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Foto Feliz

-Vovô, o que é isto? –  questionou o Kensane ao vovô Zacarias, que se encontrava a fazer o seu habitual banho de sol do final de tarde em frente ao portão de zinco, enquanto contemplava, com os seus olhos encovados que se escondiam por detrás dos óculos escuros, a poeira que era levantada pelos carros em frente a rua do Silex, no Chamanculo.

O Kensane segurava na mão uma caixa abarrotada de rolos empoeirados que, expostos ao sol, deixavam transparecer diferentes imagens a cada secção do rolo. O jovem não sabia ao certo se aquilo era um brinquedo ou um jogo de infância do madala Zacarias, como toda a zona lhe chamava.

– Deixa-me ver isso rapaz –  respondeu o madala sem deixar de lado o seu misterioso sorriso.  Era ainda misterioso para o Kensane ouvir o velho dizer “deixa-me ver” pois há muito que ele tinha perdido a visão, por isso passou a esconder os olhos por detrás dos óculos.

– Onde encontraste isto? –  Perguntou vovô Zacarias, após tatear um dos rolos, visivelmente emocionado como se, por um minuto, o escuro tivesse desaparecido dos seus olhos – gostas de mexer muito rapaz, isto não é um brinquedo, é um rolo de fotografias que não foram lavadas. Explicou pacientemente ao jovem como era o moroso e antiquado processo entre o click do fotógrafo até as imagens chegarem às mãos dos fotografados.

– Como é que tu tens tantas fotografias vovô? Eras fotógrafo? – questionou mais uma vez o Kensane com a sua habitual avidez.

– Depende do que chamas de fotógrafo miúdo. Mas não, não empunhei nenhuma câmara e saí por aí prendendo imagens das pessoas. Eu fazia muito mais. Os meus ouvidos e os meus olhos sempre foram a minha máquina fotográfica e os rolos ficaram todos no meu coração. Eu trabalhava no Conselho Municipal, andava com uma carrinha de mão e recolhia lixo no mercado SMAE, no tempo do Artur Canana e depositava no contentor.

Uma vez, passei pela Foto Feliz, um estúdio fotográfico que situava-se bem em frente a Escola Primária Unidade 13 e esses rolos estavam sendo colocados para o lixo.  Com as suas cores azuis, no exterior, e as pinturas paisagísticas, no interior, que imitavam na perfeição lindas terras verdes cobertas pelas águas dos rios e habitadas por lindos animais selvagens, Foto Feliz era o estúdio de referência para tirarmos fotos em todo bairro do Chamanculo”C”: B.I, matrícula, cartão do machibombo, foto do serviço, passaporte, cartão de estudante… tudo isso. Era também onde, geralmente por felicidade, os que queriam registar um dia histórico, iam para se deixar fotografar e eternizar aquele dia.

Nos dias 25 e 31 de Dezembro o estúdio ficava cheio, era fila para tirar foto, fotos em família, entre amigos, vizinhos e até desconhecidos apareciam nas fotos. Eram também os dias em que se revelavam os novos casais do bairro. Aquilo era uma algazarra. Um dos estilos mais amados pelos jovens era aquele em que os fotografados se davam a mão como se estivessem a se saudar. Quem não tem uma fotografia assim, não foi jovem, pelo menos não nos meus tempos.

Outros que chamavam atenção eram os madjonidjonis. Sempre de cabelo grande e umas bocas de sino da última moda, para tirar as fotografias carregavam os seus recém-adquiridos rádios nas terras do rand e saíam do estúdio transpirados a protestar “mara lomu kaya ka hissa mani” [aqui em casa é muito quente].

No dia 14 de fevereiro enchia de noite, era engraçado ver aquilo. Eram só casais a tirar foto e no momento não ousavam se aproximar. Ficavam abaixados em frente a paisagem que era oferecida pelas paredes do estúdio, a olhar um para o outro e quando o fotógrafo gritava “atenção” soltava-se um sorriso tímido que ficava para a eternidade. Muitos de nós só têm essas memórias físicas das suas amadas.

Foto Feliz não era um simples estúdio onde se tiravam fotografias, eram um templo onde vários chamanculezes iam se confessar e deixavam lá registadas as suas histórias. Entendes miúdo, eu não poderia deixar esses rolos irem ao contentor de lixo, levei a caixa comigo e durante estes anos todos fui estudando cada fotografia nesse rolo.

– Vovô conhece toda essa gente?;  – Maior parte delas sim, as que não conheço me contaram; – Me conta vovô, me conta todas as histórias destas pessoas; – Para quê que queres saber?; – Não sei, mas quero saber; – Estou cansado, vou me deitar, ajuda-me com a bengala. Volte na próxima semana, no mesmo dia da semana, tu me dizes o que vês nos rolos e eu te conto a história delas; – Mas vovô, espera, me fala, pelo menos, da primeira foto; – Como sabes que é a primeira e não é a última? – Porque está logo aqui em cima; – Vira o rolo do avesso e o coloque debaixo para cima, o que vês?; –  A primeira foto agora é a última; – Nunca te deixes enganar pelos olhos rapaz, próxima semana começaremos da primeira fotografia.

– Vovô…. espera. A Foto Feliz ainda existe?

– Não sei. Tu tens os olhos e as pernas em dia, vai lá em frente a Escola Unidade 13 e veja pessoalmente se ainda existe. Só não te esqueças de, na próxima semana, vir me contar o que viste.

 

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