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Gestão do ENZ pode passar para sul-africanos

Fotos: O País

A gestão do Estádio Nacional do Zimpeto (ENZ) poderá passar para um “consórcio” sul-africano, devido à incapacidade do Fundo de Promoção Desportiva (FPD) em fazer a manutenção da infra-estrutura. A Secretaria de Estado de Desporto (SED) está a negociar com gestores com experiência comprovada no FNB Stadium (antes designado Soccer City), palco dos jogos de abertura e final do Mundial 2010.

É a maior infra-estrutura desportiva do país construída pós-independência, num contexto de uma falhada intenção de organizar o Campeonato Africano das Nações de 2010. Avaliada em USD 57 milhões de dólares, valor disponibilizado pelo Governo da China, a maior “sala de visitas” do futebol moçambicano gerou, desde logo, mais dúvidas do que certezas quanto à sua viabilidade.

Aliás, a ausência de um projecto consistente de rentabilização e gestão profissional do recinto desportivo e respectivos espaços adjacentes forçaram o Estado moçambicano, através do Fundo de Promoção Desportiva, a gastar, anualmente, cerca de 54 milhões de Meticais para a sua manutenção.

O valor, com o passar dos anos, subiu de 54 para cerca de 80 milhões, representando, sem sombra de dúvidas, um grande fardo para o Estado.

Uma situação insustentável que encarece cada vez mais o bolso dos cidadãos, porquanto o valor investido provém do erário público. “Houve dois concursos públicos que ficaram sem concorrentes. Não tiveram resposta. Nós, na procura de alguém abalizado para gerir o estádio, fizemos este contacto com os gestores sul-africanos do FNB Stadium que têm uma larga experiência na gestão de infra-estruturas desportivas que se predispuseram a cá vir ver. Vieram cá ver e estamos a negociar para ver se a gente passa esta gestão para um gestor profissional”, explicou o secretário de Estado de Desporto, Gilberto Mendes, no programa “Grande Entrevista” da STV.

Tentativas de se evitar esta opção não faltaram. É que, num passado recente, chegou-se mesmo a ensaiar uma gestão público-privada com o arrendamento de alguns espaços para o desenvolvimento de várias actividades. Foram montados, na altura, ginásios, arrendaram-se espaços para salões que acolhiam casamentos e outros eventos festivos e, pasme-se, um salão de beleza numa das bilheteiras.

Debalde! O valor arrecadado sempre se revelou muito aquém do que os gestores necessitavam para evitar que a infra-estrutura se transformasse num elefante branco.

Revelava-se, além dos mais, que estamos a anos-luz de uma gestão inovadora e criativa de infra-estruturas.

Parece mentira, mas é verdade e o caso fez rolar muita tinta. O recinto tornou-se tão vulnerável e apetecível para os inimigos do alheio. A vedação foi vandalizada. Houve roubo de loiça sanitária, material de escritório e até mesmo de pertences de jogadores. Era a acção humana de uma infra-estrutura que acolheu os malfadados Jogos Africanos Maputo 2011. Mesmo com o posto policial ali instalado

 

RELVA DEGRADADA, MAMBAS ENCURRALADOS

Um mal nunca vem só. Implantada em 2010, aquando da sua construção, a relva natural foi sofrendo desgaste com o tempo dado o seu ciclo e, em parte, devido à má utilização.

Estávamos no ano civil de 2014. A Nação, melhor dizendo, as Forças Armadas de Defesa de Moçambique celebravam o seu jubileu (50 anos desde a sua criação) no relvado desprotegido do ENZ. A situação acelerou o desgaste da relva. Ainda assim, o recinto continuou a acolher partidas dos Mambas. E foi precisamente pelo mau estado da relva do ENZ que a Confederação Africana de Futebol (CAF) multou, em 2021, a Federação Moçambicana de Futebol em 256 mil Meticais depois do jogo com Cabo Verde que ditou o afastamento dos Mambas do CAN-2019.

Na verdade, a relva devia ter sido removida totalmente e substituída em Dezembro de 2020. Gestor do recinto, o Fundo de Promoção Desportiva, celebrou um contrato com a empresa que faz o tratamento e manutenção da relva do ENZ para substituir o “tapete verde”. Este processo não andou à velocidade que se pretendia no período entre finais de Dezembro de 2020 e princípios de 2021, porque as empresas sul-africanas estavam em férias no período da quadra festiva.

Sem alternativas, o Fundo de Promoção Desportiva redesenhou o calendário para a substituição da relva, num processo que duraria quatro meses.

Isto equivale dizer que, de acordo com os padrões internacionais de qualidade, o período de quatro meses é o ideal para a relva se implantar. Havia, no entanto, pressão, porque os Mambas tinham agendado um jogo com Cabo Verde a 31 de Março. E, sendo o único recinto aprovado pela CAF, nada se podia fazer em termos de avanço da sua substituição. A COVID-19 veio colocar ainda mais pressão, porque a FIFA e CAF adiaram alguns jogos, uma vez que alguns países não reuniam condições de saúde para acolher jogos com segurança.

Mas há mais outra contrariedade: a substituição da relva devia ocorrer no verão, período em que a relva se desenvolve melhor quando comparado ao inverno. Novo adiamento a ter em conta ainda o calendário dos Mambas que tinham compromissos com a Costa do Marfim em Setembro de 2021.

Em 2021, a Confederação Africana de Futebol (CAF) reprovou o Estádio do Zimpeto devido ao mau estado do relvado, falta de higienização dos corredores, sanitários, acessos e balneários, equipamentos destruídos, acesso desprotegido na zona de estacionamento das equipas, fraca iluminação do campo para jogos nocturnos e ausência de um contador electrónico de espectadores, neste caso torniquetes.

Num caso sem igual, que escandalizou os moçambicanos, os Mambas foram obrigados, por via disso, a jogar fora de casa algumas partidas de qualificação ao Mundial Qatar 2022. Em casa, os Mambas sequer chegaram a mandar e alimentar o sonho de se qualificarem ao Campeonato do Mundo.

Mal os moçambicanos, ou melhor, os adeptos do futebol se recompunham do duro golpe de não poderem ver os Mambas jogarem em casa, já recebiam uma má notícia. O Estádio Nacional do Zimpeto não estará, pelo menos até Setembro, em condições de acolher jogos da fase de qualificação ao CAN Costa do Marfim 2023. A natureza, desta vez, é apontada como a principal causa do Estádio não poder ir à inspecção.

“Provavelmente não joguemos no ENZ. Eu estive no Estádio do Zimpeto ontem – a referir-se a 29 de Abril – e, pelo estado que se encontra a relva, duvido que esteja pronta a tempo de jogarmos aqui. Provavelmente, vamos fazer os próximos jogos fora. A gente corre o risco de jogar no Zimpeto agora e estragarmos tudo que foi feito ao longo deste tempo todo. Há muito investimento que foi feito ali. Se se jogar, aquilo levanta-se e estraga todo o trabalho que foi feito”, avisou Gilberto Mendes, depois do jogo da Supertaça Mário Esteves Coluna.

Dias depois, a Federação Moçambicana de Futebol confirmou, no seu site, que os Mambas irão defrontar o Benim na vizinha África do Sul, em jogo da 1ª jornada do grupo L de qualificação ao CAN-2023.

A relva a ser implantada, actualmente, tem um tempo médio de vida de dois anos, período depois do qual deverá ser substituída.

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