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Farinha no Deserto, Soares, Machel e o Técnico

Estávamos então em Agosto de 1974 no fim da nossa “aventura africana”, no paquete Infante Dom Henrique a caminho de Lisboa. A chegada e reintegração em Portugal apesar de difícil, não foi tanto como a de muitas outras famílias. O meu Pai dizia “vão sempre ser precisos farinha e pão…”, assim, começou logo à chegada a contactar antigos conhecimentos e em menos de 2 meses conseguiu retomar alguma actividade numa empresa de representação de maquinaria de moagem. Com o passar dos anos, com os 3 filhos já na Universidade em 1978 sentia mais dificuldades económicas, e desta vez o empresário não foi moçambicano, mas mexicano (Faustino Fernández, descendente de Espanhóis) que fez uma oferta ao estilo do Real Madrid! E, partiu de novo, agora só com a minha Mãe, para Hermosillo, capital do Estado de Sonora, no México, que é basicamente um Deserto (Sonora no México e Arizona nos Estados Unidos, voltarei ao Deserto…). Foi chefiar a Moagem do “Molino La Fama”, produzindo a Farinha “Los Gallos”. Aí esteve durante 5 anos, e numa das visitas que nós os 3 filhos aí fizémos a minha irmã do meio decidiu ficar, casou com um Mexicano, e lá está radicada desde o início dos anos 80, um dos ramos da família ficou assim na América-do-Norte.

No meu caso, inscrevi-me em 1974/75 em Engenharia Electrotécnica, no Técnico, e pensei que iria começar o 1º ano, mas a estória foi muito mais gira…em Outubro, realmente, as aulas começaram, mas o sistema universitário estava em “auto-gestão”, as aulas decorriam no anfiteatro de Electricidade, e tínhamos uma cadeira em cada manhã, Análise Matemática, Física e Química, mas o interessante, é que o que era oferecido numa aula não tinha seguimento na aula seguinte, os Assistentes (não havia Professores, tinham-se reformado, sido saneados ou ido para o Brasil quase todos) também não eram os mesmos, aparecia quem estava disponível no momento, e cada um dava o que lhe apetecia dentro dos 3 temas anteriores…a confusão era mais que muita, e ao fim de 1 mês as universidades fecharam, fiquei então sem nada para fazer…mas, como um dos meus Tios trabalhava na Sperry-UNIVAC sugeriu que eu fizesse alguns cursos de computadores (que apareciam em força) para me ir entretendo, assim entre Novembro e Março fiz todos os que havia, as linguagens de programação comerciais, RPG-1, RPG-2, Cobol e ainda Perfuração de Cartões (neste, eram só alunas já com uma certa idade, quase todas ex-datilógrafas, e eu…). Com o “Processo Revolucionário Em Curso” (vulgo PREC) a decorrer, foi criado em Maio de 1975 o “Serviço Cívico” para os alunos universitários (1º Ano) e assim entre Junho e Agosto de 1975, contribuí para a sociedade na Ribeira da Laje, em Oeiras. Todas as manhãs às 8h íamos numa camioneta de caixa aberta da Câmara de Oeiras até à Laje, onde passávamos o dia. Aí, fazíamos animação cultural e desportiva, trabalhos de construção civil, desde a montagem de esgotos, à construção de uma estrada em brita, um pavilhão para a terceira idade, etc…tudo controlado politicamente por um grupo de estudantes como nós, mas bastante revolucionários e facciosos, quanto à população esta era uma maravilha, trabalhávamos e ofereciam-nos de tudo. Foi uma experiência fantástica que nunca mais esqueci. Interrompi este período apenas para me inscrever no Técnico, a 19 de Junho de 1975 (data histórica), ao descer a Alameda D. Afonso Henriques no regresso a casa, vi muita gente aglomerada na Fonte Luminosa (lado oposto ao Técnico) e fui ver o que se passava. Era um comício do Partido Socialista com Mário Soares, apareceu imensa gente, ele exigiu no discurso inflamado contra o Governo a sua demissão, criticando também o Conselho da Revolução, ameaçando paralisar o País, e perto do fim disse: “Vamos todos a Belém”. Lá fomos todos a pé até ao Palácio de Belém (12km!) onde chegámos noite avançada e aí Mário Soares (MNE em Setembro de 1974 que assinou o Acordo de Lusaka com Samora Machel) salta em camisa para a caixa de uma camioneta, mesmo em frente do Palácio, e começa a discursar (em voz muito alta), com os militares armados ao fundo em cima na varanda dos Jardins do Palácio a assistir, a situação esteve muito tensa, era muita gente e receei o pior. Mas, os militares mantiveram-se calmos, a manifestação acabou, fui serenamente até à estação do combóio e daí para casa. Foi o único comício a que fui na vida, o qual marcou o início do célebre “Verão Quente de 1975”, significativo para o futuro de Portugal como uma Democracia Ocidental. E, apenas 6 dias antes da independência de Moçambique a 25 de Junho de 1975!

Em Outubro, comecei finalmente o 1º ano do Técnico, o momento revolucionário ainda se fazia sentir em força, a “auto-gestão” mantinha-se, a organização era melhor, se bem que a Associação de Estudantes ainda controlava tudo, sendo gerida por um grupo conhecido como “Pops” (designação que creio ter origem em “Populares”…) cuja “ideologia” era para lá da “Extrema-Esquerda”… Na avaliação das cadeiras, para uma sociedade igualitária (…), as notas eram apenas “Apto” e “Não-Apto”, classificações que se mantiveram durante todo o 1º ano, não havia exames, e só existiam trabalhos em grupo, sem limite de alunos em cada grupo (…). Comigo aconteceu mais uma coisa interessante, na cadeira de Análise Matemática I (uma das matemáticas difíceis) quis formar grupo com uma outra colega que conheci na altura, e com quem as trocas de ideias iniciais nos faziam convergir na nossa visão do mundo, tendo sido ambos bons alunos no liceu. Assim, quando o Assistente pediu para formarmos grupos, eu fiz grupo com ela. Pouco tempo depois quando a lista dos grupos estava exposta no quadro, salta um dos colegas “controladores revolucionários” (estilo “chefe-de-turma”) e diz: “Esses dois não podem estar no mesmo grupo, e ainda por cima sozinhos, pois são bons alunos e tal criará uma grande desigualdade na turma, têm de ficar em grupos diferentes!…”. A minha colega ficou apavorada com a situação (e eu também…), mas acalmei-a e disse-lhe: “Isto resolve-se facilmente”. Enquanto todos dialogavam para resolver a situação fui falar com o “chefe-de-turma” e propus-lhe que eu e a colega ficássemos juntos, mas convidei-o a fazer parte do grupo e para além disso convidaríamos uma outra colega formando grupo os 4. Ele aceitou logo (!), e rapidamente se esqueceu do que tinha imposto antes quanto à nossa separação. Assim, fez Análise I e II facilmente…enquanto eu e a colega (que é uma professora de topo mundial) colaborámos até ao final do curso. Um outro pormenor curioso, a Cantina era no edifício da Associação de Estudantes, ao almoço a fome era muita depois das aulas desde as 8h, e havia uma grande fila, esperávamos à volta de 30 a 40m, e escutávamos sempre as mesmas músicas revolucionárias Chinesas (!) (sinal premonitório…), interrompidas de vez em quando pelas “Quatro Estações”, de Vivaldi (única diferente). Esta música abre-me o apetite ainda hoje…Os 5 anos correram (1975-1980), as notas passaram a Apto Escalonado no 2º ano (A, B, C, D) e a partir do 3º/4º ano veio a normalidade com testes, exames e notas (0-20), alguns professores regressaram doutorados, dos Estados Unidos, e da Europa, e a Associação de Estudantes evoluiu da “Ultra-Extrema-Esquerda” no 1º ano para a “Direita/Extrema-Direita” (…) no 5º ano! Assim, a 20 de Outubro de 1980, há 40 anos atrás, lancei os 5 foguetes comemorativos da conclusão do curso de Engenharia Electrotécnica! Interessante, que Samora Machel desapareceu no dia anterior em 19 de Outubro, mas de 1986. Soares e Machel, ambos Presidentes, influenciaram significativamente o desenvolvimento dos 2 países e deixaram a sua marca numa geração de Portugueses e Moçambicanos.

No regresso a Portugal, em 1983, o meu Pai foi trabalhar no grupo Amorim & Lage, numa grande Moagem na Maia, no Porto (voltarei ao Porto também mais tarde), onde produzia outra farinha famosa, a “Milaneza”, local onde se reformou em 1997. Um detalhe interessante, já recentemente, este grupo associado a outros parceiros fundaram a Cerealis que é a maior empresa nacional na área de produtos alimentares (Farinhas e Massas) agrupando as duas marcas “Nacional” e “Milaneza”!

Nestes anos, a ligação a Moçambique foi ténue, mas a Memória e a Saudade foram fortes!

 

Rui Martins.

Macau, 9 de Outubro de 2020

P.S. – Escrevi este artigo no dia dos anos de mais uma pessoa importante na minha vida, a minha Mãe, que fez 87 anos, responsável por ter estudado e praticado Piano entre os 6 e os 18 anos, ainda pensei seguir Música, em vez de Engenharia, mas decidi-me por esta última, tendo abandonado por completo a primeira. Um outro colega do Liceu (Miguel Henriques) teve uma opção diferente e é actualmente o Director da Escola Superior de Música de Lisboa, no Instituto Politécnico de Lisboa. Tenho ainda hoje esse “bichinho no corpo”. Após 40 anos de carreira académica, espero ansiosamente reformar-me em breve e voltar ao Piano!

 

 

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