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Fábrica de Explosivos de Moçambique já foi suspeita de apoiar terroristas

A Fábrica de Explosivos de Moçambique, empresa que terá encomendado o nitrato de amónio que acabou explodindo no Líbano, já foi investigada por suspeitas de fazer parte de uma rede que apoia terroristas. A revelação consta de um relatório internacional

O Projecto de Investigação ao Crime Organizado e Corrupção, do original Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), na língua inglesa, publicou esta semana um extenso relatório sobre a explosão do nitrato de amónio no Líbano, facto ocorrido em princípios de Agosto em curso.

No relatório que “O País” teve acesso, consta que o nitrato foi requisitado pela Fábrica de Explosivos de Moçambique (FEM), uma firma portuguesa.

“Em um e-mail, António Cunha Vaz, porta-voz da Fábrica de Explosivos de Moçambique, disse que encomendou o nitrato de amónio através da Savaro Limited. Mas a encomenda nunca chegou a Moçambique e eles simplesmente fizeram outro pedido”, diz o relatório, que revela ainda que a carga estava em más condições, faltava energia auxiliar, e o navio apresentava problemas de comunicação por rádio, tendo parado em Beirute, para pegar mais carga e nunca mais saiu.

Na verdade, o navio de bandeira da Moldávia partiu do porto georgiano de Batumi, em Setembro de 2013, transportando mais de 2.750 toneladas da substância química fabricada por uma empresa local.

A paragem em Beirute, capital libanesa, foi para pegar mais carga, entretanto, nunca mais saiu. Primeiro foi detido por credores que buscavam dívidas de seu operador e, posteriormente, por funcionários do porto que consideraram inseguro navegar.

Depois que o navio foi abandonado e apreendido em 2014, deixando tripulantes ucranianos e russos presos, a bordo por 10 meses, o nitrato de amônio foi transferido para um armazém no porto. O navio terá seguidamente afundado.

Após a explosão em Beirute, relatos da imprensa local e as autoridades do governo focaram-se em um homem tido como o responsável por abandonar o navio e sua carga: Igor Grechushkin. Cidadão russo de 43 anos que mora no Chipre, Grechushkin foi repetidamente identificado como o proprietário do “Rhosus”, nome do navio.

 

As principais curiosidades…

Entretanto, em meio às revelações apresentadas pelo relatório, alguns elementos curiosos chamam a atenção.

No documento da OCCRP, consta que a FEM, empresa que requisitou a carga é 95% detida pela família do falecido empresário português António Moura Vieira, através da Moura Silva & Filhos, “firma com laços muito próximas a algumas figuras da elite política moçambicana”, diz o relatório, apontando que “no passado a firma já foi investigada por suposto apoio a terroristas”.

“Moura Silva e Filhos foi anteriormente investigada por alegadamente fornecer explosivos usados nos ataques bombistas a comboios em Madrid, na Espanha, em 2004, que causaram a morte de quase 200 pessoas”, lê-se no relatório, citando a FEM como sendo também próxima da “ExploAfrica”, outra empresa co-propriedade da família Vieira, que por sua vez já foi também investigada por autoridades sul-africanas e portuguesas por obtenção de armas que teriam “caído” nas mãos de caçadores de rinocerontes e elefantes, no Kruger Park da África do Sul.

No relatório da OCCRP, a Moura Silva e Filhos é igualmente apontada como estando ligada à uma outra fábrica de munições e explosivos que já sofreu “censuras” das Nações Unidas por “negócios com a Coreia do Norte”.

O Governo moçambicano já tinha-se pronunciado sobre a situação do nitrato de amónio no país, tendo afirmado que nos últimos cinco anos cerca de quatro milhões de toneladas da substância teriam entrado ao país, 7% da qual com destino doméstico e a outra parte em trânsito para os vizinhos como Zâmbia e Zimbabwe. O Executivo, na voz do porta-voz do Filmão Suaze, assegurou que a matéria também usada para a produção de fertilizantes têm sido cuidadosamente manuseada em território nacional.

A explosão do nitrato de amónio em Beirute, no Líbano, fez mais de 100 mortos e mais de 4.000 feridos.

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