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“Eu tenho uma missão: fazer com que as pessoas se amem”

“Não me vejo a cantar algo em que não acredite”. A questão é: em que Tchakaze acredita? A resposta é simples, a cantora e compositora acredita no amor e na família. Por isso, as suas músicas procuraram retratar um cenário que concorra para que as pessoas possam se entregar a sentimentos nobres. Ao longo desta entrevista, Tchakaze fala do que a move e da missão que a norteia, afinal o mundo sempre pode ser melhorado com boas acções.

 

Toda a narrativa tem um princípio. Qual é o início da sua?

Primeiro, a minha vida artística baseia-se no princípio de eu ser mulher, antes de cantora. Então, interessa-me a moral que uma mulher deve ter perante a sociedade, o que retrato nas minhas músicas. Segundo, o ambiente em que eu cresci, de uma família religiosa, da Igreja Metodista, foi determinante para mim, de tal modo que levo comigo os ensinamentos daí resultantes.

 

Quem escuta o seu álbum de estreia, Tchukela, logo percebe que se interessa muito em cantar o amor. Porquê lembrar as pessoas a importância deste sentimento?

Eu aprecio o cotexto familiar. Gosto muito de ver mãe, pai e filhos juntos ou casais que se juntam e constroem uma vida feliz. Cresci numa família em que era eu e minha mãe – o meu pai faleceu muito cedo e eu sou filha única. Cresci apreciando famílias que viviam aquilo que eu não poderia viver, em que os pais levavam as crianças a passear e a conhecer lugares. De tanto achar essa fotografia bonita, desde nova, decidi investir no amor porque com este sentimento se torna possível enfrentar as dificuldades de um lar.

 

Ainda assim, o amor não é uma coisa sempre harmoniosa no seu Tchukela. Em alguns momentos, é auspicioso e noutros destrutivo. Estou a pensar nas músicas “Vou te amar” e “Nkata”. Na primeira, há uma entidade que quer pertencer, na segunda há outra que quer partir. O que potencia os contrastes à volta do amor nas suas músicas?

Tem uma frase que diz o seguinte: se um dia eu desistir de si, não será por falta de amor, mas por falta de condições de continuar a sofrer. Às vezes, quando as pessoas desistem umas das outras nem é por falta de amor. Eu canto acontecimentos verídicos e a violência doméstica é uma das coisas que me interessam muito por ser algo constante no país. Com isso espero que haja uma mudança de comportamentos na sociedade.

Em “Nkata”, a voz feminina que nos canta resisti até às últimas consequências, antes pôr um basta à relação amorosa, sem denunciar a violência que sofre. Mesmo quando decide partir, não denuncia. Quis assim representar a atitude das mulheres agredidas?

Denunciar o parceiro em casos de violência doméstica é a atitude certa. No entanto, mesmo por causa da música “Nkata”, eu passei a acompanhar muitos casos de violência doméstica, pois passei a receber chamadas de pessoas que se sentem à vontade para desabafar comigo. Aí, notei que, quando a situação é denunciada, parece que as coisas ficam mais agravadas. Por exemplo, o parceiro, quando volta da esquadra, não volta com percepção de que cometeu um erro ou um crime, ele volta revoltado porque a esposa colocou-lhe na cadeia.

 

Está a querer dizer que a solução para este problema está além de denunciar?

Eu acho que isso e as reuniões de família para resolver o problema do casal é tapar o sol com a peneira. Enquanto a pessoa que agride não tiver consciência do erro que está a cometer, não há reunião familiar possível de resolver o problema. O agressor tem de ter consciência e acho que a separação física entre quem agride e é agredido é necessária, para que ambos possam pensar na relação, pois logo que há violência entre casais, há um problema que deve ser resolvido.

 

À imagem de “Nkata”, uma das suas músicas mais afamadas é “Donguissa”, que se insere nesta linhagem moral. Qual é a história por detrás desta música?

Donguissa é a história de uma mulher que foge com um homem, deixando para trás o seu parceiro e os seus filhos. Passado algum tempo, a personagem descobre que era feliz com o marido pobre, que tinha amor para lhe dar. Eu nem sei como esta música iniciou. Do nada comecei a cantar e surgiram-me as palavras. Quando estava já a terminar a música, avaliei-a para ver se se enquadrava na nossa sociedade, e enquadra-se.

 

Assume que a sua música pode, sendo um objecto estético, contribuir para a mudança de comportamentos…

Certamente, porque a música, logo a prior, é um instrumento pedagógico, terapêutico e cura. A música está presente em várias situações das nossas vidas. Quantas vezes não ouvimos alguém dizer que a minha vida mudou desde o dia que ouvi a música do fulano? A música, e a minha em particular, tem tido esse poder. Eu recebo várias chamadas de mulheres que dizem que os maridos deixaram de lhes agredir quando ouviram a música “Nkata”. Há ainda situações que o casal se torna apreciador das minhas músicas e isso alegra-me bastante.

 

“Lirandzu la phoisene”, com Deltino Guerreiro, é uma espécie de presente envenenado…

É uma espécie de presente envenenado, porque, às vezes, a cura é o próprio veneno. Eu não poderia ter encontrado uma pessoa melhor para cantar comigo essa música.

 

As suas músicas têm um tom melancólico constante. Porquê?

Eu considero-me romântica e um romântico é sempre um sofredor. Sou muito sentimentalista e, por isso, mesmo que cante coisas sobre outras pessoas, eu sinto o que canto. Só assim as pessoas podem se sentir tocadas.

 

Só canta o que acredita?

Sim. Não me vejo a cantar algo que não acredite. Existem leis gerais, mas nós também criamos as nossas, do que acreditamos ser correcto. Por exemplo, não me vejo a cantar uma música em que eu digo que tenho dinheiro ou algo assim. Eu tenho uma missão: fazer com que as pessoas mudem de atitude e possam amar-se.

 

“Vinte vinte” é o título da sua nova música. Como é esta coisa de levar à composição um retrato social que mexe com as expectativas das pessoas, os dramas das vendedeiras, a vaidade das mulheres e até o terror em Cabo Delgado?

Há coisas que nós não conseguimos explicar, mas a ideia era retratar isso tudo. É muita gente lesada com o que está a acontecer e eu gostaria que as pessoas se sentissem identificadas com o que canto. Essa música está à venda. Quem a compra, fica também com a instrumental e com a letra. A ideia foi criar um ambiente familiar, para que as pessoas pudessem brincar de karaoke em casa.

 

Quais são as suas lutas? Coloco esta pergunta mesmo pensando na música “A luta continua”, do Tchukela.

Nos meus espectáculos tenho o hábito de dedicar essa música a todos, mesmo acreditando que cada um tem suas lutas. As minhas lutas são várias: conseguir vencer na vida. Sou formada em Psiquiatria e Saúde Mental e gostaria de me afirmar nessa profissão que aprecio muito. Gostaria de contribuir para proporcionar o bem-estar para as outras pessoas e usar a música para isso. Outra luta é poder passar valores morais aos meus filhos, para que cresçam equilibrados, afinal tudo começa de casa.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro o álbum Eparaka, de Deltino Guerreiro, e o livro Se Obama fosse africano, de Mia Couto.

 

Perfil

Teresa da Graça Rangel Semende, Tchakaze, nasceu em Maputo há 30 anos. É compositora, cantora, instrumentalista. Subiu ao palco pela primeira vez aos 17 anos de idade, como corista do músico Penny Penny, na companhia das irmãs Belita e Domingas, juntamente com a banda Omba Mô. Com as músicas “Nkata” e “Donguissa” recebeu três prémios: Revelação no Ngoma, Melhor Voz no Ngoma e Melhor Canção pela 99FM. Tchakaze é também activista social para saúde e bem-estar emocional. Ano passado, esteve em Macau com a Banda Timbila Muzimba. É autora do álbum Tchukela e o seu talento revelou-se no Programa Super Tardes da STV.

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