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Em apenas dois anos, país superou ciclones registados em 10 anos   

Foto: O País

Nos últimos dois anos, o país já sofreu quatro ciclones, um número superior ao que foi registado em 10 anos entre a década de 80 e 90. Especialistas defendem que o país precisa de investir urgentemente em tecnologias capazes de dar, com maior precisão, a ocorrência de eventos climáticos severos, para evitar mais mortes.

Um estudo divulgado na última semana pelo Instituto Nacional de Meteorologia chancela o que já se previa, o pior pode estar por vir. O documento revela que há mais ciclones no país do que nas décadas passadas. Entre a década de 80 e 90, por exemplo, apenas três ciclones atingiram o território. Esse número quase duplicou entre 2000 e 2010, período em que foram registados cinco ciclones. Entre 2010 e 2020, o número de ciclones também subiu para sete.

E a questão que não quer calar é: o que nos reserva a década 2020-2030? O certo é que, em apenas dois anos, o país já registou quatro ciclones, um número superior ao dos 10 anos entre a década de 80 e 90.

Face às estatísticas, o futuro parece cada vez mais perto. Os especialistas defendem, por isso, que o país precisa de começar a adaptar-se a esses fenómenos, de modo a reduzir os seus impactos. Mas tal adaptação depende também da qualidade de informação fornecida às instituições e às populações, para melhor tomada de decisão, mas o país ainda tem fragilidades. O INAM lamenta que o país não tenha vários dispositivos tecnológicos que poderiam ajudar na identificação precoce de eventos climáticos severos, como radares meteorológicos, satélites e boias.

 

INAM QUER EQUIPAMENTOS PARA EVITAR MORTES POR DESCARGAS ATMOSFÉRICAS

A entidade diz que também se deve investir para evitar mortes por descargas eléctricas, outro desafio para as comunidades. “Precisamos de uma rede de estações de monitoria de descargas eléctricas para que, se houver alerta em zonas onde há probabilidade de ocorrência, a população possa abrigar-se em locais seguros, e deste modo, evitar mortes e destruição de infra-estruturas”, precisou Adérito Aramuge, director-geral do INAM.

Recentemente, o Presidente da República lançou a iniciativa “Um Distrito, Uma Estação Meteorológica”. O projecto suscitou questionamentos sobre o porquê de se fazer o mesmo investimento em cada distrito, ao que o INAM se justificou. “Não só é importante para a transmissão de informação meteorológica local para a sede de análise e previsão do tempo, mas também, permite, por exemplo, que o avicultor local tome as melhores medidas para evitar que a sua produção se perca em caso de situações de calor excessivo. Permite também que, ao se prever o arranque das chuvas no distrito, essa informação chegue aos agricultores para que possam preparar a sementeira. Em suma, permitirá que os administradores locais planeiem melhor as suas actividades”, reiterou.

Trata-se de um investimento orçado em mais de 700 milhões de Meticais. Mas isso não é tudo, o INAM defende que o país precisa de instalar estações meteorológicas em boias marítimas, ao longo do Canal de Moçambique, dispositivos que possam, entre outras funções, auxiliar na medição das temperaturas das águas do mar, indicar a direcção e velocidade do vento, medir a radiação solar, entre outras funções.

 

CIDADE DA BEIRA TERÁ RADAR METEOROLÓGICO ESTE ANO

Outra frente é a montagem de pelo menos sete radares meteorológicos, instrumentos, que têm a capacidade de fornecer informação meteorológica precisa em curto espaço de tempo, num raio de 400 quilómetros. Para ter todos esses equipamentos, seria necessário fazer um investimento de 50 milhões de dólares, valor de que o país não dispõe. Neste momento, existe a garantia de cinco milhões de dólares do Banco Africano de Desenvolvimento para a montagem, ainda este ano, de um radar na cidade da Beira. “É um equipamento de alto investimento, o que quer dizer que 10 por cento do valor será para garantir a sua manutenção”, disse Aramuge.

Com o radar, será também possível perceber, com antecedência, a localização da chuva, sua intensidade, até a estrutura da nuvem. Essa informação é captada em tempo real por uma antena parabólica que faz movimento giratório dentro de uma bola protectora da antena.

 

“REASSENTAMENTO DEVE SER PLANIFICADO”

Quem também depende da informação meteorológica para a sua actuação é o Instituto Nacional de Gestão de Riscos de Desastres (INGD), que tem a missão de gerir e mitigar os efeitos dos eventos climáticos severos. É em resultado dessa informação que a entidade diz já ter mapeado todas as zonas vulneráveis. Entretanto, questionada sobre as mortes sistemáticas nas regiões já identificadas, a porta-voz disse que a instituição vem alertando, mas não cabe a si a responsabilidade de gerir os territórios.

“Nós já mapeamos as zonas que sistematicamente sofrem, cabe aos administradores e governos locais não permitirem que as pessoas construam nesses locais”, distanciou-se Nelma de Araújo, porta-voz do INGD, para, em seguida, defender que, em caso de reassentamento, “na nossa actuação, o mais importante é tirar as populações das zonas de risco, logicamente que entra para o plano da nova zona a colocação de serviços básicos, cabendo a cada sector fazer o seu papel”, defendeu Nelma de Araújo, porta-voz daquela entidade.

Entretanto, essa posição é criticada por académicos. Para o académico Agostinho Vilanculos, “não podemos querer fazer bairros de reassentamento quando estamos perante uma emergência. Esse é um erro! Um bairro de reassentamento deve ser previamente planeado, para que sejam colocados os serviços básicos, determinar o tipo de parcelamento a ser feito, colocar jardins, árvores, esquadras, entre outras infra-estruturas, de modo a criar um polo de desenvolvimento e convidar a população a não sair do local”, defendeu Vilanculos.

Para Vilanculos, é essa forma de actuação do Estado que faz com que haja transferência dos problemas da zona vulnerável para os bairros de reassentamento.

 

EM TRÊS CICLONES, EDM TEVE PREJUÍZOS DE 600 MILHÕES DE MT

Criticada por colocar algumas das suas infra-estruturas em locais que não se deveria habitar, a empresa Electricidade de Moçambique também lança a culpa aos gestores do território. A empresa reconhece a gravidade da situação, pois tem impactos na sua gestão. Nos últimos três ciclones, teve que investir mais de 600 milhões de Meticais para repor as infra-estruturas danificadas. O “Gombe”, o último a atingir o país, danificou boa parte da rede de distribuição da zona Norte.

“Com o dinheiro gasto na reposição das infra-estruturas afectadas, poderíamos ter feito 600 quilómetros de linha de média tensão. Isso seria um investimento de dois anos”, lamentou Luís Amado, porta-voz da empresa.

O ciclone Gombe, que afectou, recentemente as províncias de Nampula, Sofala e Zambézia, causou a morte de mais de 60 pessoas, maior parte por desabamento de casas, o que voltou a reacender o debate sobre a resiliência das casas. A Ordem dos Arquitectos defende que há fragilidades na difusão de boas práticas.

“Entendemos que não é só reduzir os materiais de construção, é preciso ensinar às populações as técnicas de manusear esse material. Uma casa de pão a pique pode ser melhorada para que não caia com o vento. Isto é, ela pode ser construída para que resista a essa situação, mas essa informação deve estar sob domínio das comunidades”, reiterou o arquitecto Anselmo Cani.

Entretanto, o INGD garante que já difunde essas boas práticas, mas o certo é que, apesar dessas acções, mais pessoas morrem e, se algo não for feito neste ano, no próximo ano voltaremos a debater os mesmos problemas.

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