O País – A verdade como notícia

Edmundo Galiza Matos diz que há falta de entrega ao trabalho na Função Pública

O jornalista, Edmundo Galiza Matos diz que o sentido de missão para com o povo desapareceu por completo na Função Pública e que o individualismo tomou conta dos funcionários deste sector do Estado, durante os 45 anos da independência nacional.

 

Edmundo Galiza Matos quando começou a profissão de jornalismo o país vivia um momento histórico e muito importante: a independência nacional, em 1975. Nessa altura, tudo mudava, todos eram convocados a darem o seu contributo nas tarefas da revolução. No jornalismo, o que é que estava a mudar nesse momento?

Comecei o jornalismo numa região do país, onde não havia tradição de jornalismo tanto que tal, na cidade de Pemba. Havia o único órgão de comunicação social que era o emissor regional de Porto-Amelia, actual Pemba e não tinha jornalistas. Posso dizer que sou um dos primeiros jornalistas que aparece naquela cidade nesta profissão. O emissor regional que era o único órgão de comunicação social não tinha jornalistas. Limitava-se pura e simplesmente a retransmitir os noticiários do Rádio Clube de Moçambique e em termos de informação de utilidade local era muito escassa. Era mais anúncios necrológicos e não ia mais do que isso. Portanto, eu e os outros como Mahomed Galibo, por exemplo, fomos os primeiros a trabalhar na área de jornalismo, a produzir noticiários para aquele que viria a ser o emissor provincial de Cabo Delgado. Portanto, não havia essa tradição de jornalismo, não tínhamos jornalistas como tal, como acontecia em Lourenço Marques e na cidade da Beira.

 

Isso para dizer que começaram sem referências…

Evidentemente. Tal como disseste, o movimento da independência, o entusiasmo da independência chamou-nos para uma tarefa para a qual não estávamos preparados. Fomos retirados da escola, a revolução chamava-nos para uma missão nobre e começamos a fazer (risos…). Não sei se era jornalismo ou não, porque não tínhamos formação nenhuma. Saímos da escola directamente para as máquinas de escrever. Poderá imaginar uma pessoa sem preparação profissional. Então, aquilo que era notícia, era mais relatórios, lençóis.

Nessa altura, construía-se a nossa identidade. Como é que ela foi construída exactamente?

É preciso dizer que todo povo estava entusiasmado. A chegada da independência foi algo que mobilizou todo mundo. Não havia diferenças em termos ideológicos como hoje se verifica. O objectivo máximo era a independência. Somos todos moçambicanos, finalmente, somo reconhecidos como um povo e nesse aspecto não havia divergências. Toda agente estava engajada para prosseguir os objecvtivos que norteavam o movimento de libertação de Moçambique, neste caso a Frelimo. Foi um entusiamo muito grande, não havia contradições. Podia haver, provavelmente, uma outra forma de ser, carácter das pessoas, mas o objectivo principal que era a proclamação da independência, a criação da moçambicanidade, aí estávamos todos unidos, do Rovuma ao Maputo. E sentiu-se mais na província que foi o berço da luta de libertação nacional e nós próprios que vivíamos na cidade descobrimos um outro Moçambique que nos estava vedado. Não tínhamos muita informação como de Mueda, não tínhamos informação de Mocímboa da Praia, não tínhamos informação de Nangade. O máximo que nós tínhamos era Montepuez, íamos lá passar férias na casa de nossos pais. Mocímboa da Praia também, mas a própria província de Cabo Delgado era-nos completamente desconhecida.

Falou em objectivos comuns que uniam a todos numa só causa de construir um novo Moçambique independente. Um dos objectivos principais do Governo do dia, na altura pós-independência, era restituir os direitos do povo moçambicano que lhes tinha sido negados pelo regime colonial. E olhando para esse contexto, Edmundo Galiza Matos foi eleito para a Assembleia Provincial. Qual foi a sua experiência na Assembleia Provincial e como é que projectava servir o povo, considerando este entusiasmo, engajamento colectivo e sonho de que sim, agora seria diferente?

Antes de chegar a esse especto de ter sido eleito membro da Assembleia Provincial deixa-me recuar um pouco. Lá para os anos 72 e 73, no centro da cidade de Pemba havia um centro infantil, onde as crianças iam lá ver cinema, tinha uma mini biblioteca, tinha piscina para jovens e adolescentes.
Recordo-me que uma dessas noites estava sentado na mini biblioteca desse centro infantil com um grande amigo meu, o João Teodósio Tique, renomado arquitecto. Uma das discussões que tivemos, nessa noite, recordo-me perfeitamente, foi: Por que é que nos chamam de portugueses? Eu é que coloquei essa pergunta.  Pelo simples facto de que a maior parte de nossos amigos eram brancos, filhos de portugueses. Tinham todas regalias que nós não tínhamos. Brincávamos e estudávamos juntos, mas não chegávamos de entrar na casa deles. Grandes amigos nossos, era impossível entrar na casa desses amigos nossos.  A brincadeira e o estudo acabavam na porta da casa de nossos amigos, lá para dentro impossível e então havia essa discussão: por que é que nós somos portugueses.
Ficávamos por aí porque não tínhamos resposta, apesar de nós termos 15 e 17 anos no máximo. Daí a 2 ou 3 anos dá-se o 25 de Abril, aí foi a descoberta para um outro mundo de que afinal nos somos portugueses, temos uma nacionalidade que é Moçambicana. Esta não foi só uma descoberta nossa, foi de todo povo. Por que é que nós erámos português enquanto somos um povo completamente diferente dos portugueses que vieram da Europa. Portanto, este foi um dos principais ganhos para mim, a moçambicanidade, a proclamação do dia da moçambicanidade no dia 25 de Junho. Quando se refere à minha eleição para a Assembleia Provincial foi no dia 25 de Setembro de 1977. Eu eram um jovem jornalista, liberal, cabelo grande, com todo aspecto de balda jornalista. Foi proposto meu nome para pertencer à Assembleia Provincial e como é que era feito a eleição? Não era essa eleição que nós conhecemos. O partido submetia uma lista de candidatos a várias estruturas que existiam no partido e havia uma sessão única em que os candidatos eram apresentados, nesse meu caso foi no cinema Pemba.
Os candidatos eram apresentados frontal ao candidato, por exemplo, do distrito de Macomia. Alguém tem alguma coisa a dizer sobre esta pessoa e as pessoas levantavam-se e diziam, por exemplo, o camarada tal dirige mal a loja do povo, desvia os produtos que deviam ser posto na loja de povo. O escrutínio era popular e discutia-se a idoneidade daquele candidato e dava-se direito a palavra a este candidato para pronunciar-se sobre os vários aspectos críticos que lhe eram apontados.

 

Quando faz essa descrição da sua identidade física, considerando o cabelo grande, que relação isso tinha com a possibilidade de passar ou não nesse escrutínio público, tendo em conta as características?

Houve um camarada que se levantou e disse olha, vocês vão-me desculpar, enfrente de 500 e tal delegados que representavam toda província, mas esse jovem não dá para ser membro da Assembleia Provincial porque fuma soruma. Passa noites em festa, apesar de ser um bom camarada e jornalista. Informa-nos sobre a realidade da província, trabalha com o nosso camarada governador, mas ele tem este defeito de fumar soruma e não pode ser. E prontos, deram-me a palavra naturalmente. Fui ao palco, simplesmente disse: olha, vão me desculpar mas eu não fumo suruma. Posso ter um aspecto de sorumático, ma não fumo soruma. O máximo que posso fumar é cigarro e cigarro barato Havana, porque não tenho dinheiro para comprar cigarros como Aliena, essas coisas. Fui-me sentar. Quem me defende é o camarada governador, Raimundo Pachinuapa. Disse não, de facto, este menino está sempre comigo. Em todas as viagens que eu faço por toda a província esta sempre comigo. Nunca lhe vi um sinal de que fuma soruma. Fui ovacionado como e passei.
E este ganho da independência que o membro da Assembleia Provincial era escolhido a dedo, não é como hoje, por exemplo, eu não quero discutir essa modalidade mas esta forma do povo se pronunciar sobre o seu representante foi uma das melhores experiências que eu tive.
Olívia, um camponês da Aldeia de Balama, de Kwekwe, por exemplo, vinha ali e dizia olha desculpa aquele administrador não pode ser deputado.

 

Não acha que o voto, hoje, nas eleições legislativas representa esse escrutínio?  

É por isso que eu digo que não queria entrar muito nessa discussão. A verdade é que hoje, o eleitor não conhece aquele que o representa na Assembleia da República ou na Assembleia Provincial. Parece que com esse sistema de voto que nos tínhamos, a pessoa se sentia legitimada. Está ali naquele órgão porque os delegados, de facto, o escolheram e não havia distanciamento muito desconhecimento entre o eleitor e o eleito.

 

Foi membro da assembleia enquanto o país vivia uma República Popular em que o objectivo principal era servir o povo. Samora Machel defendia o poder popular e até dizia que devia se investir na educação porque seria uma ferramenta para o povo poder assumir o poder, mas isto não chegou a passar de um sonho “povo no poder”. Como é que explica este fracasso?  

As dinâmicas ditaram. As dinâmicas porque passou não só Moçambique como também o mundo todo ditaram esta não tomada de poder pelo povo, a verdade é que ate uma determinada altura o povo esteve no poder e determinava os destinos do seu próprio território ao nível das províncias. Se hoje o povo não está no poder, por quê? Bom, provavelmente são outras dinâmicas muito diferentes daquela altura. E posso dizer o seguinte é que, de facto, o presidente Samora Machel bateu-se para que o povo estivesse no poder.

 

E o que seria em termos concretos o “povo no poder”?

Os que ocupavam o poder guiavam-se de acordo com a opinião ou os anseios das populações. Eu recordo-me, por exemplo, que para se criar uma determinada aldeia comunal naquela altura, as estruturas encarregues de determinar onde é que deve ficar a aldeia comunal quais são as condições, não podiam fazê-lo sem consultar as populações.

 

E por falar em aldeias comunais, esta colectivização dos povos foi algo consensual e de vontade plena do povo?

Se for hoje para Cabo Delgado grande parte das aldeias, por exemplo, que estão no planalto de Mueda são aldeias comunais e resultaram das chamadas aldeias comunais. A maior parte daquelas aldeias. Não só no planalto, como também no distrito de Palma, Mocímboa da Praia, muitas as actuais aldeias foram comunais, mesmo em Montepuez, por exemplo, e outros distritos e eram aldeias bem organizadas. Porque a realidade que eu conhecia em Cabo-delgado foi esta, as pessoas estavam complementarmente dispersas, era impossível qualquer acção governamental no sentido de melhorar a vida das pessoas. Era impossível colocar posto de saúde e escola para cada uma dessas pessoas. Muatide estou a dar uma referência, Muatide foi projectada como uma ladeia comunal, hoje onde está Muatide. Nchinga, por exemplo, são aldeias comunais e foram postos la postos de saúde. Agora podemos discutir a aplicação do conceito de aldeias comunais se foi bem, feita ou não, provavelmente houve erros, algumas imposições que chocavam com a tradição local e houve este problema de se abandonar, mas o conceito de aldeias comunais até hoje continua válido.

 

E por falar em imposições há um cancão do partido Frelimo que diz, pelo menos um dos versos, que a Frelimo já traçou a política do povo. Não seria este verso uma evidência de que o poder não emanava verdadeiramente de um povo que existia grupo que fazia?

Nós questionamos esta cancão hoje em condições completamente diferentes daquelas em que nós vivíamos. Naquela altura, não questionávamos, estas correctíssima. É assim que todas as sociedades funcionavam. Quem é que naquela altura questionava o hino nacional? Ninguém questionava porque as pessoas sentiam que aquele hino até uma determinada altura representava as aspirações das pessoas.

 

Como é que se explica o surgimento da Renamo neste contexto de plena mobilização para um mesmo caminho e no meio desse caminho existir um grupo de moçambicanos descontentes a traçarem um caminho diferente ou a seguir na contramão?  

(risos…). A questão da Renamo depende de pontos de vista de cada um de nós. Eu tenho um ponto de vista do aparecimento da Renamo que, provavelmente, não é consensual hoje. A história de como a Renamo aparece todo agente sabe e é nessa evidência que teve apoio da sua criação na Rodésia e na África de Sul. A Renamo foi se transformando até chegar a aquilo que é hoje. Mas não podemos negar aquilo que está na génese da Renamo. E eu defendo que, de facto, a Renamo foi uma criação dos regimes racistas que vigoravam nessa altura, na Rodésia do Sul de Yang Smith e o regime do apartheid na África do Sul. Dou toda a importância da Renamo na vida política actual, mas não podemos esquecer de onde ela veio.

 

A 24 de julho 1975 houve a nacionalização da Saúde, Educação, Justiça e houve casas de rendimento em 1976. Como é que avalia esse processo, foi bem-sucedido ou não?

Não sei se conhece a vila da Moamba. Logo à entrada tem umas casas redondas e no hospital da vila de Moamba essas casas existem redondas. Existem um pouco por todos os hospitais, como o hospital de Inharrime onde nasci. Eu quando nasci em Inharrime, na Maternidade de Inharrime, a minha mãe era parteira auxiliar. Vivi naquelas casas rondáveis. Não tinha divisão nenhuma. E depois fui viver em casa dos meus avós em condições completamente à luz do xipefo, por exemplo. Eu já adulto e jovem recordo-me que vi a construir os maiores prédios de Pemba, por exemplo. O prédio Cunha- alegre, o prédio de Bispo chamam de sete andares. Eu tinha entrado naquele prédio, só entrei em 75. Para dizer que nem eu nem as pessoas das minhas relações podiam sequer entrar naquele prédio. Quando aparece a nacionalização dos prédios, que é uma expropriação aos ditos donos, é vidente que é uma grande conquista para os moçambicanos. É evidente que para os ditos donos sentem-se bastante prejudicados e revoltado mas também devem também pensar que eles ou os seus representantes expropriaram moçambicanos ao longo de séculos.

 

Quando coloco a questão da inclusão ou relação ao processo de nacionalização refiro-me aos próprios moçambicanos.

Evidentemente que todo moçambicano saiu do subúrbio e “assaltou” o cimento, num processo organizado. Depois ao longo da passagem dos anos foi acontecendo aqueles casos de corrupção para se obter uma casa, mas a verdade é que até os anos 80 o povo tomou conta das cidades de forma organizada e de forma equitativa. Mas a verdade é que a medida foi a mais correcta que se tomou para não falarmos de questões da saúde, da medicina.

 

Falou de Raimundo Pachinuapa como uma das personalidades políticas que outrora interveio na sua defesa para que pudesse ser eleito para Assembleia Provincial em Cabo Delgado Mas para além desta figura política, Samora Machel e Armando Guebuza foram outras figuras que o influenciaram durante a sua história de vida. Quais foram as razões?

Bom, Pachinuapa porque foi ele que me tirou da escola e responsável em arranjar-me esta profissão. Viu em mim a possibilidade de alguma coisa relacionada com o jornalismo. Ele e o Camilo de Sousa, o cineasta. E depois foi com ele que eu bebi muita da experiencia que ele trazia da luta armada. Para além de que era mais velho, ele olhava para mim como um filho a quem se aturava alguns erros da própria juventude. Eu aprendi muito com Pachinuapa e também com o próprio Armando Guebuza, quando ele foi substituto do governador em Cabo Delgado e o Armando Panguene. O facto é que eu era o único repórter e podia acompanhá-los nas visitas que eles efectuavam a província. Foi graças a ele que conheci a província de lés-a-lés e depois nesta interacção que elas tinham nos comícios, nas reuniões com as estruturas do Governo e da Frelimo. A maneira como eles analisavam os problemas. Isso foi grande valia para mim em termos de bagagem política.

Qual é a melhor recordação que guarda de Samora Machel em termos de liderança?

Primeiro foi aquela viagem de Rovuma ao Maputo, eu tive o privilégio de acompanhá-lo desde que aterrou Mueda até deixar a província de Cabo Delgado. O carisma daquele homem arrastava multidões que era uma coisa impressionante. Este é um dos aspectos. E a defesa dos interesses intransigente do povo. Esta é uma marca registada de Samora Machel. Implacável contra a prepotência, a corrupção, contra a indisciplina. E depois tinha um lado humano, era uma pessoa que quando ele aplicava uma punição a um camarada, nas reuniões que eu assistia do Comité Provincial eu sentia que ele deu aquela punição só não poida voltar porque seria um mau exemplo. Uma das coisas que eu gostava de Samora era depois de trabalhar, gostava de relaxar, relaxar no sentido esquecer, sacudir os problemas com que se defrontou durante o dia e a noite sentarmos, começarmos a conversar e contar anedotas, por exemplo.
Uma das frases dele, por exemplo que eu me recordo dele foi há dois ou três meses antes da morte de Agostinho Neto. Samora sabia que ele estava gravemente doente e solicitou para quele viesse para cá para passar alguns dias de descanso em Pemba e na recepção que ele deu na praia do Wimbe uma das palavras que ele disse no seu discurso normal de jantar, “ Vocês tem que aprender uma coisa que eu aprendi do Karl Mark, que esta: quem sabe trabalhar, sabe descansar, portanto, vamos beber à vontade aqui”.
Uma das grandes lembranças que eu tenho de Samora é que ele era um grande ouvinte da Rádio, grande ouvinte da Rádio, sempre que ia para Pemba ele ordenava que entregasse a Rádio no quarto dele.
E uma dessas noites numa situação também em Pemba já no palácio do Governador ele estava a discursar, eu estava ao lado da mesa oficial a fazer as gravações, ele olha para mim, olha para o técnico e para o delegado da Rádio também neste caso e diz olha vocês há uma coisa que me impressiona aqui nesta província. É a vossa Rádio, é o vosso emissor. Há música que em Maputo agente não houve, Maputo agente houve música estrangeira, aqui agente ouve música do povo. Nos tínhamos acabado de fazer gravações de todas as zonas chamadas libertadas.

 

E em relação ao presidente Guebuza quais foram as influências?

A disciplina (risos…) e a seriedade com que ele conduzia as coisas. Houve um dia em que ele chateou-se muito comigo e durante o decurso da viagem pela província quase não nos falávamos, por causa de uma notícia mal escrita. Quando regressámos a Pemba ele disse-me que, para além de mal escrita, o português estava incorrecto. A retidão dele e a disciplina que ele exigia de si próprio e aos homens que ele comandava.

 

Olhando para aquilo que foi a prática do jornalismo ao longo destes anos, lançando um olhar para a profissão ao longo desses 45 anos como é que descreve o jornalismo hoje?

Logo depois de eu deixar de estar na vida activa do jornalismo, em 2015, comecei a ser bastante crítico em relação a jovens jornalistas de hoje. Escrevem mal alguns. Há bons jornalistas e escrevem muito. E nas redes sociais vejo amigos meus e colegas que não estão na activa, neste momento, a expressar publicamente os erros de um outro jornalistas que são cometidos pelos nossos jornalistas na rádio, na televisão, no jornal e onde quer que seja. Eu também entrei nessa onda mas, a partir de uma certa altura, comecei a analisar que nós também passamos por isto. E naltura quando eu fazia uma notícia, a minha chefe de redacção, por exemplo, a Orlanda Menes, o Sol de Carvalho, o Leite Vasconcelos, pegavam na notícia pura simplesmente nem me dizia e rasgavam e punha no lixo. E diziam vai fazer de novo sem me dizer porquê. Foi assim que fui aprendendo, cometendo muitos erros. As minhas primeiras notícias eram autênticos relatórios, ainda por cima mal escritos. Foi aprendendo-me com tempo até chegar àquilo que eu sou hoje. Não estou a dizer para não se criticar a nova geração de jornalistas, critiquemos, apontemos os erros, mas não da forma como está se a fazer hoje. Não é bem assim porque nós também passamos por esse processo de aprendizagem.
E tivemos a sorte de ter como referência grandes jornalistas como Cardoso, uma série de outros nomes que hoje não existem. E depois tínhamos a possibilidade de muito de nós nas províncias virmos para ca, para a sede, para fazer essa reciclagem, participar de um curso com esses grandes jornalistas do nosso tempo. Devido à velocidade da informação, hoje as coisas correm de tal sorte não há tempo para parar e nós fazíamos o jornalismo nas calmas não era assim tao “acelerado” como hoje. A minha aprendizagem foi muito facilitada por ter ocorrido num ambiente não agitado como hoje. Agitado como hoje como a sede de informação é tão grande como não era naquela altura.
Não sei o que que se tem que fazer para se suprir as deficiências que existem, actualmente, hoje nos nossos órgãos de comunicação social, eu falo particularmente d Rádio porque é a área onde estou inserido. Há grandes lacunas que devem ser resolvidos, não sei como…

 

E em relação aos outros sectores, nestes 45 anos de independência, como é que analisa a Saúde, Educação e até mesmo Agricultura como é que analisa?

Bom, tal como outros sectores vivem as dificuldades que são ditadas pela incapacidade do Estado em prover meios para que esses sectores funcionem como deve ser a contento e que satisfaçam as necessidades das pessoas, da saúde, por exemplo, não tem fármacos, não tem medicamentos, provavelmente, essas dificuldades são ditadas pela exiguidade do orçamento. Aquilo que nós produzimos não chega para cobrir as necessidades de todos os sectores, mas também quero apontar um aspecto, pese embora algumas dificuldades, sinto que as pessoas, o grosso dos funcionários, se naquela altura se empenhavam, se dedicavam com maior afinco para levar a cabo a sua tarefa, hoje as pessoas de um determinado ministério estão ali para marcar o ponto. Hão há brio profissional e sabem que no fim do mês vai receber o seu vencimento. Agora, o problema do Galiza Matos há-de se ver… O que eu sinto é que o funcionário do Estado hoje apresenta muito pouco brio profissional. As pessoas estão interessadas em como melhorar ad suas vidas.
Eu sinto que se relaxou muito e o apelo ao consumismo, a forma como as pessoas pensam como devem ganhar a vida, as facilidades de como devem melhorar a sua vida ditou esta indisciplina toda, liberalismo total nos órgãos do Estado e prontos a essa indisciplina generalizada. O sentido de missão para com o povo desapareceu por completo, as pessoas já não estão preocupadas em servir a quem devem servir. Estão interessadas em si próprias.

 

Edmundo Galiza Matos nasceu em Inharrime como muito bem disse mas cresceu na província de Cabo Delgado. Após a reforma decidiu voltar para a terra que lhe viu nascer. Cabo Delgado, concretamente, o distrito de Palma. Olhando para este contexto, este momento que vive a província de Cabo Delgado, de ataque de terroristas, de um recuar, perante um sonho que se estava desenhar para o país, e estes holofotes no mundo sobre esta província. Qual é a sua explicação em relação ao que está acontecer em Cabo Delgado?

É preciso dizer que eu conheci Palma em Novembro 1975 e ia de vez em quando em Palma. Então quando fui lá em novembro de 2017, depois da reforma, Palma já tinha mudado. Já não era Palma que eu conheci em 75. Naquela altura de Mocímboa da Praia para palma só cerca de 80 km levava 5, 6 horas de tempo para percorrer esses quilómetros, hoje só são cerca de 45 minutos, portanto, tem uma das melhores estradas deste país. Palma em 2017, quando cheguei la tinha 5 hotéis de luxo, já tinha pizzarias, boutiques, já há uma grande diferença entre Palma de 75 e Palma que encontrei em 2017. De 2017 até 2019 aconteceram vários momentos por causa do gás, o retrocesso por causa de uma paragem, o retomar das coisas…Agora por causa dessa situação do terrorismo e COVID. Há uma evolução muito grande entre Palma de 2010 e de hoje. As coisas não estão muito bem, embora Palma não tenha sido afectado em termos de ataque e aquelas matanças que se verificam, por exemplo, em Mocímboa da Praia, Macomia e alguns pontos de Quissanga e Muidumbe.

 

E qual é a sua teoria em relação a esse apoio popular que os terroristas conseguem granjear da população?

Não sei se é apoio popular. Quando diz popular significa que o povo todo está a apoiar o terrorismo. Digamos que há uma franja dos jovens que se sente descontentes porque não tem uma perspectiva de futuro que são facilmente aliciados e manipulados por esses indivíduos que estão em frente desta situação, agora apoio popular não tem.

 

Há relatos de violação de direitos humanos pelas Forcas de Defesa e Segurança. Que equilíbrio é que se pode encontrar entre a actuação das Forcas de Defesa e Segurança para protecção do Estado e a preservação também dos direitos fundamentais da população?

Numa situação de guerra, onde quer que seja, nos Estados Unidos, no Afeganistão, na Rússia, na Síria ou no Iraque, há sempre, haverá sempre, não é um caso exclusivo de Moçambique, essa possibilidade de haver violão de direitos humanos. Agora, a violação de direitos humanos aqui em Moçambique na luta contra o terrorismo provavelmente há. Não sei, ainda não me foi apresentada uma evidência de que existe essa violação. Se existe é de condenar. Os dirigentes do Exército têm que trabalhar no sentido de formar os jovens que estão integrados no exército no sentido de respeitar as regras de jogo numa situação como essa. E deixa-me dizer uma coisa, há muita desinformação em relação à esta questão, desinformação e muitas teorias…

 

E de quem seria a responsabilidade de melhor informar?

Seriam os jornalistas, naturalmente! Mas também vão dizer que não tem essa possibilidade de estar lá. Alguém do jornalismo tem que se bater no sentido de se criar condições dos jornalistas irem ao terreno.
Enquanto esteve em Palma sentiu que havia um terreno fértil para os jornalistas puderem produzir informação? Principalmente considerando que alguns jornalistas que estiveram a investigar alguns assuntos desapareceram ou passaram por torturas.

O sigilo que existe agora sempre existiu desde que começou. Eu sentia isso, embora eu não tivesse nada que reportar sobre questões ligadas ao assunto mas sentia que os jovens que trabalhavam na Rádio Comunitária de Palma tinha dificuldade em sacar e publicar material ligado com a situação de guerra.

 

O país está a viver este momento de terrorismo em Cabo Delgado. Instabilidade também político-militar no centro do país, que vem, recentemente, de um embate de calamidades naturais – ciclone Idai e Kenneth – que atingiram a região centro e norte. E agora esta pandemia de nível mundial que também está a afectar profundamente o nosso país. Olhando para estes elementos todos que contribuem para arrastar o país para a pobreza, para o recuo, já há estudos a indicarem que até ao final do ano mais de três milhões de moçambicanos estarão na pobreza por causa dos efeitos desta pandemia e combinação de outros factores. Como é que perspectiva a saída do país neste capítulo da pobreza?

Mais trabalho, mais trabalho das pessoas. Sabe um dos aspectos que eu verifico é que as pessoas, hoje, não querem trabalhar. Estou a generalizar mas é verdade. Muito pouca gente dá valor ao trabalho. Dou um exemplo, mas muito provavelmente… Tenho a minha machambinha na Namaacha empreguei um individuo vinha de Zavala deixou a família lá, duas crianças e a mulher. Pediu-me emprego e explicou-me qual era a situação dele. Tens vencimento, tens casa para dormir, prontos. Primeiro mês quando eu entrego o vencimento, ele diz patrão eu não quero esse vencimento, estou-lhe pedir quando for à Maputo comprar para mim um telefone-celular. Com o primeiro vencimento, esqueceu-se que deixou a mulher e filhos a passarem mal lá em Zavala, a primeira coisa que ele pensou quando teve aquele vencimento não é socorrer a família lá, foi comprar telefone. E o quê que eu quero dizer com isto, quer dizer que as pessoas quanto menos esforços fizerem e arranjar esquemas para sobreviverem melhor para elas. O espírito de trabalho e de sacrifício perdemos este espirito de trabalho. É verdade que há desemprego, é verdade que as empresas não tem capacidade para empregar mais gente, mas onde está a nossa capacidade de empreender?
Há muito jovens ai que vejo nas redes socias, jovens que empreenderam e não esperarem de ser empregados.

 

E por falar da pandemia da COVID-19, que lições podemos tirar desta doença?

Falaste da pandemia, ciclones, terrorismo, antes tivemos a tal guerra civil. Portanto, neste país eu tenho a mesma idade em termos de independência e já passou por muita coisa. Os moçambicanos tem muita resiliência, mesmo esta história de terrorismo garanto que nós vamos conseguir ultrapassar.  Moçambicano já vem sofrendo muito desde bicha para comprar pão, até tomar chá meter um rebuçado em conta as dificuldades que nos estamos a passar hoje. Houve um Ciclone em Nampula, recordo, milhões de cajueiros foram abaixo e conseguimos passar. COVID-19 com Sida, quantas pessoas morrem de Sida por dia neste país, quantas pessoas de tuberculose aqui por dia neste país, muito mais do que COVID-19. Hoje tivemos 19 casos de COVID-19 e esquecemos que provavelmente são 50 pessoas que morrem por dia por causa de tuberculose para não falar de Sida, agora é COVID-19, havemos de passar

 

Partilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos