O País – A verdade como notícia

Faróis da Lucrécia II*

Por: Nito Ivo

 

Próximo ao período da troca de turnos, aí pelas seis horas e meia da manhã de um verão severo, cuja noite havia sido abominavelmente escaldante, entediante e encharcada de mosquitos assaz nervosos e insaciáveis de sangue, todos os compartimentos da esquadra policial do bairro foram gradualmente sendo inundados por uma onda de algazarra que se tornou tremendamente assustadora, na qual eram conjurados os mais infames anátemas ao senhor comandante Bujão, entretanto naquele momento ausente. Com pouca margem para dúvida, pela tremenda indisposição e agastamento colado no cenho dos agentes que haviam trabalhado nas derradeiras vinte e quatro horas, certamente que entregar-se-iam resignados às mais duras punições, se aquela opção lhes fosse possível escolher, a despeito de continuar naquela esquadra além dos respectivos horários de trabalho, obedecendo a uma inesperada e excruciante ordem acabada de chegar. Os agentes visados eram até mesmo capazes de pagar os seus salários inteiros para naquele instante se porem a milhas daquela esquadra mesmo estando certos de que nas suas próprias casas também não haveria ensejo para o descanso pois os aguardava um abrasador calor, que de resto já se fazia sentir e que, segundo a previsão meteorológica, o mercúrio galgaria tranquilamente a escala dos termómetros ao pico dos trinta e sete graus centigrados e por aquelas alturas solares se conservaria por longo período do dia.

A tão lancinante ordem que obrigava ao prolongamento de turno arrebatou toda a paciência, que já era residual, dos agentes que haviam passado a noite numa indesejável prontidão operativa e rezando para que a noite fosse calma em ocorrências e rápida a alvorecer, mas efectivou-se tão-somente o primeiro desiderato, pois, com o dia raiado chegou pelo chefe das operações a infeliz informação de que ninguém deveria abandonar a esquadra antes da chegada do senhor comandante Bujão, que normalmente chegava por volta das nove horas, depois da sua participação na formatura do comando.

— Ninguém pode sair! É uma ordem directa do senhor comandante acabada de chegar pelo telemóvel. O petulante que se atrever a desobedecer arcará com terríveis consequências. — Ameaçava o chefe das operações em berros guturais, passando por cada cómodo da esquadra.

Em murmúrios não tão baixos, os agentes cujo turno findava às sete horas, manifestavam o seu total descontentamento diante do suposto abuso de cargo do senhor comandante Bujão do qual se julgavam vítimas. Alguns já haviam mesmo despido os uniformes por volta das cinco horas e aguardavam com certa impaciência a hora de saída, mas tiveram de reaprumar-se, pelo que é, de resto, bem mais fácil imaginar a sua cólera do que descrevê-la.

Diante do generalizado incito à balbúrdia, o chefe das operações, portador da fatídica ordem, revestido de um sorriso manhoso, enunciou um ditado que no seu tempo de tropa, como orgulhosamente fazia questão de vangloriar-se, muito se usava. — Podem murmurar, basta cumprir!

Com efeito, um quarto para às sete, ao volante da sua viatura, despontou o senhor comandante Bujão pela solavancada rua de terra que dava acesso à esquadra a uma velocidade de camaleão, cinco quilómetros por hora, como lhe era característico da condução em estradas tortuosas. Não obstante o seu aspecto quase sucatado, pelo facto de passar mais tempo em mecânicos do que nas suas mãos, a viatura era tão estimada pelo senhor comandante Bujão que se confundia com um amado membro da sua família, tinha até um nome que o havia escrito em letras garrafais no pára-brisa — Lucrécia II — e falava do carro com grande orgulho, que o motor estava em óptimo estado, que faltava apenas encontrar um excelente bate-chapa e um óptimo pintor para dá-lo um banho completo, pôr novos pneus, substituir alguns casquilhos aqui e acolá, também algumas peças secundárias, e então já poderia percorrer do Maputo ao Rovuma, aumentando apenas o combustível. Em resumo: havia uma forte ligação, quase espiritual, entre o senhor comandante Bujão e a Lucrécia II, que juntos tinham inclusivamente uma história de vida assaz peculiar iniciada quando em finais da sua adolescência Bujão alimentara uma colossal paixão platónica pela talentosa actriz Lucrécia Paco, mas composta de todas as sensações reais de uma paixão real que o arrebatou não só o coração por inteiro, mas todo o seu destino. Entretanto, mesmo nunca havendo estado na presença dela, conhecia-lhe a biografia, coleccionava fotos recortadas das revistas e jornais, e sempre que houvesse participação da actriz em peças teatrais desenrascava dinheiro para adquirir bilhete e assim senti-la próxima de si. Admirava tudo nela, a negritude tropical da sua pele lisa, a doçura da voz, a subtiliza dos gestos, o sorriso de suspense, a alma de deusa, e via-a realmente além do imaginário, e quem lhe dera lograr derramar algumas gotas dos seus afectos no coração da actriz através de um canal capaz de converter o platónico em realmente real. Naquela turbulência dos seus sentimentos, o jovem Bujão deu substancial azo a um repentino sonho de tornar-se actor de teatro mas na sua casa a ideia fora considerada deveras insana, e advertiram-no da inverosimilhança de um futuro digno fazendo teatro, mas sabia ele que ninguém entre os seus entes possuía um futuro mais digno do que a Lucrécia Paco, e era ela uma actriz, mas os seus argumentos foram insuficientes para demover o arbítrio dos pais, e logo entrou em cena um tio, daqueles severos que são habitualmente convocados para resolver supostos problemas dos sobrinhos, e o inscreveu numa academia de polícia. Ainda assim o jovem Bujão, possuído por uma rebeldia doentia e esgueirado dos pais, participou nalguns castings para actor de teatro cujos resultados foram concomitantes na reprovação, e o efémero sonho recebeu a derradeira machadada quando um dos membros do júri que depois de ter recebido uma longa resposta de sílabas silenciosas ao questionamento porquê pretendia ele ser actor, disse-o “Bujão! Esta não é a sua praia amigo. Arranje outra coisa para fazer!”. Bujão não levou pelo lado mau tal crítica, entendeu mesmo que se fez justiça não só ao teatro como a ele próprio, e de resto a sua paixão secreta não era pelo teatro mas pela Lucrécia Paco. Em breve teve o jovem Bujão de anuir o destino imposto pelo tio e subscrito pelos pais, foi então à academia de polícia mas o seu coração jamais haveria de desvencilhar-se dos grilhões daquela paixão platónica, embora quase nunca se referisse a ela.

Teve uma carreira promissora na corporação policial. Já comandante de esquadra juntara dinheiro para que pudesse adquirir a sua primeira viatura entre os meses de Dezembro e Janeiro, altura em que cardumes de viaturas vindas da África do Sul enchiam o sul de Moçambique, e cujos proprietários por imprudência na gestão dos Rands que traziam acabavam quase sempre por vendê-las a baixo preço com a finalidade de amealhar o necessário que os permitisse custear a viagem de regresso. E de facto logrou sucesso do seu desiderato. O senhor comandante Bujão chamou de Lucrécia o seu Toyota Conquest, com caixa de velocidade manual, nome devidamente escrito em letras garrafais no topo do pára-brisa. Houve sérios problemas com a esposa, com ameaças de divórcio e tudo, porque dizia ela “as pessoas pensarão que tens outra mulher”, e a ira impingiu-a a levar o seu protesto aos limites do imaginável, havendo por dois meses coarctado os apetitosos direitos de marido ao seu próprio esposo. Não obstante tal violento castigo o senhor comandante Bujão não se demoveu daquele arbítrio, o carro chamou-se mesmo Lucrécia, e o amou como uma pessoa querida.

Dali a quatro anos, depois de profundas e minuciosas reflexões, o senhor comandante Bujão decidiu que havia pertinência de vender a Lucrécia, do dinheiro obtido aumentaria algum economizado, e por fim compraria um novo carro. Doeu-lhe tanto tomar tal decisão que o seu estado espiritual constrangeu-se significativamente a olhos vistos, e dissimulando uma visita particular a um amigo psicólogo descreveu-lhe o fogo que o queimava por dentro por pensar em vender a Lucrécia. O experiente psicólogo, que bem conhecia o seu amigo, percebendo exactamente do que se tratava, faz o jogo do senhor comandante Bujão, e convenceu-lho nas entrelinhas de que embora muito estimado tratava-se de um meio de transporte, que poderia amar o próximo como o primeiro, e que o próximo proprietário seria capaz de o tratar tão bem quando o senhor comandante Bujão o fazia. Tinha quatro propostas, umas melhores do que outras, mas o principal requisito era o de entregar a Lucrécia a quem melhor a poderia conservar. Efectivou-se então a venda e logo a compra de um Toyota Tazz, igualmente com caixa de velocidade manual, que fora baptizado com o nome de Lucrécia II, tinha jantes especiais e tudo, e cuja beleza fazia justiça ao nome. Entretanto, a vida não corria tão bem quanto com a Lucrécia. O lado bantu do senhor comandante Bujão acreditava mesmo que havia na viatura horríveis anátemas deixados pelo anterior proprietário. Com um ano em posse da Lucrécia II, emprestou-a ao irmão para uma inadiável viagem a Xai-Xai na qual infelizmente veio a capotar. Apesar do irmão ter saído quase ileso, e não parecia mesmo ter saído da Lucrécia II toda espatifada, e de haver-se responsabilizado pela reparação dos danos, foi dos momentos mais terríveis da vida do senhor comandante Bujão. Vivia enfiado na casa do seu amigo psicólogo a comiserar-se sem intervalos.

O irmão, astucioso e forreta que era, logo levou a Lucrécia II aos mais charlatões bate-chapas e pintores de cujos medíocres trabalhos deixaram-na com várias cicatrizes, apagando-lhe o esplendor de tempos áureos. Não obstante tal atrocidade, a estima do senhor comandante Bujão pela Lucrécia II não desfaleceu, talvez até houvesse mesmo aumentado, pois tinha planos para ela, mas contra o irmão instalou-se um forte desapresso.

Entretanto, naquela indesejada manhã, em que houve a ordem que obrigava ao prolongamento de turno, no lugar dos faróis da Lucrécia II havia assustadores buracos negros através dos quais era visível cabos eléctricos cortados, e naquela imagem horripilante houve, por parte dos agentes, a revelação da justa motivação que norteara a ordem do senhor comandante Bujão de mantê-los na esquadra. Mais do que isso, julgaram os agentes cujos olhos assustados relancearam a Lucrécia II a descer pela rua da esquadra, de que aqueles buracos negros instalados no lugar dos faróis haviam certamente sugado todo o pavio da disposição e da paciência do senhor comandante Bujão, porque na Lucrécia II os faróis eram o destaque, a mais estimada e a mais reluzente parte, porque os comprara novinhos em folha havia dois meses e meio, mas a boca pequena cheia de gozo diziam os agentes que aqueles lindos faróis mereciam um carro novo, não aquela sucata do senhor comandante Bujão. Sempre que a Lucrécia II fosse à lavagem ia junto uma pertinente recomendação de que os faróis deveriam merecer atenção especial:

Nada de riscá-los por imprudência pérfidas! — Advertia o senhor comandante Bujão. — E veja-la eih, eu sou polícia.

 

*Continua…

 

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