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Devia ser um momento feliz… Hermelinda Simela partiu…

A actriz, produtora e realizadora, Hermelinda Simela, morreu esta terça-feira, no Hospital Geral José Macamo, em Maputo, depois de complicações durante o serviço de parto.

 

No minuto 69 do filme Comboio de sal e açúcar, uma personagem dá à luz uma menina durante um tiroteio. Guerra. Na impossibilidade de ser levada a um hospital, rapidamente, algumas mulheres a rodeiam com capulanas estendidas e impedem que os homens vejam o que não devem. 19 minutos depois, numa linha férrea há uma explosão violenta e, por consequência da bomba ou de uma bala que a atinge no peito, a personagem, ainda a gozar a emoção da maternidade, morre e a recém-nascida acaba nos braços da protagonista da história.

O filme de Licínio Azevedo estreou na Cidade de Maputo em 2017. Quatro anos depois, a mulher que interpretou o papel da personagem que morre naquele episódio do filme Comboio de sal e açúcar não resiste às complicações de saúde causadas durante o parto. Foi isso o que aconteceu a Hermelinda Simela. A realidade quase que imitou a dura ficção e, por volta das 18h ou 19h desta terça-feira, no Hospital Geral José Macamo, na Cidade de Maputo, a actriz, produtora e realizadora partiu, mas protegeu a filha que goza de boa saúde até ao limite das suas forças.

A notícia do falecimento de Hermelinda Simela chocou os actores, encenadores e os artistas em geral. Alvim Cossa, colega e amigo de longa data, disse, esta quarta-feira, que Moçambique perdeu uma grande actriz de palco, uma produtora notável, responsável pelo sucesso de muitos eventos realizados no Centro de Teatro do Oprimido (CTO). “E ela foi uma grande coringa, montou espectáculos e, por detrás daquela actriz, estava a financeira do CTO”. Por isso, Alvim Cossa salienta, “o país perdeu uma mulher forte, resiliente, mãe exemplar e, acima de tudo, um motor dos nossos sonhos. A Hermelinda impulsionava as pessoas do teatro e criava oportunidades para que os actores tivessem êxito”.

“Morreu a minha actriz. Estávamos a trabalhar juntos no Nhinguitimo. Essa notícia chocou-me muito”, disse Licínio Azevedo.

Com apenas 38 anos de idade, a filha de António Simela e Ancha Mopeia partiu, mas deixou uma irmãnzinha para Malaica (a filha mais velha com 10 anos de idade) e mais uma filha para Adriano Cossa, o marido que, agora, tem de viajar de Tete para vir sepultar a mulher que amou.

Hermelinda Simela nasceu a 7 de Outubro de 1982, em Nampula. Já em Maputo, ajudou a fundar o grupo Centro de Teatro do Oprimido. Como actriz, trabalhou em todo o país, ora formando actores, ora dando voz ao teatro e/ou ao cinema. Igualmente, trabalhou fora de Moçambique. Por exemplo, no Brasil, nos Países Baixos, na Alemanha, na Índia e em Espanha.

Para trás, Hermelinda Simela deixa contribuições de peso nos filmes Virgem Margarida (que a permitiu ser distinguida com o prémio Melhor Actriz Secundária no Africa Movie Academy Awards), Comboio de sal e açúcar, Nhinguitimo (em pós-produção), de Licínio Azevedo, e Mosquito, do português João Nuno Pinto. Este ano, o filme Fénix em hibernação, realizado por Hermelinda Simela, foi premiado como Melhor Curta-metragem no concurso do Centro Cultural Moçambicano-Alemão (CCMA).

Hermelinda Simela partiu…

 

 

 

 

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