os guardas voltaram acompanhados por duas jovens – uma alta, escura e de cabelo cumprido e outra baixinha, clara e de cabelo curto; duas meninas cujas idades variam entre 25 e 30 anos.

Uma delas, chega já ousada, mas é puxada para a conversa. Sem muito mistério, conta que ela e as suas colegas andam às escondidas por medo de “Mahindra”, referindo-se à marca da viatura comummente usada pela PRM. “Mesmo hoje, estávamos aqui, de repente chegaram, e tivemos de nos esconder”. É por essa razão que a moça alta nos revelou que, desde que se decretou o recolher obrigatório, só se desloca à Baixa quando tem uma urgência. “Por exemplo, hoje vim, porque tenho um xitique por fechar no domingo”.

No início, a conversa até fluía normalmente, mas, logo que se aperceberam de que se tratava de uma equipa de reportagem, já que nós perguntávamos mais sobre como o esquema funcionava em relação ao nosso suposto “interesse” pelo negócio, afastaram-se do local e alertaram as outras que estavam aos arredores sobre a presença da nossa reportagem.

Com a ajuda dos guardas, chamámos uma outra menina, que aceitou conversar connosco honesta e abertamente. Aqui, chamamo-la por Joana. É uma jovem mãe de dois filhos. Ela começa a contar que a venda de sexo, por estes dias, ficou ainda mais difícil.

“Agora, temos de nos esconder toda a hora da Polícia”, comenta, adiantando que só não desiste, porque não tem outra opção como fonte de sustento para os seus dois filhos, já que “o pai não quis assumi-los”.

A Joana diz que o risco é permanentemente iminente. “Quando nos encontram, recolhem-nos e isso nos causa muito medo. Por isso, pedimos ajuda aos guardas”. Quanto ao pagamento, ela diz que não há um preço padrão. “Eles estão a ajudar-nos, então cada uma vê como pode, também, retribuir esse gesto”.

Aliás, apesar dessa ajuda, as moças ressentem-se da falta da clientela. “Claro que há menos clientes, porque as pessoas não saem de casa depois das 21horas e os nossos clientes vinham mais à noite”.

A dificuldade é testemunhada pelos novos angariadores. “A caça ao homem aqui está intensa. A Polícia recolhe todos, sejam as vendedeiras, os clientes e até as pessoas que estejam a passar por estas rua e isso assusta aqueles que sempre compraram”.

Um senhor, com quem conversámos, revela que tem vários contactos das moças, caso no local mais próximo não haja uma menina das características requisitadas pelos clientes. “Nós tentamos ajudar. Na verdade, nós não fazemos por dinheiro, mas é porque sabemos que esta é a vida delas”.

Para todos os efeitos, é visível a fraca movimentação de pessoas numa das zonas mais frequentadas da capital moçambicana.

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos