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Exposição dos irmãos Mabunda inaugurada amanhã na Fundação Fernando Leite Couto

Por: Leonel Matusse Jr.

 

A colectiva patente na Fundação Fernando Leite Couto junta obras de Rodrigo, Santos e Gonçalo Mabunda. A exposição será inaugurada às 18 horas e estará aberta ao público entre 2 e 30 deste mês.

 

Alguém terá dito que há exposições que valem tanto pelas perguntas que nos colocam como por aquilo que oferecem ao olhar. O PARADIGMA DA FORMA dos irmãos Gonçalo, Santos e Rodrigo Mabunda quer ter as duas valências. A exposição será inaugurada no dia 02 de Junho, às 18.00 horas, na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto.

A trabalharem em estruturas, técnicas distintas entre si, os artistas reflectem e questionam o status quo através das figuras e ícones que exploram. Nesta mostra encontramos a pintura de esferográfica sob cartão (Rodrigo), a mistura de colagem e desenho (Santos) e escultura (Gonçalo).

Rodrigo está a desenvolver uma técnica peculiar que na exposição Os Mabundas, no Camões em 2019, se aproximava dos azulejos portugueses. Sob o cartão, o artista distribui infinitos desenhos minúsculos, palavras, que vistos a lupa revelam o humor das circunstâncias de penúria que pesam nos ombros de uma sociedade que caminha na corda bamba a equilibrar a sua precariedade.

No novo rumo que Rodrigo traça neste O PARADIGMA DA FORMA, entre os milimétricos desenhos, surgem formas maiores que ganham o contorno de corpos, edifícios entre as margens dos pontos que o artista deixa em branco ou castanho, dependendo da cor do papelão/cartão no centro da composição.

A parte interior de Caixas de Red Label da John Walker (as telas de Rodrigo) dão espaço a reflexões, muitas vezes satíricas, sobre a realidade que nos rodeia e os seus dilemas.

Gonçalo Mabunda, por sua vez, reactualiza o significado das armas não com isso aniquilando os sentidos primeiros destas: a morte e o poder. Mas os rostos e corpos caricaturados, crivados de bala podem ser uma metáfora para a condição de precariedade, da vida por um fio.

Uma pergunta natural, ao olhar para as obras pode ocorrer: não são as dificuldades quotidianas – o chapa deficitário, o agente da polícia ou do hospital ou da conservatória ou das alfândegas, entre outros “ous” possíveis que materializam a corrupção – outras formas de nos colocar uma Kalashinikov AK-47 com o cano apontado ao nosso rosto?

A ser neste rumo, temos as obras de Gonçalo Mabunda ao serviço do questionamento da necropolítica (?) ao transformar as armas em poesia, em arte, disponível para o sensível (?).

Um dos marcos desta exposição é o uso escultural de capacetes militares crivados de balas a caricaturar rostos com a boca aberta, a zona do cérebro aberta ou então a fazer o estomago da escultura de um Cristo com laço vermelho no peito – a ironizar os pastores que actualmente proliferam na sociedade.

Outra novidade de O PARADIGMA DA FORMAestá no uso por Gonçalo Mabunda de materiais de pulverização contra a malária, desde as roupas, as botas, as viseiras e as mochilas bomba de pulverizador.

Esta colectiva conta ainda com Santos, que trabalha na mistura entre o desenho e colagem, numa conjugação de cores que para lá da estética busca a poética no quotidiano, a reflectir sobre a pandemia, sobre a vida nos bairros, os conteúdos noticiosos da televisão e outras questões que não se esgotam.

Com obras maiores que a exposição “OS Mabundas”, no Camões em 2019, Santos quer revelar os nossos pecados, as mazelas do sistema e certas incoerências numa catarse a volta desse nosso hábito de nos silenciarmos sobre os nossos sofrimentos.

No olhar do jornalista José dos Remédios, que assina o texto de apresentação da exposição, as peças desta mostra resumem procedimentos diferentes, ora instigando a percepção do deus das pequenas coisas, como diria a escritora indiana Suzanna Arundhati Roy, ora preenchendo o campo visual de narrativas por contar.

O PARADIGMA DA FORMA, prossegue, é um conjunto de ferramentas diminutas, no entanto, a exaltarem-se à medida que linhas invisíveis se unem a favor da inteligibilidade inalienável. “Há nisso cruzamentos: estéticos, axiológicos e semiológicos, afinal a arte Mabunda atravessa fronteiras contemporâneas para construir a diversidade na singularidade”, lê-se.

A concluir, José dos Remédios observa que através deste O PARADIGMA DA FORMA, com efeito, os Mabunda vão buscar à precisão da técnica (desenho, pintura e escultura), a representação vivencial que, de outro modo, não faria sentido.

 

 

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