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“Estou aqui para tentar escrever sobre Maputo”

Veio a Moçambique para participar numa residência literária. A partir daí, Joana Bértholo interessou-se em escrever sobre Maputo e sobre os lugares que passou a conhecer. Logo à chegada, a escritora portuguesa começou a coleccionar impressões, sensações e cores para algumas páginas. Esta entrevista foi feita quando a autora de Museu do pensamento ainda estava em Maputo, inclusive, a participar no 31º Curso de Literaturas em Língua Portuguesa, no Camões.

 

O que a trouxe a Moçambique foi uma residência literária. Por que aderir a uma experiência como esta?

Segundo me foi explicado, o fluxo de levar escritores moçambicanos a Lisboa já existe há alguns anos. Agora, a ideia também é inverter e começar a trazer escritores portugueses a Moçambique. Quando vi o anúncio, senti que tinha de concorrer porque a viagem faz muito parte do meu sistema de inspiração. Viajei bastante, mas nunca tinha estado no continente africano. Não sei explicar porquê, pois, mesmo a clássica viagem até a Marrocos, que muitos meus amigos fizeram, nunca tinha feito. Viajei bastante pela América do Sul, Ásia e Europa, e, mesmo sem escrever necessariamente sobre os sítios onde estou, o facto de estar a viajar e de estar muito atenta a tudo, de ouvir muitas pessoas, é muito bom para as coisas que escrevo. E depois, eu sei que há uma desproporção de dizer venho conhecer África e apenas conhecer uma cidade africana, achei que Maputo seria uma porta de entrada essencial para este diálogo pós-colonialismo, num sítio onde também se fala português, que também tenho imensas referências familiares e, ao mesmo tempo, com coisas que nunca vi. Essa mescla é muito interessante para quem escreve.

 

Não escrever sobre os lugares onde se encontra é uma decisão?

Não foi muito reflectido, até agora… Surgiu assim. A viagem exterior propicia uma viagem interior que não tem a ver necessariamente com o que me está a acontecer. No entanto, o objectivo desta experiência em Moçambique é outro. Aqui estou mesmo a tentar escrever sobre Maputo, sobre os sítios onde vou e sobre as pessoas que conheço. Não é um texto jornalístico e nem é sobre os factos. Queria mesmo que a cidade entrasse com uma força no texto que até aqui não foi muito a minha forma de escrever. Portanto, também estou aqui para me desafiar um bocadinho.

 

Acha que esse exercício proporciona o mesmo gozo?

Estou a ter o mesmo gozo. É mais difícil, mas o que mesmo gosto é do trabalho da imaginação sobre a ficção. Eu já escrevi, por exemplo, um excerto que se passa no Museu da História Natural (onde eu fui logo no primeiro dia), o que até tem a ver com o que senti, quando vi a colecção de fetos e quando a li a macabra história da sua origem. Mas, na realidade, não me aconteceu nada daquilo que pus no texto. Ou seja, há coisas que são reais: o museu e a colecção estão lá, mas depois o que se passa no meu texto não me aconteceu. Na verdade, há esta dança entre a imaginação e a realidade que pode ser divertida.

 

Interessa-me muito a resposta que se dá a esta pergunta. No seu caso, o que a excita mais no contexto da viagem, é a partida ou é a chegada?

É o entretanto. Apesar de me ver como uma viajante, sou uma má viajante, ou seja, uma semana anterior sinto imensas dores de estômago, fico nervosa e não consigo dormir. Não sou nada daquelas pessoas que são voluntariosas, sem medo. Eu tenho medo de tudo. Acabo fazendo esse sacrifício de passar por esse processo de sofrimento porque ver sítios que nunca imaginei e conhecer pessoas que mostram formas novas de estar no mundo, acredito, em última análise me faz escrever. Portanto, é esse maravilhoso entretanto, e, depois, as reverberações que cada viagem deixa em mim muito depois de ter estado num lugar. Eu só vou estar um mês em Maputo, que não é praticamente nada. No entanto, imagino que nos próximos anos haverá alguma coisa a activar em mim essa memória de Maputo. Como se eu viajasse para aqui de novo. Isso acontece-me em relação a muitos sítios onde estive, como se houvesse uma Buenos Aires, uma Marselha e uma Quioto interior.

 

É autora de Museu do pensamento, um livro com forte componente pedagógica. Foi mesmo isso que quis fazer do livro?

Não sei se foi isso o que quis fazer, mas apeteceu-me ter uma conversa com os mais novos sobre o que é isto de pensar e, também, um pouco mais alargado, sobre os benefícios da meditação. Eu vejo pelas sobrinhas, crianças e jovens que tenho à minha volta, que esta geração tem também o desafio de manter a presença e o foco numa sociedade em que há sempre uma ecrã na vida das pessoas: um telemóvel, um tablet ou uma televisão. Não estou a dizer que isto é melhor ou é pior, mas muda a atenção e a capacidade de se focar. O livro é um pouco sobre isso, sobre as coisas em que pensamos ou sobre o que fazemos com os pensamentos maus. E essas são perguntas que não têm idade, e eu não acredito que existam livros apenas para crianças. Apetecia-me falar com as crianças da minha vida. Foi por isso que até adoptei uma linguagem um bocadinho mais acessível.

 

Este seu livro, que pode ser lido em Moçambique, também sobre o conhecimento. Esta premissa é indissociável da ficção para si?

Não digo que sim, como regra geral da literatura ou como regra geral da ficção. Mas, para mim, faz sentido buscar o conhecimento porque sinto que escrevo para aprender. Não me sinto a escrever para ensinar, mas gosto muito de, enquanto tiver um projecto em mãos, me sentir a aprender coisas. Não é que eu penso muito nisso, mas sinto que se eu aprender alguma coisa, evidentemente, o meu leitor também vai aprender. É nesse sentido que o conhecimento torna-se uma variável importante no processo de escrita. Muitas vezes o meu ponto de partida para os textos é a minha ignorância. E eu gosto muito deste livro porque, sendo o meu único para os mais novos, é o que mais me faz viajar. Já andei por escolas de Portugal de Norte a Sul e tem sido uma experiência incrível.

 

Há autores que sentem mais pressão quando escrevem para os mais novos. E no seu caso?

Reconheço essa sensação. Eu já fiz várias peças para as crianças e as coisas têm de ser ou é bom ou não é. A criança não é um espectador que vai tentar perceber. Os miúdos ou gostam ou não gostam. Isso, para quem escreve ou encena, é um desafio lindo, de simplificar, ser directo, ser simples e essencial, porque as crianças constituem um público sem rodeios. Mas, quando escrevo para crianças, há uma grande possibilidade de brincar.

 

Outro livro seu, Ecologia, é descrito como incómodo e como uma convocação para repensar o mundo. Concorda com a crítica?

Eu confio nos críticos e percebo que o livro tem a possibilidade de ser lido dessa forma. Não tinha essa intenção específica quando o escrevi. Mas, claramente, queria pensar sobre o mundo em que vivemos, sobretudo sobre os limites desta coisa a que chamamos mercado, esta coisa invisível e que ao mesmo tempo está em todo o lado e em todos os nossos gestos. O livro é sobre as consequências à volta dessa coisa de a realidade estar a mudar muito de forma veloz e os valores estarem em constante negociação.

 

Ecologia é um livro além dos espaços. O que implicou escrever sobre a humanidade nesta ficção?

Implicou esquecer um pouco que nasci em Lisboa, em 1982, e tentar pensar de uma forma mais interligada, mais global, que acho ser uma das características dos autores contemporâneos. O livro aponta para alterações climáticas e ao que estamos a fazer ao planeta. A mim, para começar, interessava falar de ecologia e protecção do planeta. E percebi que não podia falar de ecologia sem falar de dinheiro. É por isso que o livro fala de mercado, de compra e de consumo. Não porque o tema me interessa por si, mas porque é isso que eu acho que devemos falar, quando falamos de ecologia.

 

Penso que este foi o livro que exigiu mais de si…

Sim, e foi o que demorei mais a escrever, cerca de seis anos. Penso que também é o livro mais ambicioso de minha parte, em termos de fôlego. É um livro caleidoscópico, algo complexo também, simplificado pelo facto de, no fundo, serem histórias de vida de pessoas. Foi um processo criativo que eu adorei.

 

Duas perguntas numa. O que gostaria de levar e de deixar em Moçambique?

Gostava de deixar cá a minha contemplação e a minha devoção. Gostaria de levar tudo o que me têm dado. Vou levar comigo este conjunto de cheiros e sensações.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro livros de Pedro Pereira Lopes e de Hirondina Joshua. No teatro, sugiro “Incêndios”, na encenação de Victor de Oliveira.

 

PERFIL

Joana Bértholo é escritora e dramaturga. Nasceu em Lisboa, em 1982. Licenciada em Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e Doutorada em Estudos Culturais pela European University Viadrina, na Alemanha. O seu último romance, Ecologia, foi semi-finalista do Prémio Oceanos 2019. O seu Museu do Pensamento recebeu o prémio de melhor livro infanto-juvenil da Sociedade Portuguesa de Autores 2018 e do Prémio Literário de Fátima na mesma categoria. A artista também trabalha regularmente em projectos teatrais.
 

 

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