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Ernesto Jamisse: “Estarei sempre disponível para ajudar o basquetebol moçambicano”

Foto: O País

Nado na zona da “Matola 700”, ponto indelevelmente ligado ao basquetebol moçambicano por ter produzido três MVP, nomeadamente Fernando Silvestre “Nandinho” Mandlate, Gerson “Gone” Novela (jogador ímpar) e Ermelindo “Mindo” Novela, Ernesto Jamisse Nhalungo não podia, nem tão pouco, fintar o destino. Estava escrito, estava dito e definido que iria, ainda que não com uma carreira brilhante como atleta, fazer a diferença na modalidade da bola ao cesto.

Honrou a “Rua do Faro”, precisamente o quarteirão 3, onde o farol acendeu para iluminar Fernando Mandlate (MVP da Liga Nacional de Basquetebol em 2008 e 2010), Gerson Novela (MVP da Liga Nacional de Basquetebol em 2006) e Ermelindo Novela (MVP da Liga Moçambicana de Basquetebol em 2011).

Fiel ao seu “metier”, Ernesto Jamisse Nhalungo (Coach Dogg) identificou-se com a área de treinamento, onde começou por dar os primeiros passos com o falecido Tívio Chongo.

Entusiasmo, dedicação e paixão pelo basquetebol fizeram com que Nasir “Nelito” Salé identificasse nele uma figura fundamental para integrar o projecto de formação da extinta Liga Muçulmana. Não parou por aí, apanhou um autocarro e fixou-se na avenida Zedequias Manganhelas, próximo à “paragem da Laurentina”: pavilhão do Ferroviário de Maputo.

No histórico clube verde-e-branco, desenvolveu um excelente trabalho entre 2013 e 2017 nos escalões de iniciados, juvenis e juniores, trazendo, note-se, à ribalta estrelas como Eleutéria “Formiga” Lhavanguane.

Ascensão meteórica, Ernesto “Coach Dogg” Jamisse Nhalungo deu a sua mão à selecção de basquetebol da Província de Maputo nos Jogos Desportivos Escolares de 2011, evento no qual terminou em quinto lugar, e no torneio-inter-escolar Basket Show vencido pela Escola Secundária Zona Verde, em 2013. Com potencial identificado, teve ainda uma passagem pela selecção sub-16 na qualidade de adjunto de Lucília Caetano. Foi precisamente com intervenções numa página no “Facebook” com a designação de “pai do basquetebol” que chamou a atenção de José Leite, empresário e treinador que o convidou a fazer um curso de nível I em Portugal. Em terras lusas, (a)firmou-se no Quinta dos Lombos. Os títulos conquistados falam por si: como treinador-adjunto dos seniores venceu a Taça de Portugal, Supertaça de Portugal e Taça da Federação.

Nos escalões de formação fez brilharete também. Foi campeão nacional e distrital na categoria de sub-16 feminino e bicampeão distrital na categoria de sub-14.

Pelo meio, em 2018 levou, juntamente com Leonel “Mabê” Manhique, fez Moçambique tocar o céu com o segundo lugar alcançado no “Afrobasket” sub-18, no pavilhão do Maxaquene. Este feito colocou, pela primeira vez, o nosso país no Campeonato do Mundo da categoria que decorreu no ano seguinte, na Tailândia.

Depois do estrondoso sucesso na Quinta dos Lombos, abraçou um projecto de formação no Clube Stella de Maris de Peniche e dá ainda forma a sua escola de basquetebol. É com Ernesto Jamisse Nhalungo que o “O País” conversou sobre os novos projectos que está a desenvolver em Portugal.

 

Que análise faz do desempenho do Clube Stella de Maris de Peniche, projecto que abraçou desde que saiu do Quinta dos Lombos em Agosto de 2021?

O conjunto tem evoluído muito desde o início da época até ao momento, sendo que este ano saíram nove meninas da minha equipa para as selecções distritais e cinco representaram a selecção distrital de Leiria de sub-14. Posso falar ainda de quatro atletas que integraram a equipa sub-16. Este ano, estivemos nos dois escalões nas fases de apuramento para o campeonato nacional. Infelizmente, não conseguimos alcançar o que pretendíamos, mas estamos bem encaminhados na Taça Nacional.

Faltam cinco jogos para terminar a fase regular do campeonato. O Clube Stella de Maris de Peniche precisa vencer pelo menos três partidas para se qualificar à fase final. Como é que encaram estes jogos decisivos que terão pela frente?

Temos, de facto, cinco jogos em falta que decidem se vamos ou não para a fase final. É verdade que, se conseguirmos vencer três jogos, passamos para a fase final. A equipa sabe que tem cinco jogos e assume que vai lutar para ganhar igual número de partidas. Não será fácil, mas estamos a trabalhar para alcançarmos os nossos objectivos. A equipa está motivada para encarar estas partidas.

Em termos competitivos, como avalia o campeonato que caminha para a sua recta final?

O nível competitivo da liga tem evoluído bastante. Antes, posso assim dizer, era normal ouvir falar das mesmas equipas nas finais e, hoje em dia, isso não acontece porque os clubes estão a investir muito bem tanto nos treinadores como nos atletas. Nota-se uma grande evolução.

“Coach Dogg” desenvolveu um grande trabalho nos escalões de formação do Ferroviário de Maputo e, depois de seguir a Portugal, mostrou serviço no Quinta dos Lombos onde foi campeão nacional e distrital nos escalões sub-14 e 16. Qual o seu sentimento após ter sido convidado para abraçar um projecto de formação, onde, na verdade, se sente como “peixe na água”?

Para mim, a formação é a parte mais difícil de trabalhar, desde o gostar da modalidade, dominar os padrões motores, aprender os princípios técnico/tácticos básicos até ao trabalho de equipa. Gosto da formação por essa dificuldade toda que hoje em dia já não vejo. Tanto mais que onde passo deixo lá um bom trabalho de base. Fiz isso na Quinta dos Lombos, que até hoje agradeço pelo reconhecimento. Estou neste novo projecto no Clube Stella de Maris de Peniche. E, segundo os que estão neste clube há anos, dizem que se nota muita evolução nas equipas e isso motiva a trabalhar ainda mais.

Como referi antes que este ano, na festa do basquetebol em Albufeira, saíram da minha equipa nove atletas (5 sub-14 e 4 sub-16). As atletas sub-14 foram por mim acompanhadas como seleccionador e elas conseguiram subir de divisão sem perder um jogo dos sete realizados. Esta foi, digamos, uma grande notícia para o distrito de Leiria.

 

“PRECISAMOS RECONHECER E APOIAR AS ATLETAS QUE JOGAM FORA”

O que os amantes do basquetebol, no geral, e dirigentes do Clube Stella de Maris de Peniche, em particular, podem esperar de si neste projecto de formação, uma vez ser a tua área de eleição?

De mim, esperam trabalho. Só posso garantir trabalho e muito trabalho. Tenho a minha escola de basquetebol em Portugal. É uma escola que está aberta a qualquer atleta que queira evoluir nos aspectos individuais para representar selecções ou grandes clubes. Mas também estamos abertos a pessoas que queiram iniciar a modalidade.

O que significa para si o convite para coordenar um projecto de formação do Clube Stella de Maris de Peniche?

É um novo desafio para mim. Tive a ajuda de um amigo e pai de uma ex-atleta minha na Quinta dos Lombos. É uma pessoa que ajudou e continua a ajudar. Deu-me muita força quando soube que ia abraçar este projecto. Mas, graças a Deus, tudo está a correr normalmente e com esperança de melhorar dia-a-dia.

Espera poder voltar ao país que o viu nascer, num futuro próximo, para abraçar um projecto de formação e lapidação de novos talentos?

Para ajudar o meu país não preciso estar presente fisicamente. Eu tenho colegas com os quais falo quase sempre. Trocamos ideias, discutimos basquetebol na sua íntegra. E sempre que vou a Moçambique tenho trabalhado com equipas e atletas individualmente. Casa é sempre casa e sempre voltarei para ficar e trabalhar se me contratarem. Mas, no momento, não posso terminar os meus estudos, a minha formação como treinador e finalizar o projecto que comecei em Setembro no Clube Stella Maris de Peniche.

Actualmente, Moçambique conta com muitas jovens atletas a evoluírem e estudarem nos EUA e Portugal. Temos atletas como Delma Zita, Madina Câmara, Sandra Magoliço, Shanaya Pinto, Carla Covane, entre outras a terem oportunidade de evoluir num basquetebol mais evoluído e exigente. Acredita que, este facto, pode beneficiar as selecções nacionais nos próximos anos para que possa atingir grandes patamares em África e no mundo?

De facto, temos muitas e grandes jogadoras a evoluírem e a estudar fora do país. A Federação Moçambicana de Basquetebol (FMB) ou a Secretaria de Estado de Desporto (SED) precisam saber disso, precisam reconhecer e apoiar essas atletas. Por vezes, não precisa de dinheiro. Só o simples facto delas sentirem que o país as acompanha já é suficiente. Eu estou disposto a ajudar em termos de contatos e tudo que precisarem para falarem com as atletas. Quero ajudar no sentido de fazer com que elas sintam a presença do nosso país. Como fazem outros países.

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