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O País – A verdade como notícia

Os Presidentes de Moçambique e da Rússia, Daniel Chapo e Vladimir Putin, acordaram aprofundar a cooperação económica e comercial entre os dois países, com destaque para os sectores da energia, mineração, agricultura, transportes, educação, ciência e tecnologias de informação, durante um encontro bilateral realizado na terça-feira, em Moscovo, no âmbito da visita de trabalho do Chefe do Estado moçambicano à Federação Russa.

Falando ao término do encontro, o Presidente Chapo destacou a importância das relações político-diplomáticas entre os dois países, que já duram há mais de 50 anos, e o apoio russo à luta de libertação nacional de Moçambique.

“Gostaria de destacar a importância das nossas relações político- diplomáticas, que já duram há mais de 50 anos”, afirmou o Presidente da República, que reiterou o compromisso de Moçambique em estreitar as relações com a Rússia, particularmente nos domínios económico e comercial.

O Chefe do Estado destacou igualmente a importância da cooperação no sector energético, tendo agradecido o convite para participar na Cimeira dos Países Exportadores de Gás e defendido o aprofundamento do trabalho conjunto entre os dois países nesta área.

Na área de defesa e segurança, o Chefe do Executivo moçambicano apontou o combate ao terrorismo em Cabo Delgado como um dos desafios de Moçambique, considerando importante o reforço da cooperação com a Rússia, e agradeceu o apoio daquele país na formação de quadros.

“Quero agradecer à Rússia pelo apoio ao reforço das capacidades nacionais dos sectores de defesa e segurança através da formação de quadros”, disse. Na economia, o Presidente da República referiu que Moçambique está a diversificar a sua economia para além do petróleo e gás, destacando as reformas em curso na legislação mineira e de conteúdo local, bem como a criação da Empresa Nacional de Minas, com vista à criação de maior valor para o desenvolvimento nacional.

Daniel Chapo informou ainda que a situação política em Moçambique é estável e que decorre um Diálogo Nacional Inclusivo, envolvendo cidadãos residentes no país e na diáspora. Por conseguinte, apontou a estabilidade política como um factor importante para o desenvolvimento do País.

Por seu turno, Vladimir Putin afirmou que a cooperação comercial e económica entre os dois países está a fortalecer-se, revelando que, entre Janeiro e Agosto deste ano, o intercâmbio comercial “praticamente duplicou”.

O Presidente russo destacou ainda a actividade da Comissão Intergovernamental de Cooperação Económica e Comercial. Putin referiu que, na quarta sessão da Comissão Intergovernamental, realizada em Moscovo a 1 de Outubro, foi assinado um protocolo que reflecte a intenção dos dois países de impulsionar a cooperação em áreas como geologia e exploração do subsolo, energia, educação e ciência, saúde, transportes, agricultura e tecnologias de informação.

O Presidente russo destacou igualmente o crescimento da cooperação no sector da educação, referindo que a Rússia recebeu, neste ano, pela primeira vez, funcionários públicos moçambicanos para estágios profissionais, enquanto a quota de estudantes moçambicanos para formação em universidades russas, financiada pelo orçamento federal, tem vindo a aumentar de forma regular.

No plano internacional, Vladimir Putin salientou o carácter construtivo da cooperação entre os dois países nos fóruns multilaterais, particularmente nas Nações Unidas, enquanto Daniel Chapo agradeceu o apoio humanitário russo prestado a Moçambique na sequência das cheias e inundações registadas no início deste ano.

O Chefe do Estado moçambicano reiterou, por seu lado, a importância da dinâmica das relações político-diplomáticas entre os dois países e do aprofundamento dos laços entre os dois povos.

O Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu ontem, em Moscovo, o reforço da cooperação internacional no sector do gás natural, considerando que a segurança energética deve assentar em mercados estáveis, fornecedores fiáveis e relações de confiança entre produtores e consumidores.

O Chefe do Estado falava na 8.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo do Fórum dos Países Exportadores de Gás (GECF), na capital russa, tendo frisado que “nenhum país pode construir a sua segurança energética isoladamente”.

Nesse contexto, o estadista moçambicano defendeu o aprofundamento do diálogo e da concertação entre os países produtores e consumidores, de forma a que “a soberania energética de uns não seja construída à custa da insegurança energética de outros”.

Na sua intervenção, subordinada ao tema “Situação Actual no Mercado do Gás”, o Chefe do Estado considerou que a energia constitui actualmente uma questão central para a segurança mundial, a estabilidade das economias e o desenvolvimento dos países. 

Defendeu que o gás natural deve continuar a contribuir para o abastecimento energético mundial. 

“Mais do que uma mercadoria estratégica, o gás deve constituir uma ponte de entendimento e de prosperidade entre as nações”, sublinhou.

O Presidente da República destacou igualmente o papel crescente de África no mercado energético internacional, tendo em conta as reservas de gás natural existentes no continente. Ao mesmo tempo, chamou atenção para o facto de milhões de africanos continuarem sem acesso à electricidade e a soluções modernas de cozinha, defendendo que “África não pode continuar a ser um continente que ilumina outras partes do mundo enquanto milhões dos seus próprios cidadãos permanecem na escuridão”.

MOÇAMBIQUE QUER SER ACTOR NO MERCADO DE GÁS

Abordou a experiência de Moçambique, afirmando que o País está determinado a consolidar a sua posição como actor no mercado internacional do gás natural. Recordou que, desde a adesão ao Fórum, em 2022, como País Observador, Moçambique passou a exportar gás natural liquefeito da Bacia do Rovuma, estando actualmente a desenvolver novos projectos estruturantes que poderão elevar a capacidade de exportação para mais de 35 milhões de toneladas por ano.

O Chefe do Estado asseverou que a contribuição de Moçambique para a segurança energética também inclui o fornecimento de gás aos países da região, particularmente à África do Sul, há mais de duas décadas.

Outrossim, salientou que o aproveitamento dos recursos deve gerar benefícios para a economia nacional, defendendo a necessidade de “passar de uma economia assente predominantemente na extracção e exportação de recursos naturais para uma economia que transforma esses recursos em valor acrescentado, industrialização e soberania económica”.

Com efeito, apontou a experiência de Temane, na província de Inhambane, onde o aproveitamento do gás natural inclui a produção de gás de cozinha e a geração de energia eléctrica através de uma central de 450 megawatts. O Presidente da República afirmou igualmente que Moçambique pretende ampliar o uso do gás na produção de alimentos, no desenvolvimento industrial e na criação de oportunidades para empresas nacionais, jovens e mulheres.

Daniel Chapo destacou ainda a necessidade de assegurar que as receitas provenientes dos recursos naturais contribuam para o desenvolvimento de longo prazo, através do Fundo Soberano e da diversificação económica. Defendeu igualmente uma transição energética justa e equilibrada, que tenha em conta as diferentes realidades dos países e permita o aproveitamento responsável do gás natural, em complementaridade com as energias renováveis.

O Presidente da República apresentou quatro prioridades de Moçambique no Fórum: um mercado internacional do gás mais estável e previsível; transferência de tecnologia e formação de quadros; investimentos orientados para a transformação local dos recursos e criação de empregos; e uma transição energética justa. 

E afirmou que Moçambique está disponível para aprofundar a sua participação no GECF e desenvolver novas parcerias nos domínios da tecnologia, formação de recursos humanos, investimento e indústria do gás.

A subida dos preços internacionais do petróleo pressiona a economia sul-africana, enquanto o Governo procura aliviar os combustíveis e proteger o poder de compra. O rand perdeu terreno face ao dólar esta quinta-feira, num contexto de tensões no Médio Oriente e de avaliação das medidas orçamentais.

O Brent chegou a 112,55 dólares por barril, o nível mais elevado desde Maio, após novos ataques dos rebeldes Houthi contra alvos na Arábia Saudita aumentarem os receios de perturbações no abastecimento. Como importa a maior parte dos combustíveis que consome, a África do Sul está exposta às oscilações do mercado internacional.

Na manhã de quinta-feira, o rand negociava perto de 16,45 unidades por dólar, menos 0,5% face ao fecho anterior. A moeda mais fraca pode encarecer as importações e aumentar os custos dos combustíveis, do transporte de mercadorias e da produção.

O impacto vai além das bombas de gasolina. Combustíveis mais caros elevam as despesas dos transportadores, que podem repercutir os custos nos alimentos e noutros bens essenciais. As empresas enfrentam encargos logísticos maiores e as famílias perdem rendimento disponível. O cenário pode prolongar a pressão inflacionista, dependendo da evolução do petróleo, do câmbio e da capacidade de absorção dos custos.

Para aliviar a pressão, o ministro das Finanças, Enoch Godongwana, anunciou uma redução temporária da taxa sobre os combustíveis, com custo estimado de 10 mil milhões de rands. Entre 4 de Novembro e 1 de Dezembro, o corte será de três rands por litro de diesel e 1,50 rand por litro de gasolina. Até 5 de Janeiro de 2027, o alívio baixa para 1,50 rand no diesel e um rand na gasolina.

O Governo afirma que a medida apoiará famílias e empresas sem comprometer a sustentabilidade orçamental. O financiamento virá da devolução ao Tesouro de 10 mil milhões de rands antes transferidos para o Fundo Central de Energia. A intervenção, porém, não elimina a exposição ao mercado internacional nem garante uma descida duradoura dos preços.

A medida levanta dúvidas sobre o período posterior ao alívio. Organizações de consumidores e representantes empresariais consideram que o corte dará algum fôlego, mas será temporário perante aumentos que pesam sobre trabalhadores, transportadores e comerciantes. A gasolina de 95 octanas custa cerca de 30,25 rands por litro no interior e 29,38 rands na costa.

O desafio de Pretória é conter o impacto imediato sem comprometer as receitas públicas. Se o petróleo continuar caro e o rand sob pressão, os custos de importação poderão manter-se elevados e dificultar o controlo da inflação. A evolução do conflito no Médio Oriente será decisiva para os preços, a actividade empresarial e o orçamento das famílias.

A falta de informação sobre os preços, os elevados custos de transporte, o acesso limitado ao financiamento e as deficiências das infra-estruturas continuam a comprometer a capacidade da agricultura do país de gerar rendimentos e alimentar a indústria nacional. 

Os constrangimentos afectam diferentes cadeias de valor e dificultam a transformação da produção agrícola em riqueza, apesar do potencial de recursos de que o país dispõe.

Estas são algumas das constatações apresentadas no livro Agricultura e Transformação Económica em Moçambique: Evidências, Políticas e Caminhos para o Desenvolvimento, uma obra colectiva que reúne 16 autores, entre investigadores nacionais e estrangeiros, e resulta de estudos desenvolvidos ao longo de vários anos sobre os desafios da agricultura e da transformação estrutural da economia moçambicana.

Na apresentação da obra, que teve lugar esta quarta-feira, na Cidade de Maputo, Alberto da Cruz explicou que os estudos surgiram no contexto da preparação de políticas de desenvolvimento e industrialização, tendo sido analisadas diferentes cadeias de valor, entre as quais o milho, o algodão, o frango e o feijão bóer.

O investigador destacou a falta de informação fiável sobre os preços e as dificuldades de transporte como obstáculos que prejudicam os produtores e limitam a ligação entre a produção agrícola e a indústria.

“Os agricultores, no caso do milho, não têm informação do preço. Isto é um problema, porque já não sabem como negociar”, afirmou.

Alberto da Cruz chamou igualmente a atenção para as dificuldades de escoamento da produção, que impedem que determinados produtos cheguem aos principais centros de consumo e às unidades industriais.

“A indústria agrícola não compra o milho que sai da Angónia porque não chega a Maputo”, explicou, defendendo que a industrialização do país depende também de investimentos em infra-estruturas que liguem as zonas de produção aos mercados.

“Se realmente queremos industrializar Moçambique, é preciso infra-estruturar”, sublinhou.

Baixa produtividade mantém agricultores na pobreza

Por seu turno, Egas Daniel, também autor da obra, considera que o desafio da agricultura moçambicana não se resume à quantidade de terra disponível ou ao número de pessoas envolvidas na actividade, mas à capacidade de produzir mais com os recursos existentes.

“A diferença é que há pouco rendimento nesta muita terra, neste muito trabalho”, observou o investigador, ao explicar que o crescimento da produção agrícola tem acompanhado o aumento da área cultivada e da população, sem uma evolução significativa da produtividade por trabalhador e por área.

Segundo Egas Daniel, esta realidade limita os rendimentos dos produtores e dificulta a transformação da estrutura económica do país. Para o investigador, o aumento da produtividade agrícola deve ser o ponto de partida para dinamizar outros sectores, incluindo a indústria transformadora e os serviços.

“O agricultor não é irracional. Ele não produz pouco porque não quer ganhar, os simples riscos que ele enfrenta ao produzir muito são tais que não lhe dão incentivos para ele produzir mais”, afirmou, defendendo que os riscos e os constrangimentos enfrentados pelos produtores ajudam a explicar a baixa produção.

Entre os factores identificados no livro estão as dificuldades de transporte, o acesso à terra, a falta de crédito, a ausência de seguros agrícolas adequados e as limitações do mercado de trabalho. Na perspectiva do autor, estes obstáculos estão interligados e devem ser enfrentados de forma articulada.

Egas Daniel alertou ainda para a necessidade de integrar as mudanças climáticas na planificação pública. Cheias e secas podem desencorajar os produtores a investir e comprometer até a produção que conseguem realizar, sobretudo quando não existem mecanismos de protecção adequados.

O investigador defendeu igualmente a diversificação dos mercados e o processamento da produção nacional, para reduzir a dependência de compradores externos. Como exemplo, apontou o caso do feijão bóer, cuja exportação depende fortemente do mercado indiano.

Potencial agrícola exige ligação à indústria

Na sua intervenção, o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, afirmou que o país dispõe de um potencial agrícola significativo, mas continua a enfrentar dificuldades para o converter em rendimento e desenvolvimento económico.

“O nosso problema não é a ausência de potencial, mas a ausência das ligações que convertem potencial em rendimento”, declarou.

O governante recordou que a agricultura emprega cerca de três quartos da força de trabalho nacional, mas representa aproximadamente um quarto do valor acrescentado da economia. Moçambique dispõe de cerca de 36 milhões de hectares de terra arável, dos quais aproximadamente três milhões têm potencial para irrigação, mas apenas cerca de 50 mil hectares estão efectivamente irrigados.

Salim Valá destacou também o baixo nível de comercialização da produção agrícola, estimando que, em média, os agregados familiares agrícolas comercializam cerca de 12% da sua produção.

“Aumentar a produção sem assegurar mercados, financiamento, logística e processamento industrial produz resultados económicos limitados”, advertiu.

Para o ministro, a transformação da agricultura exige uma abordagem que ultrapasse o aumento da produção e inclua o acesso aos mercados, a melhoria das infra-estruturas, a expansão da irrigação, o financiamento e o desenvolvimento da indústria de processamento.

“O verdadeiro valor económico da agricultura mede-se também pela indústria que alimenta, pelas empresas que dinamizam, pelos empregos que criam e pelos mercados que desenvolvem”, afirmou.

A obra apresenta, assim, um conjunto de evidências e propostas para orientar as políticas públicas e os investimentos privados, defendendo uma maior articulação entre os diferentes sectores da economia. 

A mensagem central dos autores é que o potencial agrícola de Moçambique só poderá traduzir-se em desenvolvimento sustentável se forem removidos, de forma coordenada, os obstáculos que limitam a produtividade, o rendimento dos produtores e a ligação entre a produção e a indústria.

 

A Vulcan defende que Moçambique aproveite o carvão mineral e os resíduos da actividade mineira para produzir electricidade e impulsionar a industrialização. A mineradora considera que os preços internacionais e os custos de transporte tornam necessário acrescentar valor aos recursos no país.

As oscilações das commodities condicionam a rentabilidade mineira. Depois dos máximos de 2022 e 2023, o carvão desvalorizou, reforçando o debate sobre o processamento local.

Chivambo Mamadhusen, representante das Minas de Moatize, considera que os conflitos internacionais contribuíram para a recuperação da indústria. “Desde que começou a guerra na Ucrânia e, consequentemente, outros conflitos, a indústria do carvão melhorou, não só a nível do preço, mas também por questões ambientais. Há uma década, foi instituído internacionalmente que os bancos não podiam financiar projectos ligados ao carvão. Tudo isso concorre para que o carvão seja mais usado, principalmente o coque na indústria do ferro”, afirmou.

Segundo Mamadhusen, a empresa minera cerca de 25 mil toneladas por mês para o mercado interno.

Actualmente, a tonelada de carvão metalúrgico custa menos de 270 dólares, abaixo dos mais de 400 dólares alcançados em 2022 e 2023. O carvão térmico também recuou dos 150 a 160 dólares registados em 2022.

Mukesh Kumar, chefe executivo da Vulcan, explicou que os preços começaram a recuperar, mas permanecem distantes dos níveis máximos. “Em 2023, o preço do carvão metalúrgico ultrapassou os 400 dólares. Já o preço do carvão térmico ultrapassou os 150 a 160 dólares em 2022. No ano passado, os preços atingiram os níveis mais baixos, com o carvão metalúrgico a registar uma média de apenas 175 dólares e o carvão térmico a custar pouco mais de 60 dólares”, disse.

O carvão metalúrgico passou a situar-se entre 220 e 250 dólares por tonelada, podendo ultrapassar esse intervalo, enquanto o carvão térmico voltou a superar os 105 a 110 dólares. Kumar admite que os preços poderão recuar quando a situação internacional normalizar.

A Vulcan afirma produzir cerca de 45 milhões de toneladas de carvão por ano em Tete, mas enfrenta dificuldades para escoar toda a produção devido às oscilações do mercado e aos custos logísticos. Defende a transformação local e o aproveitamento dos resíduos para produzir electricidade.

Kumar sustenta que os custos de transporte tornam pouco competitiva a exportação do carvão térmico a partir de algumas zonas de produção. “Temos de desenvolver a nossa industrialização com base nos preços médios, que rondam os 200 dólares para o carvão metalúrgico e os 70 a 75 dólares para o carvão térmico. A exportação do carvão térmico a partir desta região não é viável devido às limitações de infra-estruturas. O transporte de uma tonelada custa entre 50 e 55 dólares. Se tivermos de suportar esse custo, além das despesas de mineração, que margem de lucro nos resta?”, questionou.

A Vulcan propõe aproveitar os resíduos das minas, em vez de depender apenas da venda directa do carvão. A estratégia pretende gerar energia para Moçambique e países da região.

“Pretendemos aproveitar os resíduos gerados nas minas para produzir energia e transformar Moçambique num importante produtor e fornecedor. O objectivo é que o país possa fornecer energia à Zâmbia, ao Zimbabwe, ao Malawi e a outros países da região”, afirmou Kumar.

A Vulcan não rejeita a transição energética, mas defende que a diversificação considere o défice energético nacional. Para Kumar, o carvão continuará importante na produção de ferro e aço e na geração eléctrica, complementado pelas fontes solar, hídrica e eólica.

Kumar alertou que a produção hidroeléctrica está sujeita à variabilidade das chuvas e defendeu uma combinação de fontes para assegurar maior estabilidade.

A transformação local é também apontada como forma de reduzir importações e conquistar mercados externos noutros sectores. Francisco Pegado, director da Cimentos de Moçambique, afirmou que a produção nacional permitiu eliminar cerca de 100 milhões de dólares em importações anuais de clínquer.

“Estamos a exportar cimento para as ilhas Comores e Mayotte. Recentemente, iniciámos igualmente a exportação de clínquer para o Zimbabwe”, declarou Pegado.

Apesar desses avanços, o aumento da produção nacional nem sempre se reflecte de imediato no bolso do consumidor. O preço do saco de cimento em Moçambique continua elevado quando comparado com o de alguns países vizinhos. O desafio é que a produção nacional contribua para preços mais acessíveis.

No sector do carvão, a produção de energia a partir de resíduos mineiros poderá diversificar a actividade económica e acrescentar valor a um recurso cuja exportação depende dos preços internacionais e dos custos de logística. A concretização dessa aposta dependerá da viabilidade dos projectos, do investimento em infra-estruturas e da capacidade de disponibilizar energia a preços competitivos.

Única fábrica nacional de produção de painéis solares passa a ser gerida pelo grupo Jampur, do Dubai, ao abrigo de uma concessão de 20 anos que pretende reactivar a produção, modernizar equipamentos e responder à procura de soluções de energia solar no mercado nacional e nos países vizinhos. A transferência da gestão, assinalada esta quarta-feira, na Matola, ocorre depois de cerca de quatro anos de paralisação e de dificuldades técnicas que limitaram a competitividade da unidade industrial.

Inaugurada em 2013, no Parque Industrial de Beluluane, a fábrica representou um investimento de 13 milhões de dólares, financiado pelo Governo da Índia, e foi concebida para apoiar a produção nacional de painéis solares e os programas de electrificação, sobretudo nas zonas rurais. A retoma, porém, não será imediata: a nova gestão prevê substituir parte significativa dos equipamentos existentes e estima alcançar a produção plena no primeiro trimestre de 2027.

O presidente do Conselho de Administração do FUNAE, Mety Gondola, justificou a entrega da operação ao sector privado com limitações tecnológicas e de escala que impediam a fábrica de competir. A unidade produzia painéis com potência na ordem dos 270, enquanto produtos concorrentes chegavam a cerca de 670, além de apresentarem uma diferença de preço próxima de mil meticais. “A dimensão não nos permitia melhor escala. A potência máxima daquilo que se produzia não nos permitia ser competitivos com os produtos disponíveis no mercado, e havia ainda a questão do preço”, explicou Gondola.

A decisão enquadra-se, segundo o PCA do FUNAE, numa visão em que o fundo deve concentrar-se no financiamento e no apoio às políticas de energia, deixando a implementação e a operação de actividades industriais para operadores privados. Gondola ressalvou, contudo, que a passagem de gestão não significa o afastamento total do Estado. O FUNAE continuará a acompanhar a iniciativa e discute com a Jampur possibilidades de novos investimentos, incluindo a produção de contadores e outras soluções ligadas ao sector energético.

O responsável sublinhou ainda que a fábrica não deve orientar a sua produção apenas para grandes encomendas do Estado ou de empresas. Na sua perspectiva, a modernização deve permitir fabricar soluções de menor dimensão, acessíveis a famílias, pequenos produtores e agricultores que precisam de energia para desenvolver actividades nas suas machambas. A capacidade de responder a diferentes segmentos de mercado será, assim, uma das medidas da utilidade económica e social do empreendimento.

“Vamos determinar qual é a procura no mercado moçambicano, porque acreditamos que é elevada. Ainda não temos um número específico, mas será necessário investir bastante e serão criados muitos postos de trabalho”, declarou Muhammad shafiq, Presidente do Conselho de Administração do Grupo Jampur , acrescentando que a empresa pretende introduzir equipamentos novos. Segundo o gestor, parte dos equipamentos actualmente instalados tem entre dez e quinze anos e deverá ser substituída, por não corresponder às necessidades tecnológicas da produção que a Jampur pretende implementar.

A empresa afirma já ter iniciado os preparativos para trazer os novos equipamentos e indica que um fornecedor, identificado na intervenção como Red Solar, esteve recentemente no local. A meta anunciada é atingir a produção plena no primeiro trimestre de 2027. Até lá, permanecem por esclarecer o montante global a investir, a capacidade diária que será instalada e o calendário detalhado de entrada em funcionamento das diferentes fases da linha de produção.

Os dados apresentados pelo FUNAE ajudam a dimensionar o desafio. Antes da paralisação, a unidade conseguia produzir até 100 painéis por dia, segundo Joaquim Macanguisse, administrador do pelouro de projectos do fundo. O responsável afirmou que a Jampur está a avaliar as instalações para determinar a capacidade futura, mas espera que a adopção de tecnologia moderna permita aumentá-la de forma significativa.

Macanguisse explicou que a fábrica enfrentava dificuldades de manutenção e de acesso a matérias-primas e assistência técnica, num contexto em que as mudanças tecnológicas na indústria tornavam mais difícil manter os equipamentos em funcionamento. A falta de apoio especializado podia prolongar as interrupções, reduzindo a regularidade da produção e a capacidade de responder às encomendas. A transferência para um operador privado pretende, entre outros objectivos, ultrapassar estes constrangimentos operacionais.

A concessão também levanta questões sobre o emprego e a continuidade dos conhecimentos acumulados pela equipa anterior. De acordo com Macanguisse, os 14 trabalhadores que estavam afectos à fábrica eram funcionários do Estado e foram integrados em diferentes sectores do FUNAE após a paralisação da unidade. A nova gestão poderá contratar trabalhadores, em função das suas necessidades, e existe a possibilidade de alguns dos antigos funcionários transitarem para a Jampur, caso haja interesse e disponibilidade.

“Todos os trabalhadores que estavam aqui na fábrica já foram integrados em vários sectores do FUNAE”, afirmou Macanguisse, esclarecendo que os contratos existentes permanecem, em princípio, ligados ao fundo. O administrador não avançou uma previsão do número de novas vagas, remetendo a estratégia de recrutamento para a empresa concessionária. Assim, a promessa de criação de emprego ainda não está acompanhada por metas quantificadas, nem por um calendário de contratação.

O governador da província de Maputo, Manuel Tule, considera que a retoma poderá contribuir para alargar o acesso à energia, em particular nas comunidades onde a extensão da rede eléctrica convencional é difícil ou dispendiosa. O governante apontou a produção local como uma oportunidade para responder à procura interna e externa e reduzir a dependência de importações, embora o alcance desse efeito dependa da capacidade produtiva que vier a ser instalada e da competitividade dos painéis no mercado.

O governador apelou igualmente à contratação e capacitação de jovens locais, defendendo que a fábrica deve gerar benefícios para a população da região onde está instalada. Tule reconheceu que alguns candidatos poderão não dominar inicialmente a tecnologia a utilizar, mas considerou que a formação pode prepará-los para trabalhar na unidade. O apelo coloca a qualificação da mão-de-obra nacional entre as expectativas associadas à concessão, numa fase em que o plano concreto de contratação ainda não foi divulgado.

A passagem para a Jampur constitui, por isso, uma tentativa de recuperar um investimento público de 13 milhões de dólares e converter uma unidade inactiva num activo industrial operacional. O acordo abre espaço à modernização e a novas oportunidades de negócio, mas deixa por quantificar elementos essenciais para avaliar o seu impacto económico: o capital que será aplicado, a capacidade instalada, os empregos efectivamente criados e a parcela da procura nacional que poderá ser satisfeita pela produção local.

O primeiro trimestre de 2027 será o marco para avaliar a retoma. A execução dos investimentos, a produção e os empregos criados dirão se a concessão tornou viável este activo industrial em Moçambique.

O Tribunal Superior de Apelação de Londres indeferiu o recurso interposto pela família de Skandar Safa no contexto das dívidas ocultas, que contestava a decisão da primeira instância, de Junho de 2025, que determinou o ressarcimento ao Estado moçambicano, em substituição de Iskandar Safa, falecido no período entre o julgamento e a sentença do caso das dívidas ocultas.

A família alegava que não era justo responsabilizar a viúva e os filhos do empresário, por considerarem que estes não tinham qualquer envolvimento nos factos que levaram à contratação das dívidas ocultas pelo Estado moçambicano. Contudo, o Tribunal de Londres julgou o recurso improcedente e determinou o pagamento de pouco mais de 150 mil dólares em custas judiciais a favor de Moçambique.

De acordo com a fonte da PGR, esta decisão reforça as perspectivas de execução da sentença proferida na acção principal a favor do Estado moçambicano. Na sequência, estão já em curso diligências judiciais e extrajudiciais destinadas ao rastreio de activos que possam permitir o ressarcimento dos valores devidos.

Lembre-se que em Julho de 2024, a Privinvest foi condenada ao pagamento de 1,9 mil milhões de dólares ao Estado moçambicano.

O projecto prevê a instalação de quatro unidades de processamento de minerais a partir de 2027, na Zona Franca Industrial de Minheuene, província de Nampula.

A criação de um parque de processamento de recursos minerais em Nacala, província de Nampula, está prevista no âmbito de um memorando de entendimento assinado, esta terça-feira, entre o Ministério dos Recursos Minerais e Energia e a Nacala Park Management Co., Lda., constituída por iniciativa do grupo chinês Jinan Yuxiao. O projecto prevê um investimento inicial de 65 milhões de dólares norte-americanos e a instalação de quatro unidades industriais a partir de 2027.

O memorando foi assinado pelo ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estêvão Pale, e pelo presidente do Conselho de Administração do Grupo Yuxiao, Wu Tao, à margem da Conferência sobre Adição de Valor aos Recursos Minerais e Energéticos Disponíveis (CAVAME-d 2026), que contou com a presença do Presidente da República, Daniel Chapo.

A primeira fase do projecto contempla unidades de processamento de escória com alto teor de titânio, silicato de zircónio, háfnio de ultra-alta pureza e grafite de alta pureza. As instalações deverão ser implantadas nas zonas francas industriais de Locone e Minheuene, sendo que o parque ficará localizado nesta última, a cerca de dez quilómetros do Porto de Nacala.

Com uma área de 350 hectares, a Zona Franca Industrial de Minheuene ainda não iniciou as operações, decorridos quinze anos desde a sua criação. O memorando estabelece as bases de cooperação para o desenvolvimento das infra-estruturas, o licenciamento ambiental, o financiamento e a futura operação comercial do parque. Os pedidos de aprovação dos quatro projectos iniciais foram submetidos à Agência para a Promoção de Investimento e Exportações (APIEX) no dia 6 de Outubro, encontrando-se em tramitação a certificação da entidade operadora.

O projecto pretende reforçar o processamento de matérias-primas minerais em território nacional, numa aposta na transformação local dos recursos antes da sua exportação. Entre as matérias-primas previstas estão o concentrado de grafite proveniente do projecto DH e o concentrado de ilmenite extraído das minas do grupo.

A Câmara de Comércio Moçambique–Itália e a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos  mobilizam pequenas e médias empresas para uma maior aproximação aos investidores internacionais, com o objectivo de criar oportunidades de negócio no sector energético. A iniciativa decorreu no âmbito da Africa Energy Week 2026, realizada de 12 a 16 de Outubro, na Cidade do Cabo, África do Sul, segundo indica um documento da CCMI.

A mobilização envolveu jovens empresários e grandes operadores económicos moçambicanos, procurando facilitar contactos com multinacionais e potenciais parceiros comerciais. Em parceria com a ANIMA, Federação das Associações Nacionais da Indústria Mecânica de Itália, a CCMI promoveu igualmente a cooperação empresarial entre os dois países, com destaque para as áreas da engenharia, tecnologias energéticas, equipamentos industriais e serviços especializados.

O documento destaca ainda a participação do Banco Comercial e de Investimentos (BCI), sublinhando a importância das instituições financeiras no apoio ao investimento e à internacionalização das empresas nacionais. A iniciativa pretende promover a «transferência de conhecimento e desenvolvimento de fornecedores locais», criando condições para uma maior participação das empresas moçambicanas nas cadeias de fornecimento da indústria energética.

Entre as oportunidades destacadas está o projecto Mozambique LNG, na Bacia do Rovuma, cujo investimento inicial está estimado em 20 mil milhões de dólares norte-americanos. Segundo a CCMI, os grandes investimentos energéticos apresentam potencial para impulsionar a criação de emprego, o desenvolvimento de infra-estruturas e a contratação de empresas nacionais para o fornecimento de bens e serviços, desde que estas consigam responder às exigências técnicas e financeiras dos projectos.

Para a CCMI, o sucesso dos investimentos energéticos deve traduzir-se em benefícios concretos para o empresariado nacional. «O verdadeiro sucesso dos grandes investimentos energéticos mede-se também pela capacidade de gerar oportunidades concretas para as empresas moçambicanas, promover a transferência de tecnologia e transformar o potencial energético nacional em desenvolvimento económico», refere a instituição, defendendo o reforço das parcerias entre entidades públicas, empresas privadas e investidores internacionais.

 

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