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Fome e sede “castigam” província de Maputo

Pouco mais de 30 mil pessoas passam fome devido à seca que afecta a província de Maputo. Neste momento, a única coisa que as autoridades disponibilizam é água dos furos, transportada em camiões cisternas até às comunidades.

Sul da província de Maputo, distrito de Namaacha. À sua entrada, infra-estruturas governamentais escondem a extrema pobreza que se vive em algumas comunidades e povoados. Mas ela não está tão escondida para quem o quer ver. Depois de deixar a estrada asfalta e mais adentro, a configuração da paisagem muda. O que se vê é vegetação “alaranjada”, seca, sem vida…os solos, estes, estão saturados e o que se respira é poeira…as culturas cederam ao intenso calor que se faz sentir naquele ponto do país. As culturas cederam para o calor, a fome instalou e transformou a terra que, há cinco anos, era atrativa para Samuel Rafael, de 55 anos, já não o é.

“Há cinco anos vivo aqui (comunidade de Kassimatis). A terra era fértil. Quando lançasse a semente, esta não demorava germinar. Nunca tivemos água potável, mas tínhamos ajuda da chuva”, recordou Samuel Rafael, um dos residentes da comunidade de Kassimatis, distrito de Namaacha.

Na memória, ficaram apenas recordações da terra que muito bem conhece porque hoje, olhando para a zona, é difícil acreditar que um dia se tinha comida e água para a comunidade. Com dor e voz trémula, ele resume a situação, descrevendo como crítica.

“O solo não facilita. Não há comida. A mandioca apodrece por causa de calor. O milho não germina. Quando você semeia, um tempo depois tudo apodrece”, contou com um olhar incerto sobre o seu futuro.

E em meio a tanta incerteza sobre o que comer e beber, Samuel, com seus chinelos improvisados, calças rotas, cara murcha e meio pálida por conta da fome, vai caminhando firmemente sobre as terras que nunca pensa em deixar, não obstante a sua improductividade, até porque a esperança de ver, um dia, cair a chuva é a última a morrer.

“Nunca pensei em ir viver noutro sítio. Estamos aqui à espera da chuva cair, se isso acontecer. Se sairmos daqui não temos onde ir viver. Lá também podemos cultivar, mas nada vai germinar”, rematou o nosso interlocutor.

Só na comunidade de Kassimatis, são 126 famílias que se juntam a outras 30 do povoado de Chilatine, no distrito de Namaacha, que passam fome. Entre as vítimas deste mal, estão crianças com menos de 10 anos. A sua estrutura é baixa. São magrinhos. As barrigas são grandes e as cabeças, um pouco fora do normal. A desnutrição “murcha” as flores que nunca murcham.

A única coisa que se tem a certeza que chega ao pacato povoado de Chilatine é água, fornecida pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades que, por ser em poucas quantidades para tanta gente, há que se fazer contas.

“A água que nos dão não é suficiente, mas conseguimos ajeitar. Tem água em Mbuluza, mas é salobre. É essa água que usamos para tomar banho e lavar. A água que nos dão usamos para beber e cozinhar. A outra água não serve para cozinhar. Quando fazes arroz, ele tem um sabor amargo. Dão-nos água em função do número de filhos. Se tens sete filhos, por exemplo, recebes cinco bidões de água”, contou Glória Rafael, uma das residentes de Chilatine, também no distrito de Namaacha.

Mas não é só a água que não é suficiente por aqui. A agricultura, principal fonte de sustento, nada produz comida e a alternativa é usar o pouco dinheiro que conseguem para comprar em Boane. “Agora compramos comida em Boane, sempre que conseguimos fazer um pequeno trabalho. Há pessoas da cidade de Maputo que têm parcelas de terra por aqui e elas ajudam-nos com alguns produtos e em troca limpamos os seus terrenos”, revelou Glória Rafael.

Enfim…as histórias de Samuel e Glória são o rosto visível de um problema que afecta mais de 30 mil moçambicanos na província de Maputo e que precisam de uma assistência humanitária.

“O que vamos fazer é avaliar a situação porque também, tivemos a oportunidade de ver que há outras localidades alguma produção. Produtos resistentes à seca. Assim, depois da avaliação, veremos se há necessidade de fazermos uma intervenção de assistência alimentar”, assegurou Augusta Maíta, directora-geral do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, sublinhando que do momento o urgente “é aumentar a quantidade de água”.  

Mais do que aumentar a quantidade de água que é fornecida a essas comunidades, o desafio é encontrar soluções para as zonas áridas.

“Em Chilatine, nós não temos mais de 30 famílias. Então o tipo de intervenção, nestas circunstâncias, é muito difícil”, reconheceu Augusta Maíta, justificando com o facto de haver necessidade se fazer um tipo de exercício “que tenhamos que decidir” onde há maior número de densidade populacional e para intervir. Contudo, “quando se trata de pessoas, não é o número que conta, mas sim dar uma resposta”, referiu Augusta Maíta.

“O que vamos fazer é avaliar a situação porque também, tivemos a oportunidade de ver que há outras localidades alguma produção. Produtos resistentes à seca. Assim, depois da avaliação, veremos se há necessidade de fazermos uma intervenção de assistência alimentar”

 

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