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Fugir de uma guerra para iniciar outro combate em Metuge

Foto: O País

Foge-se da guerra em Cabo Delgado e trava-se uma verdadeira luta pela sobrevivência nos centros de acolhimento no distrito de Metuge. Muitos carregam memórias dramáticas, só que mesmo com isso, sonham em voltar às zonas de procedência.

Distrito de Metuge, a pouco menos de 50 km da cidade de Pemba. Trata-se de um dos pontos com maior número de deslocados internos que fogem do terrorismo na parte norte da província de Cabo Delgado. Contabiliza-se oficialmente 144 mil pessoas que estão acolhidas em 14 centros, 13 são considerados de reassentamento e um de trânsito.

E é mesmo no centro de trânsito 25 de Junho que se trava a verdadeira luta pela sobrevivência. Há cerca de um ano que famílias inteiras chegam à busca, acima de tudo de segurança, alguns chegaram a pé. “Foram dois dias, porque dormimos no mato no dia 24 que sobressaimos na aldeia e chegamos no dia 26. Portanto, foram dois dias de caminhada”, lembra White Zacarias que deixou o distrito de Quissanga depois de ver a sua casa e tantas outras da aldeia onde vivia a ser queimada pelos terroristas.

Jerónimo Yassin tem 70 anos de idade. É natural do distrito de Macomia. Combateu na Luta de Libertação Nacional e na guerra civil. Venceu as duas guerras, mas foi vencido, desta vez, pela guerra de terrorismo e fugiu da sua terra natal. Aliás, o que viu agora, confessa que nunca tinha visto: é verdade, porque se morre como se fosse galinha. Ser degolado o pescoço. Aqueles são criminosos.

Muitos fugiram e em Metuge encontraram outro desafio. Os dias são difíceis, muito difíceis. “Construí aqui, mas com muito sofrimento. Não tenho material: não tenho catana, nem enxada; nem cama tenho”, lamenta Almeida Namagere, deslocado de Quissanga que falou com a nossa reportagem sentado no chão, na “porta” de pano da sua “casa” que no fundo de casa não tem nada.

Vive com a esposa e uma filha. São duas cabanas separadas, mas que partilham a mesma cobertura de tenda. Para entrar e sair é preciso agachar porque a “casa” não tem mais de um metro de altura.

Resiliência – esta é a palavra que melhor retrata o quotidiano daquela população. O jogo da vida mostrou que nem sempre se ganha de forma honesta e o terrorismo mostrou que o terrorismo é a coisa mais cruel que os deslocados podiam vivenciar.

O administrador do distrito de Metuge, António Valério, fala de desafios para dar assistência condigna a tantos deslocados. “Com certeza que é um desafio muito grande alimentar 144 mil pessoas”.

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